Morreu Julieta Gandra

A sua casa era ponto de passagem dos que lutavam contra a guerra colonial

Amílcar Sequeira - Segunda-feira, 22 Outubro, 2007

julietagandara.jpgNascida a 16 de Setembro de 1917, em Oliveira de Azeméis, foi para Angola na altura da 2ª Grande Guerra, já médica e casada com Ernesto Cochat Osório, de quem teve um filho. Nas suas deslocações ao estrangeiro, enquanto médica, serviu várias vezes de correio em acções de apoio à luta dos outros movimentos de libertação das colónias portuguesas e até à FLN da Argélia. Amiga de Agostinho Neto, Lúcio Lara, Paulo Jorge, conviveu também com Amílcar Cabral durante a sua estadia em Angola nos anos 50. Teve consultório na baixa da cidade de Luanda onde atendia as senhoras da sociedade colonial, e dava consulta nos bairros pobres, os musseques, às mulheres angolanas. Ferreira Fernandes, num dos únicos artigos publicados a noticiar o falecimento de Julieta Gandra, refere que num comício de campanha para a eleição de Humberto Delgado em 1958, ela iniciou o seu discurso em Luanda dirigindo-se às “mães negras”. Foi presa em princípios 1959 integrada no chamado “processo dos 50”, o primeiro julgamento do colonialismo português, e condenada a 12 meses de prisão. No julgamento viu-se privada de defesa pois o advogado foi impedido em Lisboa de embarcar para Luanda. A pena haveria de ser agravada para 2 anos de prisão maior e medidas de segurança de 6 meses a 3 anos e após recurso de Julieta Gandra, o tribunal de Lisboa agravou ainda a pena para 4 anos e medidas de segurança. Portou-se dignamente perante a Pide e na cadeia, tendo ainda em Luanda, recusado a dada altura ser transferida numa viatura à parte, fazendo questão que a Pide a levasse junto com os outros elementos africanos. O nome de Julieta Gandra é referido por Lúcio Lara no seu livro “Um amplo movimento…” onde junta vários documentos e cartas da época, inclusive uma carta de Mário Pinto de Andrade com os nomes e as fotos de alguns dos presos do “processo dos 50”. Considerada a prisioneira do ano pela Amnistia Internacional em 1964, foi posta em liberdade da cadeia de Caxias em Julho de 1965, com a saúde muito debilitada. Durante anos, Julieta Gandra era voz a ouvir e com ela aprender, a sua casa ponto de passagem dos que lutavam contra a guerra colonial, e o seu consultório médico na Rua Manuel da Maia um porto seguro para todas as jovens ou mulheres que precisavam de apoio. Quando da assinatura dos Acordos do Alvor, rumou ao Algarve com um grupo de jovens angolanos para se reencontrar com os elementos da delegação do MPLA. Volta para Angola no início de 1975 na companhia de Fernanda Tomás (que fica a trabalhar no Ministério da Educação) e dedica-se a estabelecer as bases do Serviço Nacional de Saúde. Regressa a Portugal em 1978 por razões de saúde, com algumas deslocações posteriores a Londres para exames médicos. Posteriormente era visita regular da casa dos sogros do Lúcio Lara, em Lisboa. Viveu os últimos anos num lar para idosos, situado na Av. Gago Coutinho, muito debilitada. Em 8 de Outubro de 2007, faleceu com 90 anos. 
Apagou-se a vida no corpo franzino duma grande MULHER. 






7 Comentários a “Morreu Julieta Gandra”

  1. Maria Júlia Monteiro Jaleco disse:

    Um resumo da vida de uma Mulher, sem concessões, à altura da sua grandeza. Nada mais era preciso dizer, já que tudo o mais não é da nossa conta – foi, o que quer que tenha sido, do foro de uma vida privada.
    Maria Júlia

  2. meireles disse:

    O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

    Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 09 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

    Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
    Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
    Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
    Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
    Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
    A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
    Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
    Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
    Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
    De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

    Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz, Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos.

    Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
    Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
    De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
    Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

    A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldina ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

    Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
    Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters.

    Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

    Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
    Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.

    Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.

    Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.

    Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.

    Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

    Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville.

    Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
    Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias).

    Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .

    Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios.

    Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
    Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.

    A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.

