Paulo Macedo em conflito com a estatística

Quando os interesses de classe se sobrepõem aos dados

Pedro Goulart - Domingo, 15 Abril, 2012

Na ofensiva conduzida nos últimos anos pelo grande capital contra as classes trabalhadoras e o povo destaca-se o fortíssimo ataque ao sector da saúde, com cada um dos partidos do chamado arco governativo – PS, PSD e CDS – a procurar destacar-se como o mais eficiente na gestão desta política. Encerramento de urgências, aumento das taxas moderadoras, diminuição na comparticipação de medicamentos, tais algumas das malfeitorias postas em prática por sucessivos governos do capital. O actual governo, por vezes atabalhoadamente, onde a incompetência e a má fé andam de braço dado, tem procurado ir aqui bastante mais longe do que os seus antecessores. E o previsto encerramento, sob pretexto de racionalização, da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, poderá vir a traduzir-se em mais uma das malfeitorias deste governo.

O governo de Passos Coelho pretende fechar a MAC até 2015, justificando a decisão com o excesso de oferta de serviços de obstetrícia, na região de Lisboa, resultante da descida da natalidade e da recente abertura do Hospital de Loures (uma parceria do Estado com o Grupo Espírito Santo Saúde). Numa audição parlamentar realizada no dia 11, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, não hesitou em mentir, afirmando que o encerramento da MAC se devia à redução de 6 000 para 3 000 partos anuais nesta unidade hospitalar e que os casos mais complicados já eram actualmente atendidos no Hospital Dona Estefânia, também na capital.

Logo no dia seguinte, as afirmações do ministro Paulo Macedo foram refutadas à agência Lusa por Ana Campos, directora do Serviço de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal da MAC, salientando que, ao contrário do que aconteceu noutras unidades hospitalares, na Maternidade Alfredo da Costa se verificou, nos últimos três anos, um aumento dos partos. Ana Campos afirmou que em 2009 se registaram, na MAC, 5 244 partos, número que em 2010 subiu para os 5 328 e em 2011 para os 5 583. A responsável acrescentou, ainda, que o Hospital Dona Estefânia recebe por ano apenas seis a dez destes partos, referentes a recém-nascidos doentes ou com mal-formação, que “precisam de ser intervencionados no imediato”.

Este caso ganhou particular destaque na comunicação social e numerosos utentes do Serviço Nacional de Saúde e profissionais da MAC têm contestado a decisão de fechar a unidade hospitalar, invocando a perda de qualidade do atendimento, com o consequente desmembramento das experientes equipas ali existentes, tendo-se já verificado diversas manifestações públicas contra tal encerramento.

Ora, as falsas afirmações de Paulo Macedo na AR (e este governo repete-as), referentes à diminuição dos partos no MAC, assim como à assistência aos casos mais difíceis no Dona Estefânia, não são compatíveis com um pensamento, que se pretenderia rigoroso, de um Paulo Macedo, ex-docente do Instituto Superior de Economia e Gestão e com suficientes conhecimentos de matemática e estatística. Mas Paulo Macedo veio do grupo BCP e é um homem fortemente ligado aos seguros de saúde e à medicina privada (ex-presidente da Medis, Ocidental e Pensões Gere) e, aqui, a posição de classe do actual ministro da Saúde, assim como os interesses privados dos diversos grupos económicos que defende, falam bastante mais alto, muito acima da verdade que os dados estatísticos revelam.






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