Pequena localidade revolta-se no sul da China

Cidadãos ocupam o edifício do governo local, fartos das vendas de terrenos rurais comunais

Bill Schiller, Toronto Star (excerto) - Quinta-feira, 25 Outubro, 2007

Após anos de suspeição e de crescente revolta, os cidadãos de Xiangtang, uma localidade do sul da China com 3500 habitantes, decidiram que não estavam para aturar mais o que viam: os políticos locais pareciam ficar cada vez mais ricos e todas as outras pessoas a ficarem para trás, enquanto os terrenos que eram propriedade de toda a comunidade iam desaparecendo, para dar lugar a investimentos comerciais.

Por lei, os terrenos rurais – ao contrário dos urbanos – são propriedade de toda a comunidade, e são vistos como a pedra basilar para os camponeses da China ganharem a sua vida.

A 2 de Julho, centenas de cidadãos cercaram o edifício municipal exigindo examinar as contas. Hoje – 101 dias depois – ainda lá estão. Pretendem um exame minucioso aos negócios do governo local e, encontrando algo de errado, querem que sejam instaurados processos.

No dia 21 de Setembro, homens ligados à antiga administração local começaram a carregar caixas para uma carrinha. Alguns habitantes quiseram saber o que estava dentro das caixas. Quando os homens lhes disseram que eram “tortas da lua” – doce tradicional chinês, típico das festas outonais – perto de 1000 pessoas bloquearam a passagem do veículo. Abriram as caixas e descobriram documentação contabilística municipal relativa a vários anos. Até esse momento, os habitantes locais não tinham conseguido localizar os livros da contabilidade. Os registos revelaram detalhes relativos a negócios de terrenos, aluguer de fábricas, e despesas de administração que eram desconhecidos da população.

“Havia milhões em receitas – que era uma novidade para os habitantes locais”, referia um curto mas detalhado resumo intitulado “Um apelo desesperado dos habitantes de Xiantang”, compilado por cidadãos e fornecido ao jornal Toronto Star.

Os cidadãos chamaram a polícia para registar uma tentativa de roubo dos livros da contabilidade, mas a polícia disse que o incidente ultrapassava a sua jurisdição.

Nos últimos 100 dias, os cidadãos enviaram delegações a vários níveis governamentais, fazendo apelo a uma investigação. Também se queixaram que as notícias sobre Xiantang estão a ser bloqueadas:“Ninguém pode saber do sofrimento dos habitantes. Os repórteres estão proibidos de falar sobre isso,” diz uma carta dos cidadãos. Nenhum dos jornais chineses de âmbito nacional, que são todos propriedade do Estado ou controlados por ele, relatou o protesto dos cidadãos. Apenas um jornal de Hong Kong, o The Sun, apresentou uma breve reportagem nos finais de Setembro.

Sem o apoio do governo e sem cobertura mediática, os cidadãos dizem que passaram a ser alvo de intimidação e ataques vingativos, aparentemente originados na família e nos apoiantes dos políticos afastados do poder.

Os habitantes acreditam que a sua segurança e as suas vidas estão sob ameaça.

Mesmo assim, continuam a guardar as contas da localidade, na esperança de que “autoridades mais elevadas e sensatas” lhes façam justiça e ordenem finalmente uma investigação exaustiva.

(http://www.thestar.com/News/article/265581 – tradução em português em: http://investigandoonovoimperialismo.blogs.sapo.pt/26847.html)






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