O seu a seu dono

Na morte de Mário Soares

Manuel Raposo - Segunda-feira, 16 Janeiro, 2017

Portugal's former President and PM Soares is seen during an interview with Reuters in LisbonDo enorme esforço de propaganda desenvolvido, até à náusea, nos dias seguintes à morte de Mário Soares ressalta o propósito de criar a imagem de um Soares coerente em todo o seu percurso de vida política — antes e depois de 74 —, sempre do mesmo lado da barricada. É um expediente que convém à direita e ao poder instalado, que por isso o crismam sem problemas de “pai da democracia” e o apresentam como lutador indefectível pela “liberdade”. Soares é de facto um dos pais desta esvaziada democracia e da liberdade sem freio de que desfruta a burguesia pós-abrilista. Mas não mais do que isso.

Para elevar o antifascismo de Soares aos cumes que ele não atingiu, a onda de propaganda apagou desavergonhadamente toda a resistência dos milhares de lutadores (anónimos ou não, comunistas, anarquistas, democratas de várias correntes, operários, gente do povo), que chegaram a pagar com a vida as suas convicções democráticas ou revolucionárias. A mistificação chegou ao ponto de um comentador (1) quase reduzir a luta antifascista à pessoa de Soares: “…era Mário Soares quem se erguia, nos círculos da oposição democrática” (subtil restrição, esta da oposição democrática!) “tentando que o fio da esperança no futuro não se quebrasse no longo labirinto da ditadura.” Belo.
Ninguém na esquerda retira a Soares o seu papel de anti-salazarista e anti-marcelista, mas é de toda a conveniência manter a noção das proporções para não se cair em ridículo.

A coerência que, retrospectivamente, pode atribuir-se a Soares foi a de ter pugnado desde sempre pela instauração de um regime democrático-burguês como o que hoje existe. Soares foi por isso antifascista quando precisou de contar com a força popular de oposição à ditadura a fim de derrubar o regime — porque a burguesia portuguesa de então, como classe, não mostrava nem força nem convicção para o fazer por si. Ou quando, nos meses imediatos ao golpe de estado de 74, a onda popular lhe era útil para derrotar definitivamente a resistência dos fascistas.
Mas logo que essa fase passou, Soares virou o fogo contra a onda popular, de sentido revolucionário, que então se afirmava. Depois de passar pela barricada antifascista onde se confundia com o povo, emergiu na barricada do capital ombro-a-ombro com toda a direita. Foi esse “o PS do sr. dr. Mário Soares” que a direita, muito justamente, invocou para acusar António Costa, há pouco mais de um ano, de renegar a história do partido.

Quer-se fazer esquecer que, a par de um antifascismo burguês — que ambicionava libertar-se das peias salazaristas para dar curso a um poder burguês moderno —, existiu um antifascismo popular, potencialmente revolucionário, que tinha nas estruturas do poder capitalista o seu alvo e visava com isso toda a burguesia.
Foi este que emergiu, espontânea e confusamente, depois do golpe de estado dos capitães, por uns breves 19 meses. Foi este que arrepiou toda a burguesia e levou Soares a revelar-se e a tornar-se o líder efectivo da direita portuguesa, combatendo com todo o denodo e convicção aquilo a que o poder de hoje chama “deriva totalitarista”. Verdadeiramente, é por este serviço que a burguesia portuguesa presta homenagem a Soares e não pelo seu antifascismo.