  3. anónimo disse:

    É importante falar -se ,do novo folgo que se queira dar, da contestação própria legítima fruto dos graves erros ainda não corrigidos e da esperança que se queira transmitir através de um novo simbolismo e dimensão que alguns substitutos bem representados pretenderam dar de forma obscura silenciando alguns aspectos fundamentais para proveito próprio.
    O MPLA de Conacry com o seu protagonismo e simbolismo genuíno e verdadeiramente libertador ,com a conquista da paz ou seja com o calar das armas e a tentativa de harmonização das mentes justiceiras ,cheias de rancor, injustiças e razões legítimas muitas verdades terão que ser esclarecidas e biografias publicadas até as eleições.
    Muitos homens nacionalistas, referindo-me teimosamente a dinâmica da luta de libertação que muitos historiadores contemporâneos comprometidos com objectivos definidos com alguns lobbys pretendem a todo custo cumprir antigos objectivos e pretensões frustradas, nem por isso têm que explorar de forma subtil e aproveitar os velhos conflitos partidários para introduzir percursos estranhos.
    O momento crítico e de viragem política que acham e querem provocar entre o MPLA do passado aparentemente dividido e fragilizado ,empobrecido ,mutilado e que está a ser implementada de forma rápida e nunca bem esclarecida por historiadores contemporâneos fazendo um jogo suave de transferência de dados para outros livros como estratégia que estão saindo não com o intuito de preservar o corrigir o simbolismo, Mas tentar acelerar a cisão e explorar inteligentemente de forma maquiavélica a favor de alguns lobbys esfomeados das velhas pretensões inacabadas e vigorosas.
    Com a morte de alguns testemunhos e despersonalização de outros e fragmentação do nacionalismo originário sob novos argumentos do mundo globalizado querem parecer implementar as históricas viragens políticas quando as condições de base ainda não estão reunidas.
    A espinha dorsal do MPLA (origem)nunca foi formalmente respeitado e reconhecido e sempre sujeita a mutilações por parte de ratazanas disfarçados em genuínos defensores.
    De facto está eminente o enterro final do MPLA ( origem ) ainda acelerada por muitas expectativas não satisfeitas e muitas violações a integridade física.
    Com as novas prioridades mercantilistas e falta de parâmetros e conduta política ,rápido se instaurou uma espécie de novo modo de sobrevivência que projecta o passado a semelhança caricaturando-o a moda da era dos dinossauros e transmitindo uma má imagem.
    Alem de que, a factura da responsabilização do passado será maior pelo incumprimento dos mínimos padrões de sobrevivência pela miséria social, material e cultural.
    A psicose da nova era e a incapacidade da sua incorporação natural reforça, subverte e penaliza as sociedades desestructuradas .
    Por esta razão aumenta a dessensibilização e falta de credibilidade em relação ao passado.
    Ayres G.Azancot de Menezes

  4. Edir Gandra disse:

    Muito bom esta reportagem! E também é uma amostra de como as mulheres lutam pela independência própria de terem reconhecimento merecido por nós homens e por estarem sempre disponíveis para lutar por causas sejam nobres ou não. Abraços

  5. José Amor disse:

    Só hoje, no acaso da noite, tomo conhecimento do passamento fisico da Drª Julieta Gandra.
    Um mundo de pensamentos, assim como um filme documentário sobre coisas da vida vivida, desfilam pela minha memória…

    Curvo-me à grandeza da mulher que tive o grato privilégio de conhecer e de conviver, no momento em que a utopia se realizou realidade…

    Paz à sua alma.

    Kimbanda Diakimuezo

  6. josé Oliveira disse:

    É uma alegria. Li, do Cochat Osório, quando miudo na Biblioteca de Luanda, Calema”. Desde então tenho procurado na feira do livro, um exemplar. Alguém sabe como conseguir. Era miudo e impressionou-me o suficiente para hoje com 55, ainda o procurar.

    Obrigado

  7. José Nuno Valadas disse:

    Conheci a Dra. Julieta Gandra em Luanda já que também intervim como advogado nos processos que corriam na altura em tribunal militar contra ela e outros patriotas angolanos. Conservo a recordação impoluta duma grande mulher, corajosa, digna e numa palavra uma verdadeira resistente

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