Bons ventos vindos de Espanha

Manuel Raposo - Segunda-feira, 23 Maio, 2011

madrid.jpgMilhares e milhares de pessoas, sobretudo jovens, concentram-se desde há mais de uma semana em dezenas de cidades espanholas. Protestam contra um sistema social que os mantém sem trabalho e sem futuro e que faz deles meros joguetes de um regime político corrompido, dominado por poderosas cliques partidárias que dividem entre si o poder. “Vocês não nos representam” é uma das frases significativas que os manifestantes atiram à cara dos políticos do sistema.

Um movimento com largo apoio

Iniciado na Puerta del Sol, uma praça no centro de Madrid, o movimento 15 de Maio (M15M) desobedeceu a todas as proibições das autoridades que declararam ilegal a concentração e o acampamento permanente que se instalou no local. Mas, em vez de se atemorizar com as proibições, o movimento propagou-se a dezenas de cidades de Espanha. Em Barcelona, Sevilha, Valência, Málaga, Burgos, Toledo, Múrcia, Saragoça, Santander, Bilbau, San Sebastian, Vitória, Tenerife, Las Palmas e muitas outras localidades, pequenas e grandes, milhares ou centenas de pessoas, tanto faz, manifestam a sua solidariedade com os pioneiros de Madrid e levantam as suas próprias exigências.

Também fora de Espanha o movimento ganhou apoios e deu origem a manifestações de solidariedade. Em França, Itália, Suíça, Bélgica, Argentina, Grécia, Hungria, República Dominicana, Equador, Alemanha grupos de dezenas ou centenas de pessoas reuniram-se em atitude de apoio. Em Lisboa, algumas dezenas de manifestantes começaram por concentrar-se frente ao consulado e à embaixada de Espanha e iniciaram depois um acampamento no Rossio com o propósito de alargar a acção a mais participantes.

Em busca de saída

Com características e uma base de apoio semelhantes às da manifestação da “Geração à rasca” portuguesa, o protesto em Espanha mostra uma larga variedade de reclamações e de palavras de ordem, com o traço comum de denunciarem o sistema político dominante, a corrupção dos agentes do poder, o acentuar das desigualdades decorrente da crise do capitalismo, e a falta de presente e de futuro das populações trabalhadoras. Denunciam sobretudo o facto de o actual sistema político ser uma “falsa democracia” sem saída para os problemas da maioria da população. “Revolução espanhola”, “Este sistema está podre”, “Sem revolução não há evolução” são algumas das frases vistas nas manifestações que traduzem esse sentimento de recusa da teia política montada pelas forças dominantes e a procura de soluções fora do sistema vigente.

Outras expressões dão conta do sentido multinacional, que este tipo de protesto, pela sua natureza, deve ter. Não por acaso, foi recuperada a consigna levantada meses atrás por manifestantes comunistas gregos “Povos da Europa, sublevem-se!”.

Mais do que simples solidariedade

O apoio aos manifestantes espanhóis tem sido até agora um gesto de solidariedade. Mas ele tem, para além disso, uma outra importância: a de tentar fazer alastrar o protesto na Europa, uma vez que a situação de crise do capitalismo coloca muitas das populações trabalhadoras europeias diante dos mesmos dilemas e das mesmas opções políticas. Pelo menos a Grécia, Portugal e Espanha vivem hoje condições sociais, económicas e políticas muito semelhantes. E, no nosso caso, os trabalhadores espanhóis são, pela proximidade geográfica e pelos laços económicos entre os dois países, os primeiros aliados dos trabalhadores portugueses. Por isso mesmo, o mútuo apoio e a coordenação das lutas de massas (a todos os níveis: nos protestos de rua, nas acções sindicais, nas iniciativas políticas) são decisivos para criar um movimento capaz de fazer frente às medidas de ataque aos trabalhadores e de pôr em respeito o patronato e os partidos do poder.






Um Comentário a “Bons ventos vindos de Espanha”

  1. António Poeiras disse:

    De facto, e pelo menos no caso de Lisboa, a acampada, nome genérico pelo qual são conhecidas estas manifestações, nunca foi uma mera manifestação de solidariedade para com os espanhóis. Ela representa mesmo uma viragem importantíssima na percepção que se tem da política: a afirmação de que só a liberdade política traz a justiça social; não por acaso, uma das palavras de ordem mais gritadas é “o povo unido não precisa de partido”.

    Lembro, aliás, que o lema destas manifestações é “demoracia verdadeira já”, e que nelas a democracia é assimilada à democracia directa – a democracia são os cidadãos em assembleia.

    O respeito por esse princípio levou a que os coordenadores da manifestação não possam tomar qualquer decisão em nome dos presentes, sendo todas as decisões tomadas em assembleia, todos tendo o direito à palavra.

    Infelizmente os partidos não têm emenda e, como qualquer seita religiosa, já lá andam nas suas manipulaçõezinhas de merda, procurando passar para trás a reivindicação central de um outro sistema político e reduzindo os protestos ao problema da dívida e, com a ajuda da imprensa merdosa e dos merdosos agentesque nela têm, lá vão dizendo que ali se está a pedir a renegociação da dívida e que a organização é de uma gaja bloquista – que nada tem a ver com estas manifestações – do grupo que organizou a manif conhecida como da “geração à rasca”.

    Os pequenos Lenines (sejam pequenos trotskis ou pequenos estalines) e os pequenos maos já só fedem!

    Apelo a todos os companheiros e companheiras que compareçam no Rossio e participem nas assembleias e nos grupos de trabalho (grupos abertos, qualquer um pode participar) entretanto criados. E aquilo não é só coisa de jovens, há ali gente dos sete aos setenta e sete, como se costuma dizer.

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