Editorial

Legítima resposta

Domingo, 24 Abril, 2011

Numa manifestação de precários em Espanha, um cartaz da “geração sem futuro” dizia: “Sem casa, sem reforma, sem medo”. Também em Lisboa, na manifestação da “geração à rasca”, um dístico perguntava: “Quando não tiveres nada a perder, o que serás capaz de fazer?”.

Estes dizeres revelam uma disposição de luta que é preciso incentivar. Indicam uma viragem possível e desejável para a resistência de massas, de resposta ao terror social imposto pelo patronato. O mesmo exemplo de destemor se pode tirar das revoltas populares nos países árabes.

Os sinais do que aí vem em resultado das medidas do FMI/FEEF, em cima de tudo o que já foi feito contra os assalariados, não deixam margem para hesitações: o capital leva a cabo uma política de esmagamento das classes trabalhadoras. É esse o único caminho do patronato para responder à crise dos negócios. E um tal processo só terá fim se deparar com uma resistência maciça da parte dos trabalhadores à altura da agressão de que são alvo.

Os que se mostram preocupados com a possibilidade de uma “convulsão social” escamoteiam o facto de estar em pleno curso uma luta de classes em que, até agora, só os de cima ditaram as regras. A convulsão social que temem é o nome que dão à legítima resposta das massas trabalhadoras à guerra de que estão a ser vítimas.

Tentar impedir que esta resposta venha ao de cima, em nome da ordem e da paz social, é dar mãos livres ao patronato para prosseguir a desordem social em que colocou o país e dar livre curso à guerra de classe que desencadeou contra os trabalhadores. Sob a bandeira da ordem, do sossego, da paz, o que as classes dominantes querem é assegurar condições para continuarem a esmagar os de baixo.

Contra isso, é preciso declarar a legitimidade da luta social sob todas as suas formas. Não baixar a cabeça. Não aceitar ser vítima fácil. Não excluir nenhuma forma de acção de massas. Sem medo.






5 Comentários a “Legítima resposta”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Desde há muito tempo que várrios comentaristas deste jornal têm chamado à atenção relativamete à forma como o MV tem analisado a prática sindical da CGTP. No entanto, sempre atrelados aos desígnios contestários da CGTP, só agora de forma muito vaga, reconhecem as manobras sindicais revisionistas para impedir uma “certa convulsão social” que pode pôr em causa o regime democrático burguês. Porquê só agora?
    Será que querem apanhar o combóio que, que pensam que lhes está a fugir debaixo dos pés? Não tenham receio poqrue isso ainda está longe de acontecer. Eu como membro priviligiado da classe média não estou nada preocupado em apanhar o combóio da revolução. E, também não estou nada preocupado com o vírus contra-revolucionário do revisiopnismo contemporâneo.

  2. mraposo disse:

    O paternalismo de Afonso Gonçalves acerca do que ele considera ser a nossa “falta de visão” é ridículo. Aconselho-o a ler todos os 27 editoriais publicados no MV e a dizer onde é que antes não defendemos o mesmo que defendemos agora, ou seja: a necessidade de uma luta de massas e de classe para fazer frente ao patronato e ao poder.
    O fundo da questão, acho eu, está no facto de AG não distinguir política de fraseologia “radical”. Parece acreditar no valor mágico das palavras que pronuncia – e, portanto, quanto mais extremadas elas forem, mais “revolucionária” será a sua posição.
    Desçamos à Terra. Para AG, o estado recuado do movimento de massas resulta apenas “das manobras” dos dirigentes reformistas. Mas há, então, uma pergunta que fica sem resposta: por que razão esse movimento de massas não cospe fora os dirigentes reformistas e não perfilha posições revolucionárias? AG desconhece que o próprio movimento laboral está eivado de concepções reformistas e por isso não vai mais longe. Uma posição revolucionária só o é se reconhecer isto mesmo, e se actuar no sentido de incutir nos trabalhadores consciência de classe, isto é, a noção de que têm de fazer a sua própria política. Mas isso, no que respeita à massa, só acontecerá a partir do grau de consciência em que ela se encontra, não de esquemas ideais. Daí a importância da argumentação política feita em cima dos acontecimentos concretos.
    Para se ver como AG anda longe da realidade, lembro a sua afirmação (num comentário que enviou ao MV dias antes das eleições presidenciais) em que, defendendo a abstenção, dizia: “Estas eleições serão em princípio (?) a derrota cabal do próprio regime democrático burguês”. A derrota “do regime democrático burguês”, nem mais nem menos. Como se pode ter uma actuação política efectiva a partir de profecias deste calibre?

