Não é o poder militar do Irão que assusta os EUA

Manuel Raposo - Segunda-feira, 27 Janeiro, 2020

A crise que os EUA abriram com o Irão, levada pela quadrilha de Trump à beira da guerra, não tem nada a ver com o apregoado “perigo” de os iranianos fabricarem uma bomba atómica. Não é que eles não desejassem tê-la — ou que não merecessem tê-la (dizemos nós) para mais eficaz defesa da sua independência, como o caso da Coreia do Norte parece provar. A sanha dos EUA tem outras razões. O que está em causa é o facto de o Irão, nos 40 anos de independência que leva já desde a revolução de 1979, se ter tornado um país livre da tutela imperialista, quer de norte-americanos quer de europeus. Esse é que é o óbice.

A independência permitiu ao Irão, graças sobretudo ao petróleo, um desenvolvimento económico e social que o coloca a anos-luz do que era o país nos tempos do Xá e — apesar da ideologia confessional do regime — a longa distância dos regimes ditatoriais da península arábica, que norte-americanos e europeus tanto cuidam de manter.

Todos os relatórios da Agência Internacional de Energia Atómica — órgão de ONU encarregado de vigiar o cumprimento do acordo firmado em 2015 pelo Irão com os EUA, a França, o Reino Unido, a Alemanha, a Rússia e a China — atestam que nenhuma violação foi cometida pelos iranianos. Mais: tirando os EUA de Trump, nenhum outro signatário acusou o Irão de faltar aos compromissos. A razão da agressividade norte-americana está pois noutro lado.

A campanha contra o Irão movida pelo governo de Trump, seguido pelo Reino Unido de Boris Johnson, tem um fito muito concreto: impedir que o Irão se torne uma potência regional (desde logo, económica) que altere o chamado “equilíbrio” no Médio Oriente — como já está a acontecer. (1)

Ora, esse “equilíbrio”, historicamente montado pelo Reino Unido e depois mantido pelos EUA e seus aliados europeus, é na verdade um desequilíbrio completo de forças para o lado das potências imperialistas, obviamente com os EUA à cabeça. Como é sabido, Israel — que os EUA dotaram de armas nucleares, violando todos os tratados sobre a matéria — e as ditaduras árabes, são os principais sicários do imperialismo na região, encarregados de manter aquele desequilíbrio.

É assim que fontes de energia das mais importantes do mundo se mantêm sob domínio norte-americano e europeu. E que uma presença militar esmagadora se eterniza há décadas por toda a região, em bases terrestres, esquadras, material de guerra de última geração, milhares de homens.

O Irão, sobretudo depois da ocupação do Afeganistão e do Iraque pelos EUA, em 2001 e 2003, empenhou-se em romper o cerco de que estava a ser alvo — quer tomando posições num Iraque destroçado pela barbárie norte-americana, quer estabelecendo contactos com a resistência Talibã (a ponto de ter sido recentemente medianeiro entre esta e os EUA).

Por outro lado, a sua postura anti-imperialista e anti-sionista granjeou-lhe simpatias no Líbano, na Faixa de Gaza e na Síria, estabelecendo alianças nomeadamente com o Hezbolá, o Hamas e o regime sírio. O mesmo com os rebeldes Houtis, no Iémen, pela sua oposição à agressão saudita. (2)

A somar a isto, os acordos comerciais e a aproximação política com a Rússia e a China têm ajudado a sustentar a independência económica e política que o Irão mantém no panorama internacional, apesar das sanções e da diabolização a que tem sido sujeito pelas potências ocidentais.

Esta capacidade de resistência é um quebra-cabeças para os EUA — e um susto para os seus serventuários na zona, que só se aguentam atrelados ao poderio norte-americano. Preocupação tanto maior, para uns e para outros, quanto a aliança do Irão com a Rússia e a China favorece a influência destas duas potências na região. E essa influência tende a alargar-se e a consolidar-se por se basear num argumento decisivo: o crescente poder económico chinês, para o qual nem os EUA nem a Europa mostram ter antídotos.

O declínio da hegemonia dos EUA no Médio Oriente é parte do declínio geral do imperialismo norte-americano, facto que não só abre campo à expansão das novas potências mas também acirra a disputa entre velhas e novas potências. É este declínio que explica em grande medida a “imprevisibilidade” de que os europeus e outros aliados dos EUA acusam o rumo da política externa da Casa Branca nos últimos anos.

É ainda esse declínio que permite perceber a crescente agressividade de toda a política de Trump — rasgando acordos, quebrando alianças, procurando novos parceiros, reforçando laços mercenários com Estados fora-da-lei (como, no caso, Israel e Arábia Saudita), lançando sem pudor ameaças de guerra e destruição em todas as direcções. Em limite, o recurso às armas tende a tornar-se o argumento exclusivo do poderio norte-americano.

Mas o declínio dos EUA representa também uma abertura para que a luta dos povos se desenvolva e ganhe novas dimensões. Não obstante o carácter confessional e reaccionário do regime dos aiatolás, o Irão, por razões de interesse nacional de uma burguesia poderosa, enfrenta o imperialismo como poucos têm coragem de fazer nos dias que correm.

É nessa qualidade de força anti-imperialista, e enquanto assim se mantiver, que o Irão deve ser inequivocamente apoiado pela esquerda europeia e mundial, na medida em que a sua luta ajudará a desgastar e a abater o principal inimigo dos povos na actualidade, o primeiro fautor de guerra que ameaça a humanidade por inteiro: o capitalismo imperialista norte-americano.

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(1) Esse é o alvo das sanções económicas impostas ao Irão. Sempre capitaneadas pelos EUA, foram iniciadas em 1979, após a revolução que depôs o Xá. Sob pretextos vários, foram sendo repetidamente mantidas, re-impostas ou reforçadas por todos os presidentes norte-americanos desde então. Em 40 anos, apenas não vigoraram por períodos curtos: de 1981 a 1987, na sequência dos acordos de Argel, que puseram fim à chamada “crise dos reféns”; e de 2015 a 2018 por força do acordo multilateral que Trump acabou por rasgar.
(2) Considerando inaceitável esta influência política, o governo dos EUA chama-lhe “acção terrorista”, tentando com isso dar cobertura aos seus próprios actos de terrorismo de Estado — como foi o assassinato do general Suleimani.

(Actualização feita em 31.01.2020)






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