Desemprego e autismo

António Louçã - Segunda-feira, 5 Março, 2012

Em poucas semanas, várias anedotas de humor negro sucederam-se em ritmo cadenciado, como se tivessem sido inventadas para nos lembrar o abismo que se cavou entre o modo de vida das classes possidentes e o de massas cada vez mais pauperizadas. Uma, foi a do tribunal brasileiro que condenou um sem-abrigo a uma pena de prisão domiciliária. Outra, foi a da secretária de Estado da Saúde francesa, Nora Berra, que aconselhou os grupos de risco, entre eles os sem-abrigo, a permanecerem em casa enquanto durasse a vaga de frio.

Nora Berra ainda pôde argumentar que tinha sofrido um lapsus linguae e o tribunal basileiro ainda poderá dizer que tem um template para certo tipo de sentenças e que a aplicou a um réu sem atentar na sua condição de sem-abrigo. Curiosa “Justiça” essa, que tem um tapete rolante para julgar os seus réus e nem repara quem são. Mas, tirando este parêntesis sarcástico ou outro, as duas gaffes ainda passariam por mal-entendidos – não viessem elas de quem vêm.

Ora, só mesmo em Portugal é possível um alto responsável político emitir insanidades como estas, não se enxergar, não se desdizer, não inventar alguma desculpa, mesmo esfarrapada, e continuar a tomar-se a si próprio por um génio catapultado dos aviários académicos para o mundo real. A esta altura, os leitores não precisaram de fazer uso de toda a sua perspicácia para descobrir que nos referimos ao impagável Álvaro Santos Pereira, que teve uma contribuição importante para colocar Portugal entre os recordistas europeus do desemprego e agora concebeu a ideia peregrina de acolitar cada desempregado com um “gestor de carreira”.

Casas que não existem para alguém se abrigar do frio ou carreiras que não existem para alguém as gerir em troca de dinheiros do contribuinte – aí estão dois absurdos da mesma família e ambos traduzindo fielmente a realidade dos ricos cada vez mais ricos, cada vez mais indiferentes ao que se passa fora das suas redomas de vidro, cada vez mais ignorantes sobre a vida real. Só com a particularidade de em Portugal o autismo já lhes ter chegado ao ponto de nem se darem conta das suas derrapagens verbais.






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