2017: “banqueiros anarquistas”?

António Louçã - Quarta-feira, 10 Janeiro, 2018

deslizamento-terras_cropHá meia dúzia de anos era uso troçar do regime parlamentar belga, que levou quase um ano e meio (2010-2011) sem conseguir produzir governo algum. Em 2016, a necessidade de repetir as eleições espanholas ainda suscitou uma ou outra graçola, depois de seis meses de tentativas para criar um governo baseado nos resultados eleitorais do ano anterior. Em 2018, a grande Alemanha vai a caminho do quarto mês de negociações infrutíferas, ainda sem governo, e correndo o risco de ter de repetir também as eleições. Mas da Alemanha já ninguém troça.

A súbita ausência de chufas e sarcasmos não se deve apenas a que, como diria Juncker, a Alemanha é a Alemanha, mas sobretudo ao facto de a maior potência europeia estar, em matéria de desgoverno, acompanhada pela maior potência mundial. Embora Donald Trump tenha tomado posse, e dado posse aos membros da sua administração, a verdade é que o primeiro ano de mandato dificilmente pode ser objecto de um balanço com os critérios habituais.

A recentíssima publicação do livro de Michael Wolff Fire and Fury trouxe à luz do dia o ambiente interno da clique trumpiana, que mais se assemelha a uma aldeia dos macacos embriagada com os eflúvios do poder. O presidente, que os seus cortesãos classificam como “um génio” e que se classifica a si próprio como “um gajo esperto,” mede o seu botão nuclear com o de Kim Jong-Un e olha o mundo todo — a sua paz podre, as suas cínicas combinações diplomáticas, os seus frágeis compromissos de política ambiental —, olha-os a todos com a mesma fixação megalómana e piromaníaca que inspirava Nero no seu olhar sobre Roma.

Tal como a Bélgica entre governos, tal como a Espanha entre eleições, tal como a Alemanha entre as eleições e o que vier, os EUA têm vivido este ano com o leme trancado, em piloto automático, com os funcionários a tomarem decisões por inércia e rotina. E o dramatismo histriónico de algumas declarações trumpianas — sobre as alterações climáticas, sobre Jerusalém — não passa afinal do reconhecimento de situações de facto, que a hipocrisia reinante até aqui mantivera mais ou menos dissimuladas.

Diante deste quadro, é grande a tentação de pensar que o poder político se tornou mera ficção e que as verdadeiras decisões são tomadas pelo poder económico. Num mundo globalizado, a soberania nacional tornou-se tão falaciosa como as formas democráticas. Faz muito mais diferença saber quem substituirá Mario Draghi à frente do BCE do que saber se um idiota como Dijsselbloem foi substituído por um bom aluno como Centeno. E também os países podem viver sem governo: os banqueiros prosperam no caos, porque nesse caos mandam os poderes fácticos e não os fantoches emproados. Os “banqueiros anarquistas” são na verdade banqueiros autocratas, com suficiente influência para impor o resgate público de bancos “demasiado grandes para falirem”.

Há nesta visão simplista um grão de verdade, que desautoriza os cretinismos eleitorais e parlamentares. Mas não é esta a verdade essencial do mundo contemporâneo. Os regimes políticos vigentes criaram os seus aparelhos, as suas rotinas e as suas inércias, mas esses aparelhos, rotinas e inércias, capazes de manter o rumo, não podem tomar decisões de fundo, quando esse rumo leva em linha recta ao abismo.

O risco de um holocausto nuclear não advém de hoje ocupar a Casa Branca um inquilino infantil, caprichoso e imprevisível. O risco existe, mesmo sem essa apetência subjectiva para apertar o botão nuclear. Como numa encosta de declive acentuado, o mundo parece rolar em direcção a uma catástrofe — nuclear ou outra — que acontecerá se tudo for deixado à força da gravidade. Falta uma liderança global que desligue o piloto automático e o substitua por um sistema de decisões racionais, com a racionalidade a que só as classes produtoras podem dar corpo e forma.






Um Comentário a “2017: “banqueiros anarquistas”?”

  1. António Alvão disse:

    Porque não dizer “banqueiros marxistas”? Em Angola, China, etc. há muitos, talvez em Portugal também(?)
    Por que é que tem que se associar a palavra Anarquia, mesmo que seja entre comas, ao banditismo político/económico do capitalismo democrático e selvagem,que muita esquerda tanto gosta -para encher a blusa!
    Se um dia a humanidade fizer opção pela Anarquia – O vil metal desaparecerá, porque é o pai e a mãe de toda a espécie de crime, como não dá para comer, vestir e calçar, elimina-se.
    O anti-Anarquismo primário, não é um exclusivo do fascismo/nazi; vem também d’outras ditaduras e autoritarismos. Na revolução soviética, para eliminar a liberdade e o socialismo, tiveram que “varrer com uma vassoura de ferro” o Anarquismo, a começar pelo carrasco de Kronstadt.
    Lutar pela liberdade, igualdade económica; e pela emancipação do género humano, ainda não é tarefa fácil para os Anarquistas. Não é dos Anarquistas que a história da humanidade se queixa; mas sim dos seus antípodas.
    “A Anarquia pode chegar amanhã, depois; chegue quando chegar – a luta já tem que ser hoje” – Élisée Reclus.

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