O boicote a Israel tomou balanço há um ano e cresce rapidamente

Três perguntas a Robert Bibeau

Manuel Vaz - Quarta-feira, 9 Dezembro, 2009

bibeau_web.jpgRobert Bibeau, funcionário aposentado do Ministério da Educação do Quebeque, é um especialista em questões de educação e projectos educativos através da rede Internet. Dirige, desde Abril 2009, o grupo Samidoun (Resistência) que no Quebeque tem vindo a apoiar o movimento de boicote contra Israel, denominado BDS. Com efeito, em 2005, 170 organizações da sociedade civil palestiniana decidiram lançar um apelo mundial de boicote, que designaram BDS (Boicote, Desinvestimento, Sanções). Em véspera do dia 27 Dezembro 2009, data do primeiro aniversário do massacre de Gaza que fez 1 300 mortos e mais de 5 mil feridos numa vintena de dias, procuramos, com Robert Bibeau e em 3 perguntas, delinear os objectivos do movimento de boicote e estabelecer um primeiro balanço geral.

1. A opressão israelita contra o povo palestino estende-se por vários decénios e reduz, hoje, Gaza a uma vasta prisão a céu aberto, o território da Cisjordânia a uma miríade de guetos cerceados por um muro e as representações políticas da resistência palestina a sombras… Perante uma tal paisagem devastada qual é exactamente o sentido do apelo do movimento BDS?

Comecemos por uma breve resenha histórica. A ocupação e a colonização do solo palestino pela entidade sionista (Israel) dura há 61 anos, a partir do momento em que os grupos terroristas sionistas, armados pela Grã-Bretanha, lançaram a primeira guerra de agressão em 1948 e, por via do terror mortífero e da limpeza étnica, escorraçaram centenas de milhar de palestinos da sua terra ancestral. O facto de esta injustiça durar há 61 anos e de ter sido acreditada por uma resolução ilegal das Nações Unidas em 1947 (Plano de partilha da Palestina por duas entidades étnicas, uma de confissão judia e outra de outras confissões) em nada diminui a justeza da causa palestina.

Por outro lado, e porque a ela é feita referência na questão que coloca, a Resistência palestina, designadamente o Hamas, não está na sombra e disso deu prova em Gaza em Janeiro 2009. A resistência não se afundou apesar dos crimes de guerra sionistas e apesar das detenções constantes perpetradas desde então pelos mercenários de Mahmoud Abbas, o indigno presidente da Autoridade Palestina. A resistência prossegue a sua luta de libertação nacional. Se a entidade sionista, que se apresenta como o Estado de todos os judeus (como se se criasse o Estado de todos os muçulmanos), fosse capaz de eliminar a Resistência tê-lo-ia feito aquando da sua agressão criminosa a Gaza em Janeiro 2009.

O apelo ao boicote, ao desinvestimento e às sanções (BDS) contra Israel das 170 organizações palestinas visa, mais uma vez, trazer a público a causa palestina e denunciar a política de ocupação, de colonização e de segregação racial (apartheid) a que a entidade sionista submete o povo Palestino há 61 anos, desde 1948, e não desde 1967 com a expansão da ocupação.

O movimento de boicote visa desmascarar as políticas racistas da entidade sionista e a manter informada a população mundial, uma vez que os grandes media não o fazem, sobre estas políticas de limpeza étnica, de judaização de Jerusalém, de segregação étnica, bem como a voltar a opinião pública contra este Estado de apartheid.
O movimento BDS propõe que boicotemos todos os produtos israelitas, seja qual for a sua proveniência (das colónias ocupadas na Cisjordânia ou do território ocupado pela entidade sionista).
O movimento BDS foi relançado em 2005 e foi necessário um certo tempo para ser conhecido e para que os seus apoios se estendessem por vários países. Os lóbis pro-sionistas são poderosos e controlam um grande número de órgãos de informação, pelo menos no Ocidente. Até no seio da Autoridade Palestina se encontram objectores deste movimento de boicote com o argumento de que é nefasto para os esforços de “paz”.

Quais são os esforços de paz desenvolvidos pelos sionistas em Gaza em 2009 e, desde então, com a continuação da colonização na Cisjordânia, com a judaização de Jerusalém e a construção do muro da vergonha? Os governos ocidentais fazem tudo o que está ao seu alcance para colocar entraves ao apoio ao movimento e actualmente estão a procurar formas de ilegalizar as práticas de boicote e para, fraudulentamente, as associar a práticas anti-semitas. Por estas razões, o movimento de boicote contra a entidade sionista tem dificuldade em estender-se e por estas mesmas razões o movimento de boicote está no centro da grande batalha pela liberdade de expressão, a liberdade de informação e as liberdades políticas fundamentais, nomeadamente no Ocidente.

