Abril e as lágrimas de crocodilo

António Louçã - Sexta-feira, 8 Maio, 2015

48anosterrorAs comemorações do 25 de Abril costumam ser ocasião e pretexto para grandes farsas unitárias. Façamos delas, nas páginas do “Mudar de Vida”, ocasião e motivo para alguma, tão necessária, divisão de águas.
E, com esse propósito em vista, nada melhor do que um caso concreto. Noticiou alguma imprensa, com ecos modestos e sempre abafados pelo foguetório comemorativo, que a filha de Salgueiro Maia, Catarina como a lutadora baleada pela GNR, seguiu aos vinte e poucos anos o caminho que este Governo apontou a toda a juventude adulta do país: “Emigrai!”

Fê-lo há quatro anos, não por obediência ao Governo, mas por circunstâncias pessoais: “Eu saí do meu país, porque precisava de estabilidade financeira para criar o meu filho, que é asmático, e o medicamento não é comparticipado em Portugal, apesar de ser uma doença crónica”. Partiu então com o marido e o filho para o Luxemburgo.
Apesar dos longos horários de trabalho e dos baixos salários que lhe têm calhado no país de destino, continua a optar por esse mal menor.

Numa homenagem a Salgueiro Maia com a presença de Catarina, o deputado do PS Paulo Pisco puxou especialmente pela pulhice mais escandalosa do cavaquismo contra o capitão de Abril: negar-lhe uma pensão, no final da vida, quando concedia pensões equivalentes a dois torturadores da PIDE. Denúncia justa, sem dúvida, a que o ilustre parlamentar poderia também ter acrescentado, em tom autocrítico, os vários anos de ostracização de Salgueiro Maia sob a égide de governos do PS.

Mas o mais importante nas lágrimas de crocodilo que agora se vertem por Salgueiro Maia não são as safadezas cometidas contra ele, pessoalmente, e repercutidas, também pessoalmente, no destino de Catarina. O que merece especial atenção é o significado simbólico desta via sacra que uma jovem se vê forçada a percorrer, por um caminho tão comum na juventude portuguesa actual.
E o que ela própria, na homenagem a Salgueiro Maia, citou como motivos de desencanto com esta democracia de ricos é uma realidade social experienciável por qualquer pessoa na sua situação: “Uma consulta de alergologia no hospital público demora cerca de dois anos e meio”. E é uma realidade social observável por qualquer pessoa em qualquer situação: “idosos que morrem nas salas de espera” dos hospitais, “pessoas a passar fome, idosos que, ou comem ou tomam medicamentos”, ou ainda “pessoas que são postas na rua, por não poderem pagar a renda”.

Mais uma vez, um quadro de misérias em que não é isento de responsabilidades nenhum dos partidos do “arco da governação”, incluído esse PS tão choroso das injustiças cometidas contra Salgueiro Maia e tão abrilista em dias de festa.

Para ver tudo isto, não é preciso ser filha do herói de Abril, tal como não é preciso ter esse honroso pergaminho para preconizar uma atitude: “Defender os ideais de Abril todos os dias, e não ser só para a fotografia”. A história de Catarina Salgueiro Maia é fascinante, não por ser única, mas por ser típica.






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