Esta escolha de campo evidenciada em 75 foi natural e sem problemas em Mário Soares. Estará aí a constância que lhe atribuem. Mas que não se mascare sob cognomes de circunstância, para consumo popular, a natureza de classe da acção de Soares.
Ele foi na verdade o exemplo do político oportunista, no sentido original do termo: o político que aposta na oportunidade.
O anti-salazarista nunca distraiu o burguês vigilante contra o antifascismo popular e o comunismo. O ministro encarregue da descolonização (pois que remédio…) veste a mesma pele do adepto de Savimbi, apoiado na África do Sul racista e no imperialismo norte-americano. O dirigente socialista coexistiu com o primeiro-ministro que manda o socialismo às urtigas (negando sempre, peremptório, que o esteja “a pôr na gaveta”!). A retórica sobre uma “sociedade sem classes” não o impediu de promover a recuperação capitalista, na pessoa dos próprios capitalistas e agrários de antanho. Reclamar-se de esquerda nunca foi obstáculo para buscar aliados à direita sempre que precisou de apoios parlamentares.

Por vezes, as reais convicções de Soares acerca da liberdade e da defesa dos interesses do povo revelam-se nas suas próprias palavras. Em entrevistas dadas nos últimos anos, recordando o golpe de 25 de Novembro de 75, disse sem rebuço (talvez já com o despudor dos 90 anos) que “se os comunistas tivessem tomado a comuna de Lisboa, nós bombardeávamos Lisboa”. E descreveu com gáudio, 40 anos depois!, os apoios (inclusive militares e logísticos) que foram prestados ao golpe da direita pelos EUA, o Reino Unido, a Alemanha, etc., como um ponto alto do seu currículo. (2)
Como é fácil de ver, os “comunistas” e a “comuna de Lisboa” eram, em 75, os sectores populares e operários mais à esquerda, que queriam levar mais longe a transformação do país. Isto mostra bem o extremo que Soares esteve disposto a atingir para esmagar (à bomba, se preciso fosse) as veleidades da população mais lúcida e radical e instaurar a ordem novembrista.

A este regime chamava ele, e toda a burguesia hoje, uma democracia “moderna”, “europeia”. Ela aí está de facto: abstenção maciça, descrédito irremediável dos dirigentes políticos e das instituições, corrupção sem limites, enriquecimento sem freio, degradação da condição social do povo.
O porquê não é difícil de entender: o poder de decidir democraticamente (mesmo com todas as limitações de então) foi experimentado pelas massas populares no breve ano e meio de 74-75; o seu resultado prático foi visto nos plenários, nas ocupações de casas e campos, na participação sindical, no esboço de controlo sobre as empresas. Milhares de pessoas participaram empenhada e activamente nestes movimentos, e viram, em consequência disso mesmo, as suas condições de vida e a sua posição social melhoradas. O reverso do que hoje acontece.
Foi esse poder efectivo de intervir na vida colectiva que a “democracia representativa”, tão celebrada como supra-sumo da vida social “moderna”, retirou às massas trabalhadoras. O poder passou, sem partilha, para as mãos de uma clique burguesa servida por um aparelho de Estado omnipresente e obediente. Obviamente, as massas populares viram costas a esta democracia porque ela não as representa e não serve os seus interesses. O seu a seu dono.

(1) Soromenho-Marques, Diário de Notícias (11.1.17)
(2) Declarações à Agência Brasil (25.4.2013) e outros meios de comunicação






2 Comentários a “O seu a seu dono”

  1. leonel clérigo disse:

    DEUSES E MORTAIS

    Não é pelo facto de “os poderes que existem” colocarem um simples mortal no centro do Olimpo – mesmo que seja o terreno Olimpo das Descobertas – que ele se furta ao julgamento da História: o texto acima de Manuel Raposo é disso um bom exemplo, abrindo as portas ao único julgamento a Mário Soares digno desse nome, porque feito em nome da Sociedade dos Homens e não da “lírica sentimental” de classe.