Acredito sinceramente que o ponto de não retorno foi ultrapassado e, depois de uns anos com sinais de hesitação, o movimento tomou balanço há um ano e cresce rapidamente, em particular nos países anglo-saxónicos que tinham sido as pontas de lança do movimento de boicote contra o apartheid na África do Sul.

2. Em Liverpool, em Setembro 2009, os sindicatos britânicos (Trade Union Congress) votaram com esmagadora maioria a decisão histórica de boicotar Israel, na sequência do apelo lançado em Julho 2005 pela sociedade civil palestina. Para lá desta decisão de boicote reconhecida qual é o balanço geral do movimento de boicote no mundo?

O movimento de boicote é agora apoiado por organizações e individualidades que vivem na entidade sionista e pela maioria das organizações políticas da resistência palestina. Por si só, o movimento BDS não irá derrotar a dominação imperialista sobre a Palestina, mas pode contribuir para o enfraquecimento do sionismo (a variante local da ideologia imperialista racista), a colocá-lo na defensiva, a reduzir os seus apoios entre certos sectores da população ocidental, nomeadamente a norte-americana, que progressivamente se irá interrogar se se justifica o envio de mais de três mil milhões de dólares de ajuda por ano para aquela entidade racista de apartheid.

As comunidades anglo-saxónicas (Grã-Bretanha, Irlanda, Canadá anglófono, Austrália, Nova Zelândia) foram as primeiras a aderir ao movimento como o demonstram as adesões recentes do Trade Union Congress britânico, de grupos religiosos como a Igreja Unida, de associações de estudantes universitárias e o apoio ao boicote de vários sindicatos do Canadá anglófono (carteiros, funcionários públicos, etc.) e de grupos de estudantes anglófonos canadianos.

O movimento de boicote regista um certo atraso em França por causa do embargo de informação que é imposto pelo lóbi sionista nos média e junto das organizações políticas. O Novo Partido Anticapitalista e o Partido Comunista Francês quebraram este muro de silêncio recentemente. A situação muda com dificuldade mas está a mudar; vários grupos de activistas começam a desenvolver acções marcantes (ocupações, corte de acesso a grandes armazéns, no Bourget, etc.) no apoio ao boicote. Em Itália o movimento começa a revelar-se e o mesmo se passa em Portugal e Espanha onde os grupos desportivos da entidade sionista têm cada vez maior dificuldade de jogar. Os países escandinavos seguem o passo; a Noruega e a Suécia conseguiram que empresas ocidentais perdessem contratos importantes, por exemplo a Aslom de França porque a empresa participa na construção de um eléctrico em Jerusalém-Este, cidade anexada ilegalmente pela entidade sionista.

No Quebeque o apoio ao boicote propaga-se rapidamente e uma central sindical com 200 mil membros adoptou recentemente em congresso uma resolução de apoio ao BDS. Criámos um website de informações e de formação para o boicote e os textos são traduzidos para castelhano de forma a servir as populações da América Latina. São organizadas manifestações de apoio ao movimento frente aos grandes armazéns de Montréal para boicotar os produtos Ahava, no ramo dos cosméticos, e as livrarias da cadeia Indigo-Chapters.

Por agora, o movimento concentra-se sobretudo no boicote a produtos israelitas específicos ou também no boicote a empresas que mantêm negócios com e entidade sionista. Pode consultar-se a lista destas empresas na nossa página web http://bycottisraelinternational.com e pedimos a concentração de esforços para o boicote a certas empresas multinacionais, designadamente a Ahava, para dar o exemplo e criar precedentes.

Com o tempo, os esforços dos activistas deverão exercer-se também na área do desinvestimento e das sanções internacionais. Protestámos recentemente junto dos Fundos de Pensão da Federação dos Trabalhadores do Quebeque para que deixassem de investir em Israel. Repare-se que a entidade sionista é um Estado “nuclear”, detentor de 200 ogivas nucleares e que só este ano a Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), finalmente, adoptou uma resolução pedindo que as instalações nucleares da entidade sionista sejam inspeccionadas.

Devem ser desenvolvidos esforços por parte dos activistas para que os partidos políticos adoptem resoluções de apoio ao boicote. O movimento BDS pode e deverá ser a ponta de lança de uma frente anti-sionista. Levantam-se algumas vozes que pretendem que o boicote se restrinja aos produtos oriundos das colónias implantadas na Cisjordânia. Esta posição é inaceitável. Antes de mais, porque o conjunto da entidade sionista está implantado sobre terras roubadas ao Palestinos. Todas as parcelas “de Israel” são colónias. Depois, porque o movimento de boicote denuncia e opõe-se às políticas de limpeza étnica, às políticas racistas de judaização e de apartheid em todo o território da Palestina contra os árabes de 1948, aqueles que permaneceram em Israel e a quem ainda hoje não estão garantidos os mesmos direitos que aos cidadãos de confissão judia.