  3. afonsomanuelgonçalves disse:

    Comecemos pelo princípio:
    Tomar uma crítica política como um acto de paternalismo constitui um exagero que no caso concreto, se de facto o fosse, seria ridículo da minha parte. Isto, porque conheço bem a longa experiência de Manuel Raposo dedicada à causa da libertação dos trabalhadores, assim como conheço o importante papel que sempre teve nesta actividade. Ter, portanto, uma atitude paternalista da minha parte seria uma presunção absurda.
    Mas no que respeita ao conteúdo do artigo, as pessoas suficientemente informadas percebem que ele tem que ver com as lamentáveis posições de C. da SIlva acerca da luta inevitável que os trabalhdores têm que tomar se não quiserem ser esmagados pelo vampirismo do capital.
    A questão que se coloca é esta? Porque razão C. da Silva não é mencionado com clareza? Se fosse P.P.Coelho, ou mesmo João Proença, o jornal MV caía-lhes implacavelmente em cima, mas com o secretário-geral da CGTP a crítica torna-se mais súbtil e o sujeito é de certo modo protegido até porque foi encoberto.
    Por último há que considerar o derradeiro delírio do meu radicalismo se pensasse que o regime burguês seria derrotado nas eleições presidenciais. É óbvio que a afirmação não pode ser levada à letra sob pena de eu estar de facto com delírios revolucionários incontroláveis. Alguma vez eleições presidenciais conduziram à queda de um regime em qualquer parte do mundo? A observação tem que ser interpretada no contexto do próprio artigo que defendia a ida às urnas por parte dos eleitores com o objectivo de derrotar a política de direita do regime burguês actual. Julgo que a forte abstenção revelada na actuação do eleitorado dá-me de certa forma razão. O professor de Direito J. Miranda considerado o principal redactor da Constiuição portuguesa afirmou há alguns dias numa entrevista à Televisão que a abstenção era, ou simplesmente, um acto de preguiça e de indiferença, ou significava uma atitude de ruptura com o regime. A minha atitude corresponde exactamente à 2.ª interpretação do Sr. constitucionalista.

  4. mraposo disse:

    Caro Afonso Gonçalves:
    O paternalismo que refiro não é em relação a mim, é em relação ao MV. Fica assim de lado qualquer questão pessoal.
    Parece-me que estás a responder por junto a dois textos diferentes e as coisas confundem-se: um é o Editorial (“Legítima resposta”) outro é “Sem medos”.
    Neste último, Carvalho da Silva é referido claramente como autor das declarações que citamos.
    Quanto ao Editorial, a questão do perigo de “convulsão social” tem sido levantada pela direita, pelo patronato e pela Igreja com o claro propósito de coagir os trabalhadores com o espectro da desordem. E é essa chantagem que o texto procura denunciar, defendendo a legitimidade de todas as formas de resposta de massas. Não vejo por que razão teria o CSilva, neste caso, de ser mencionado.

    Quanto ao paralelo que fazes entre o CSilva e o PPCoelho, sugerindo que ambos merecem o mesmo tipo de tratamento, acho-o inteiramente absurdo. O CSilva e a CGTP não defendem a vinda do FMI, não propõem despedimentos mais fáceis, não querem cortes nos salários e pensões, propõem e organizam greves e manifestações. Poderás dizer que não fazem o suficiente, que outras formas e outros graus de luta deveriam ser estimulados – mas fazer deles um alvo equivalente a um líder político da direita reaccionária não entra na cabeça de ninguém. Por nossa parte não fazemos confusões dessas. E é, portanto, claro que a nossa forma de fazer críticas ao movimento sindical e aos seus dirigentes não tem nada a ver com o ataque que fazemos à direita. Mas isto não é óbvio?

    Finalmente: o que afirmaste acerca da “derrota cabal do regime democrático burguês” nas presidenciais não foi interpretação minha, foi escrito por ti. Não era isso que querias dizer? OK, fica a correcção. Mas terás de reconhecer que entre declarar a “derrota cabal do regime” e constatar uma “ruptura (dos eleitores) com o regime” vai uma diferença.

  5. António Poeiras disse:

    Gostaria de perguntar como devemos classificar o comportamento da CGTP (e, portanto, do PC com a conivência de todos quantos lá estão: BE e independentes) em acontecimentos como a recente manifestação do 1º de Maio em Setúbal, isolando e denunciando à polícia militantes anti-capitalistas (como aconteceu na manifestação contra a OTAN) e fazendo lembrar os tempos em que impediam (por vezes à pancada) quem se lhes opusesse de falar nos plenários das empresas.

    a crítica quase envergonhada que sempre se fez ao PC e à CGTP (e que impediu a crítica do que acontecia no leste da europa) deriva em meu entender de muitos equívocos, de muita ganga ideológica, como a treta da “realização das condições objectivas e subjectivas” para a revolução e a própria noção (naturalmente errada e perigosa) de que a tomada do poder e a estatização de tudo o que mexe são condições necessárias à introdução de modificações revolucionárias na sociedade; por estas e por outras (“falta de condições objectivas e subjectivas”, seja lá isso o que for, juntamente com a incapacidade de lidar com a crítica racional) é que o Lenine (como já Robespierre havia feito na Revolução Francesa), preferiu a electricidade aos sovietes, o que se revelou deveras útil para a construção dos campos de concentração (perdão, de reeducação) e o assassinato da oposição. Enfim, minudências face ao Grande Desígnio de libertar a Humanidade.

    o rol dos predicados do Carvalho da Silva é de facto impressionante (ui ca medo), mas gostaria de obter resposta à minha primeira pergunta.

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