    1 – Em minha modesta opinião, Mário Soares não foi um homem com uma vida plena de “contradições”, coisa que só poderia acontecer se a sua consciência de “pertença de classe” navegasse (oportunisticamente) ao sabor dos “agudos” momentos de “desequilíbrio” das forças sociais em luta. Pelo contrário: nas “principais” opções da sua vida, tudo parece “conjugar-se” e Soares sempre soube, coerentemente, escolher o lado da trincheira burguesa para as suas batalhas. E nisso, não pode haver confusão: o seu válido combate “democrático” é burguês e termina em Abril: a partir daí, “outro galo cantará”, apesar das suas diferenças das capoeiras PPD e CDS, que nasceram com a missão de acolherem, debaixo das asas, os “desprotegidos” do fim do fascismo. Por isso, este país nunca mais “desengoma”: a “conciliação de classes” parece sina lusa em fazer permanecer , mesmo com o “cinto apertado”, um mundo “impávido e sereno”.

    2 – Se não se pode separar Soares do PS – é, de facto, o seu “pai” – então este Partido, na sua “origem” e “acção no tempo”, é também um espelho de Mário Soares, com a sua aparência “oscilante” mas, lá bem no fundo, pleno de “coerência de classe”. Quem hoje se pode ainda surpreender com o “esquerdismo” das intervenções na “Constituinte” ou da “Política Económica de Transição” e, de seguida, olha abismado o “direitismo” do neoliberal “Finisterra nº 1”, não pode achar a visita de Soares ao “Cardeal” do neoliberalismo Popper, mera visita de cortesia e apenas para não fazer “desfeita” ao “contributo” de J. C. Espada. Meter o “socialismo na gaveta” não é uma questão de “conjuntura”, mesmo para um “sábio” da “táctica”, mas de “visão do mundo” o que, só por si, levaria a um “congresso extraordinário” do PS. Nesse sentido, Valles acertou em cheio: definir o que é Socialismo, não está no ADN da Social-Democracia. Parafraseando Raúl Proença, é “Flatus Vocis” ou, como diz a canção infantil francesa, “faire pipi sur le gazon pour arroser les coccinelles”…

    3 – O que se esperava de quem “trava combates” contra erradas “derivas totalitárias” – o “Olhe que não, olhe que não..” de Cunhal indicava o caminho livre… – é que apresentasse aos simples mortais lusos uma solução consistente para os graves “problemas nacionais”, nomeadamente, a solução para o seu “atraso económico” e não a popularucha e ineficaz “estratégia” do “Encosta-te aos bons (a Europa Desenvolvida) e serás um deles…” Com isso, prolongou-se – mais uma vez! – o poder duma classe burguesa “ociosa”, de larga tradição mercantil (e não “produtivista”), que saiu aflita do fascismo para se esconder “debaixo da asa” do “poder” do PS, PSD e CDS, o dito e fantasmagórico “arco da governação”. O resto que sobra, é a dívida astronómica, irmã gémea do “turismo”, dos passeios de barco rios acima… enfim, da “economia das compotas” e dos “serviços” à Cavaco. Produção Industrial, essa – aparte a Alemã Autoeuropa – foi coisa banida da “Margem Sul” por fomentar um “perigoso sovietismo”, o que só por si dá conta duma burguesia de “terceira ordem” (ou quinta?…). Quanto à indústria, essa instalou-se agora no “aprazível” Rio Ave dos Ferraris e dos Porches que fazem o encanto dos “feirantes do gado” da Indústria.

  2. António Alvão disse:

    Só a imbecilidade e a submissão cria os amos, paizinhos da democracia e dos povos. Estes ditadores: da dita-dura e da dita-mole, adoravam e adoram ser adorados, precisamente, pelas tais pessoas com vocação de criadagem, porque, “o medo de ser livre cria o orgulho de ser escravo” – “a rebeldia (que os autoritários não gostam) é vida e a submissão é morte!!! – As crianças nas escolas deveriam de ser ensinadas a serem rebeldes e não a obedecer! Um País com quase 900 anos, os governantes desde o séc. XII até aos dias de hoje, ainda não conseguiram fazer uma lei em que nos possamos encontrar todos bem, numa comunidade que sirva a tudo e a todos. A ausência de tal projecto harmonioso e fraterno, a que um povo tem direito, deve-se à Anarquia – que os políticos não gostam – ou à cretinagem política!?

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