Extremosos democratas

Urbano de Campos - Sexta-feira, 15 Março, 2019

O Parlamento Europeu enviou à Colômbia uma delegação, que pretendia entrar na Venezuela a 23 de Fevereiro, para apoiar Guaidó e dar cobertura à manobra montada pelos EUA a pretexto da “ajuda humanitária”. Como se sabe, ficaram na fronteira, juntamente com os camiões. Da delegação fazia parte Paulo Rangel (PSD), que se tem destacado no ataque ao regime venezuelano, invocando sempre, claro está, os interesses “do povo”. Ora, o fulano traz consigo uma história que, nesta ocasião, vale a pena relembrar.

No ano passado, em Julho, a Transparency International (TI), uma organização que denuncia casos de corrupção e “falta de transparência” no exercício de cargos públicos, divulgou um relatório em que dava conta dos ganhos dos deputados do PE à margem das suas funções enquanto parlamentares. O estudo foi feito com base em registos entregues pelos 751 eurodeputados eleitos e procedeu à análise de mais de 2 mil declarações de interesses financeiros desses mesmos deputados — assente portanto em documentação originada pelos próprios.

Resultado: Um terço dos eurodeputados desempenha trabalhos paralelos remunerados, estranhos às funções para que foram eleitos, vários deles violando disposições do Parlamento mas nunca penalizados. O número dessas diversas actividades (1366) aumentou 13% desde a tomada de posse em 2014, mostrando que a imaginação não tem limites. No total, esses trabalhos paralelos renderam seguramente mais de 18 milhões de euros e muito possivelmente até 41 milhões. Os dois grupos parlamentares com maior número de deputados envolvidos nestas actividades, muitas delas nem sequer esclarecidas, são os mais à direita (ENL e PPE, este último a que pertencem o PSD e o CDS).

Dizia a propósito um dos responsáveis pela investigação (Daniel Freund): “Grandes rendimentos auferidos por fora significam um sério risco de conflitos de interesses”. E perguntava: “Que interesses estão, na verdade, esses deputados a representar? Os dos cidadãos ou os daqueles que lhes pagam os empregos paralelos?”. Boas perguntas.

Paulo Rangel era apontado no relatório (ver aqui) como tendo ganho em diversas actividades paralelas, de 2014 a 2018, um montante situado entre 280 mil e 704 mil euros — um número significativo, apesar da latitude das balizas. Rangel indicou seis actividades remuneradas para além da de deputado. E ficou situado num invejável quadro de honra: o 12.º lugar entre os 30 eurodeputados com mais ganhos por fora! Um exemplo vivo do esforço para colocar Portugal no “pelotão da frente”, como defendia Cavaco Silva, com a sua idiossincrasia de ciclista.

Um dado suplementar, para que se avalie bem a teia em que se movem estes personagens: só por si, o vencimento mensal dos eurodeputados é de quase 8.500 euros, a que se somam os subsídios, resultando em média entre 10 e 12 mil euros por mês.

Para além da pouca vergonha que o estudo da TI revela, mostrando o PE como um viveiro de aproveitadores que prestam toda a espécie de serviços que lhes possam render mais uns milhares de euros; para além de se constatar que o PE não liga nenhuma aos seus próprios regulamentos e não fará nada para pôr cobro ao desmando — para além disso, fica à vista a autoridade moral de Rangel e de todos os demais rangéis para tentarem impor à Venezuela uma “verdadeira democracia”, como todos eles pregam.

A liberdade, a legalidade e a transparência que esta gente defende, e que a comunicação social não se cansa de ecoar, tem de ser vista à luz destes comportamentos concretos e do que eles revelam de entendimento com os grandes poderes económicos e políticos da União Europeia. Como alguém dizia, isto anda tudo ligado.






2 Comentários a “Extremosos democratas”

  1. leonel clérigo disse:

    Ao ler o texto acima do MV – que julgo ser da Redação pelo facto de não vir assinado – sou forçado a fazer um reparo: um gajo já não pode fazer uns “biscates” neste país?…
    Um alemão, um holandês, ou vá lá… um francês, que têm um ordenado razoável e se podem dar ao luxo de viver dele com a mulher e os filhos, não se podem comparar com o coitado do pobrezinho do “tuga”, subdesenvolvido e dependente – o Deputado Paulo Rangel do PPD não foge à regra – que necessita de arranjar um “aconchego” para chegar ao fim do mês sem dívidas ao merceeiro?
    Além disso, alguém sabe qual o risco que um tipo corre quando vai à Venezuela apoiar o Democrata Guaidó – como foi o Deputado Paulo Rangel do PPD – mesmo sendo coberto pela CIA e o exército dos USA? Não é com o ordenado – mesmo europeu – dum Deputado Tuga que se pode pagar um “seguro de vida” a uma companhia de seguros que nos leva “o coiro e o cabelo”. Isto é uma missão perigosa e custa caro!…
    Também é preciso dar atenção: um tipo que anda nestas coisas dos “Direitos Humanos” patrocinados pelos “países ricos” – que adoram petróleo – tem que andar bem “vestidinho” e não de “fato de macaco”. Não fica nada bem a um deputado europeu aparecer na televisão vestido “à javardão”. E um fato que não faça “pregas” não é brinquedo? Custa caro…
    E as viagens para atravessar o Atlântico de avião não são caríssimas, mesmo na classe “turística”? A não ser que a “Boeing” comece a oferecer viagens “à borla” para não falir?…
    E o Hotel? Não me venham dizer que ficava bem ao Sr. Deputado Paulo Rangel do PPD – ainda por cima em “missão” do PPE europeu – dormir ao relento ou numa tenda junto com as tendas dos pelintras da “classe média” Venezuelana?…
    Como diz o texto e nisso estou de acordo, “Isto anda tudo ligado”…Mais uma razão para, no futuro, o MV compreender que “maus ordenados” (1) “andam ligados” à necessidade dos Deputados fazerem “biscates”. Há algum azar nisso…

    (1) – Quem não vai ficar nada satisfeito com os “maus ordenados” dos Deputados é o nosso “aristocrata” da Indústria o Sr. Pedro Ferraz da Costa, um “desenvolvimentista” com largas provas dadas no Rentismo. Para isso, esteve 20 anos à frente da CIP e o País “desenvolveu-se” p’ra caraças.

  2. Redacção disse:

    O texto “Extremosos democratas” é de Urbano de Campos. Por lapso saiu sem essa referência.
    Obrigado, Leonel Clérigo, pelo reparo.
    A redacção

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