Morte de soldado português no Afeganistão

Governantes e PR recuperam a retórica patrioteira dos tempos da guerra colonial

M. Raposo - Segunda-feira, 3 Dezembro, 2007

Um soldado português morreu no Afeganistão a 23 de Novembro vítima de acidente com o blindado em que viajava, com outros soldados, durante uma patrulha noturna. O ministro da Defesa, Severiano Teixeira, procurou engrandecer o acontecimento dizendo que a morte se tinha dado “ao serviço da pátria”. O mesmo fez Cavaco Silva afirmando que Sérgio Pedrosa “perdeu a vida ao serviço de Portugal”. Esta encenação em torno do “dever de servir” não ficaria completa se o primeiro ministro Sócrates não tivesse feito a visita ritual à família, a quem apresentou as condolências da praxe com ar compungido.

O PR procurou ainda atenuar na opinião pública os efeitos negativos do sucedido ao fazer questão de afirmar que a morte se tinha dado “não em combate, mas num acidente rodoviário”, omitindo o facto de o grupo estar a efectuar uma patrulha. E acrescentou, adivinhando as críticas da população ao papel de Portugal nesta guerra, que os soldados portugueses no Afeganistão “prestam um serviço à causa da paz e da segurança e prestigiam o nome de Portugal”.

O governo anunciou entretanto que o destacamento português no Afeganistão vai ser reduzido de 162 para 15 militares até Agosto do ano que vem. Mas esta retirada parcial – que mereceu dura reprimenda do embaixador norte-americano em Lisboa, sem que o governo português reagisse – não muda a questão política de fundo que é a colaboração prestada pelas autoridades portuguesas às agressões militares capitaneadas pelos EUA sob a capa das obrigações assumidas no âmbito da Nato. A manter-se este princípio, como até à data, o país estará condenado a servir de auxiliar das acções guerreiras ditadas pelos interesses imperialistas dos EUA, empenhando nisso dinheiro, homens e sujeição política.






2 Comentários a “Morte de soldado português no Afeganistão”

  1. luis eloy disse:

    Ao ler este artigo, vem-me um gosto amargo à boca. Tenho a sensação que a sociedade faz marcha atrás em termos de evolução do pensamento. Quem, da geração que viu começar e acabar a guerra colonial, com o seu desfile de misérias e violências gratuitas, poderia imaginar que, hoje, um pai contemporize com o facto de um filho se deixar engajar neste tipo de alucinação guerreira. Será somente ignorância ou algo de mais grave? Por ignorância se partia nos anos 60 e 70 para ir fazer a guerra contra povos de quem se ignorava tudo, até o seu justo direito à independência e ao respeito. Por ignorância e cobardia, muitas vezes. Raras vezes por convicção. A ignorância não me parece argumento válido hoje em dia.
    Tento imaginar a dor dum pai que vê regressar o filho morto.Tento pôr-me no seu lugar, e sinto que razão tinha o meu velho, quando, vendo aproximar-se a idade de incorporação militar dos seus filhos nos disse: se algum se deixasse embarcar nessa guerra, nunca mais lhe olharia para a cara. E assim se fez,nenhum de nós se deixou levar pela estupidez dessa guerra. Foi difícil tomar esta decisão, estar contra o sistema era perigoso e desorganizou a vida a muitos milhares de jovens da minha geração.O “passaporte de coelho” não era um meio fácil de deixar o país.
    Mas era a posição moral que se impunha, e tenho orgulho disso. E por ser consequente direi aos meus filhos o que o velho me disse. Sei que, apesar da propaganda vergonhosa de governantes como os nossos,que não hesitam em confundir pátria com ditames de Bush e outros celerados, filho meu será sempre contra este tipo alienação guerreira. Esse é o dever dum pai hoje em dia. Prefiro estar contra este sistema em que um primeiro ministro invoca o facto de ter sido enganado pelo senhor Bush, para justificar o colaboracionismo (agora que as coisas estão a mudar no Iraque onde o todo poderoso império yankee está a levar nos dentes. Mas o crime foi cometido, a sociedade iraquiana actual raza a fronteira da barbárie, devido a este e outros colaboracionismos). Prefiro isto a ver os nossos próceres de todas as cores a chorar lágrimas de crocodilo sobre a campa dum jovem, que poderia ser o meu filho. Porque será que os filhos dos que nos mandam para a guerra nunca receberam este tipo de homenagem? -Elucidativo,não?

  2. antonio alvao carvalho disse:

    Quanto à morte do soldado português…
    Urge, há mais de dois mil anos, a ideia da desmilitarização. Os militares embrutecidos pela ausência de cultura, atrofiamento intelectual, incapazes de pensar pela sua cabeça; serviram assim ao longo da história a grande besta humana: tiranos, ditadores, totalitários, autoritários e democratas.
    O militarismo desde o império romano (onde ele nasce) mais não fez que não fosse a matança dos povos indefesos, aquando das invasões, colonizações, piratarias, golpes de estado, guerras civis, massacres contra trabalhadores: pelas greves gerais e quando estes lutam pela sua emancipação, tiveram sempre como impedimento a bota cardada. Sempre dispostos a servir o seu Senhor – seja ele totalitário ou mesmo democrata.
    Há que abolir o mais rápido possível, neste planeta, o parasitismo militar, para os povos poderem ser livres e fraternos, sem violência. “O homem termina onde o militar começa (…)”.

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