A arte da guerra

O negócio armado na Líbia

Manlio Dinucci / MV - Quarta-feira, 9 Novembro, 2011

security_libia.jpgConcluída a Operação Protector Unificado – mesmo se a NATO «continua a vigiar a situação, pronta para ajudar em caso de necessidade» – foi aberta na Líbia a corrida ao ouro entre as empresas ocidentais, incluindo as mais pequenas. Estas posicionam-se ao lado das poderosas companhias petrolíferas e bancos de investimento dos Estados Unidos da América e da Europa, que já ocuparam posições-chave. O Ministério dos Negócios Estrangeiros Italiano comprometeu-se a «facilitar a participação das pequenas e médias empresas Italianas na construção da Líbia liberta». Em Trípoli já se encontrava uma delegação de 80 empresas francesas e o ministro da Defesa do Reino Unido, Philip Hammond, tinha solicitado as empresas britânicas «a fazer as malas» e correr para a Líbia.

Estão em vista grandes negócios depois da NATO ter destruído o estado Líbio. Existe também o cofre aberto sobre o qual há que ter mão: pelo menos 170 biliões de dólares de fundos soberanos «congelados», aos quais se acrescentam as entradas da exportação petrolífera, que podem ascender a 30 biliões anuais.

Mas há um problema: o clima de tensão torna perigosas as deslocações dos empresários ao País. A primeira mercadoria preciosa à venda na Líbia é, desta forma, a «segurança». De que trata, entre outras, a empresa militar Britânica Special Projects Ltd: é dirigida por um ex-paraquedista que foi mercenário em Israel, no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, no Sudão e na Nigéria, assistido por dois ex-oficiais dos serviços de informação militar, forças especiais e forças anti-motim e anti-terrorismo.

A empresa, que anuncia a sua presença em Bengazi, Misrata e Trípoli desde Maio de 2011, abriu, numa luxuosa moradia na capital a 15 minutos do aeroporto, uma residência para VIP vigiada por mercenários Britânicos e Líbios sobre-armados, a que se associa um centro de negócios, também na capital. A «tarifa» do táxi que os transporta desde o aeroporto é um pouco elevada, 800 dólares em vez dos habituais 5. Mas o veículo é um blindado pesado, ligado por satélite a um centro operacional em Tripoli e a outro no Reino Unido, ambos em ligação com o sistema de vigilância da NATO.

Em parceria com a empresa Trango Limited, especializada na assistência a empresas em zonas de alto risco, a Special Projects oferece, em particular às pequenas e médias empresas do ramo energético, uma gama completa de serviços: informações de todo o tipo (acompanhadas por fotografias e vídeos), livre trânsito de pessoas e bens sob escolta nas fronteiras com o Egipto e a Tunísia, contactos pessoais no Conselho Nacional de Transição (CNT) para fechar negócios vantajosos.

Serviços semelhantes são tambem prestados pelas empresas estadunidenses Resources Group e Security Contracting Network, tal como diversas outras recentemente instaladas na Líbia. Os beneficiários são as empresas ocidentais, colocadas no terreno para sacar os contratos mais rentáveis antes da chegada dos chineses, e ainda o Departamento de Estado norte-americano e outros ministérios ocidentais, a troco das suas operações na Líbia, quer directas quer por via de organizações «sem fins lucrativos» pagas por eles.

O vazio deixado pelo derrube do Estado Líbio, sob a acção da NATO, fica assim preenchido por uma rede subterrânea de interesses e de poderes. E, em caso de reacções populares perigosas, o blindado da Special Projects permite chegar ao aeroporto rapidamente.

Publicado em il manifesto, 2 de Novembro






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