Editorial

Pés de barro

Quinta-feira, 23 Janeiro, 2014

A recente emissão de uns milhões de títulos de dívida portuguesa foi cantada pelo governo como uma demonstração da “recuperação” e do bom caminho do país. O mesmo com a descida dos juros verificada nos últimos dias. Não é isto uma prova da confiança “dos mercados” no rumo português de resposta à crise? e, desse modo, a prova de que, ida a troika dentro de meses, tudo correrá pelo melhor?

Fica, de facto, demonstrado o apreço do capital especulativo pelos efeitos da austeridade sobre a massa trabalhadora — mas apenas isso. Que melhor garantia pode haver para um especulador financeiro do que um governo que assegura o pagamento de juros agiotas à custa do empobrecimento dos assalariados? É isso que dá confiança ao capital volante que corre em busca de ganhos que não consegue obter em actividade produtiva.

A ávida procura de títulos da dívida portuguesa não é exclusiva. O mesmo sucede, veja-se bem, com a Espanha, a Itália, a Irlanda e mesmo a Grécia, os países com mais dificuldades da Europa. A massa enorme de capital improdutivo que vagueia pelo mundo (“excesso de liquidez”, dizem os entendidos) abocanha todas as possibilidades de remuneração, sobretudo quando os juros são muito mais altos do que, por exemplo, os da Alemanha, França ou Holanda. São precisamente capitais de países como estes que exploram, com largos benefícios, os efeitos da crise no sul da Europa. Basta-lhes um colaboracionista como Coelho e um colaborante como Seguro.

Compreende-se que, com a aproximação das eleições europeias, seguidas das legislativas e das presidenciais, o governo invente argumentos optimistas — mostrando Passos Coelho que afinal não se está “a lixar para as eleições” como chegou a dizer. Mas os sinais de festa da parte do governo (o ministro Pires de Lima chegou a confessar o “sentimento” de que a economia vai crescer mais do que os números prevêem), mascaram mal a realidade, mesmo aquela com que os meios do poder lidam. De facto, o desemprego baixa por emigração e desistência dos desempregados, não por criação de postos de trabalho; as despesas da Segurança Social diminuem porque milhares de desempregados deixam de receber subsídio e milhões de pensionistas são espoliados; o défice do Estado baixa por tudo isto e ainda pela extorsão crescente de impostos aos assalariados. E mesmo os juros da dívida nacional caem nos empréstimos de curto prazo, mas sobem nos de longo prazo — o que significa que os especuladores sabem que vão ser remunerados daqui a um ano ou dois, mas já não apostam da mesma maneira no que se passará daqui a cinco ou dez anos.

O reverso deste optimismo fantasista do governo está no desespero que se vai apoderando de assalariados, pensionista e desempregados, velhos e novos. O capital fala em recuperação económica justamente porque o trabalho foi rebaixado para uma condição que não vivia há várias décadas. Essa “recuperação” não é, pois, fruto de um progresso, mas de um enorme retrocesso social: destruição de bens e forças produtivas, degradação geral de condições de vida dos trabalhadores. Verdadeiramente, é esta a medida do “êxito” da política de austeridade e do capital que sobrevive à custa dela.






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