3. Há cerca de um ano teve lugar o massacre israelita designada “Chumbo endurecido” que visou a população civil de Gaza para castigar o seu voto na resistência em detrimento da aceitação de compromissos de concertação. Estão previstas acções de boicote e de protesto na ocasião deste primeiro aniversário?

O movimento BDS conduz acções que se estendem por todo o mundo. A Coca-Cola e o MacDonald são fiéis apoiantes do sionismo e espalham-se por todo o mundo. Para além de ser excelente para a saúde boicotar a Coca-Cola e o MacDonald; tenho a certeza que os médicos me darão razão. Em certos países árabes, e de maioria muçulmana, estão há muito em vigor medidas de boicote. Pelo contrário, o projecto da União Europeia para criar um programa pan-mediterrânico constitui uma tentativa para retirar do isolamento a entidade sionista e para conduzir os governos árabes em volta do Mediterrâneo a cooperar com a entidade genocida. Os militantes devem denunciar estes acordos que devem excluir “Israel” de qualquer acordo. A Líbia já se pronunciou sobre esta matéria e recusa participar em qualquer projecto que implique a entidade sionista.

Tem razão quando sublinha que o movimento BDS deve ser entendido como um apoio importante à luta de libertação nacional do povo palestino mas também que a resistência deste povo será sempre o factor determinante da sua luta. Não foi apenas o boicote à África do Sul que acabou com este Estado racista de apartheid, foi a luta resistente dos povos da África do Sul sob a direcção das suas organizações de resistência que deferiu o golpe fatal àquele Estado racista. E será do mesmo modo com a luta de libertação nacional na Palestina.

A entidade sionista é responsável por crimes de guerra, crimes contra a Humanidade, desrespeito pelas resoluções da ONU e pelos Direitos Humanos do povo palestino e isso tornou-se mais evidente com a invasão do Líbano no verão de 2006 e com o massacre de Gaza no inverno de 2009 que são justamente denunciados pela “comunidade internacional dos povos”. É preciso sobretudo não diminuir a pressão sobre a entidade sionista.

Inúmeras acções, marchas, sit-in, ocupações, acções de corte, foram previstas para celebrar o triste aniversário do massacre genocida de Gaza sob os olhos e o silêncio da “comunidade internacional dos bandidos”. Em Dezembro 2009, colunas de manifestantes sairão de diferentes pontos da Europa, da América do Norte, do Oriente, para convergir na fronteira egípcia às portas de Gaza, frente a Rafah, a cidade martirizada, pilhada, destruída, local por onde a entidade criminosa deixa por vezes passar os parcos comboios de aprovisionamento para 1,5 milhões de crianças, mulheres e homens esfomeados e prisioneiros. No dia 1 de Janeiro de 2010 estes milhares de manifestantes irão exigir o fim do bloqueio ilegal de Gaza e a abertura da fronteira de Gaza com o Egipto. A marcha para Gaza e a manifestação para libertar Gaza visam denunciar a entidade sionista mas também a conivência cúmplice do governo egípcio de Mubarak com este bloqueio ilegal, ilegítimo e mortífero.

Todos para Gaza a 27 Dezembro 2009! Aqueles que não possam integrar a “coluna” podem contribuir junto das associações, dos grupos e activistas que marcham para Gaza.

Informações sobre a marcha para Gaza: http://www.facebook.com/group.php?gid=133073736156

Página Facebook com informação específica para diversos países e em diversas línguas:
http://gazafreedommarch.ca/cms/FRENCH/Home-fr.aspx

Websites para seguir a actualidade do movimento BDS
Apelo: http://bdsmovement.net/?q=node/52#French
Signatários: http://bdsmovement.net/?q=node/139
Boicote universitário e cultural: http://www.pacbi.org
Suíça: http://www.bds-info.ch/fr
França: http://campagneboycott.blogspot.com

Robert Bibeau
robert.bibeau@sympatico.ca

Tradução: Cristina Meneses






2 Comentários a “O boicote a Israel tomou balanço há um ano e cresce rapidamente”

  1. victor disse:

    Este website é um lixo. Bem como todo o seu conteúdo. É parcial, somente mostra um lado do conflito e todas as perguntas feitas pela sua redação, ao invés de serem neutras, naturalmente já vêm carregadas de ódio e preconceito. Que tal falarem um pouco sobre o terror palestino, reconhecer o despotismo do Hamas e seus crimes e todas as ações de educação anti-judaicas existentes na sociedade palestina? Blog ridículo.

  2. HEITOR DA SILVA disse:

    Considero este documento um importante contributo para o conhecimento dos factos históricos que conduziram à situação de predação vigente na Palestina,levada a cabo e mantida por judeus com a ignóbil conivência e apoio de muitos outros.
    Importante, porque ao descrever factos históricos que contribuem à sua compreensão, promove, assim, o movimento e acção conducentes à sua solução. Solução que todos desejamos e com a qual nos solidarizamos.

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