Escândalo de gravações apagadas traz a lume

Os métodos de tortura da CIA

JMB (com agências e The Guardian) - Sexta-feira, 21 Dezembro, 2007

tortura_72dpi.jpgHá cerca de 2 semanas, no ambiente de tricas eleitorais entre os dois partidos do regime nos EUA, surgiu mais um escândalo relacionado com a CIA. O director da agência teria dado ordens para destruir as gravações vídeo dos interrogatórios de dois “suspeitos de terrorismo”. Pode-se imaginar o teor dessas imagens… e compreende-se a pressa de as destruir.

A vantagem desta disputa, em torno de simples questões de “legalidade”, é chamar a atenção do mundo para as práticas criminosas das secretas estadunidenses, nomeadamente no que diz respeito às técnicas de tortura em interrogatório, agora consentidas e legalmente consagradas pelo governo e pelo Congresso.

O jornal britânico The Guardian do passado dia 14 de Dezembro, faz um apanhado do que chama “a florescente terminologia de eufemismos agora usados pela administração Bush para descrever aquilo que o próprio presidente gosta de referir como «as ferramentas necessárias para proteger o povo estadunidense»”.

Para não termos dúvidas sobre a escumalha com quem estamos a lidar – e sobre o que espera qualquer um de nós que, por qualquer azar, lhes caia nas mãos –, o Guardian enumera alguns desses eufemismos, palavras brandas com que designam as piores sevícias que se possa imaginar:

* “métodos especiais de interrogatório”, também designados por “técnica reforçada de interrogação coerciva” – o nome geral das torturas praticadas, todas elas proibidas pelas Convenções de Genebra;
* “buracos negros” – as prisões ou centros de interrogatório secretos da CIA, onde se praticam as ditas “técnicas reforçadas”;
* “combatentes ilegais” – as pessoas a quem essas técnicas são aplicadas (repare-se no “ilegais”!);
* “controlo do sono” – a nossa conhecida tortura do sono, outrora usada pela PIDE;
* “posição de stress” – a também nossa conhecida tortura pidesca da estátua, mas ainda mais refinada: o preso é obrigado a estar de pé dezenas de horas seguidas, mantendo os braços levantados; uma variedade possível é ser pendurado do tecto sem os pés tocarem o chão;
* “entregas especiais” – raptos e sequestros, com transportes aéreos especiais, muitos deles via Base das Lages (Açores), com o consentimento do governo português;
* “simulação de afogamento” – técnica celebrizada pelos militares franceses na Argélia, mas já muito antiga, que consiste em manter a cabeça do preso dentro de água (balde, sanita, banheira) até ao último limite do afogamento; está provado que os danos cerebrais são irreversíveis e, quando os pulmões ou o coração não aguentam, morre mesmo;
* “maximizar o medo” – pode ir de um simples facalhão em cima da mesa até atirar com os móveis pela sala; ou ainda, para aterrorizar os que são crentes, mostrar-lhes imagens pornográficas para saberem que ao morrer (em breve) irão para o inferno;
* “humilhação sexual” – o preso é deixado completamente nú e obrigado a assumir posições explicitamente sexuais;
* “contacto físico suave sem provocar ferimentos externos” – uma forte bofetada num ouvido, uma perna partida, etc.

Os nazis da Gestapo chamavam a estes métodos “técnicas de interrogatório sofisticadas”.

A finalidade destas torturas – autorizadas pelo governo dos EUA – não pode ser a obtenção de informações “para salvar vidas”, como dizem. Qualquer preso assim torturado inventa o que for preciso para saciar os torturadores. A CIA, sabendo isto, não pode esperar grandes resultados. O que pretende mesmo é aterrorizar. Os presos e toda a gente cá fora. Obrigar as pessoas a pensarem duas vezes antes de se atreverem a discordar em voz alta.

São estes os defensores da liberdade e dos direitos humanos. É esta a verdadeira face dos “nossos amigos” do lado de lá do Atlântico, os líderes da NATO, os aliados de Sócrates, de Durão e de Paulo Portas.






2 Comentários a “Os métodos de tortura da CIA”

  1. carmélio disse:

    JMB,

    Estou correcto se adicionar Mário Soares aos nomes de Sócrates, Durão e Paulo Portas?
    Pergunto porque a frase está no presente e não no passado.

  2. ricardo disse:

    Se estes são métodos usados por regimes ditatoriais, porque são usados pelos ‘democráticos’? Ou como a praxis é que afere quem é quem. Ou a impossibilidade de governar em democracia e, as sociedades têm que ser governadas por elites de cleptocratas ou com o sentido de levar a sociedade a um estágio superior em que de facto tenham uma vida digna.

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