Alegre e a “Face oculta”

António Louçã - Terça-feira, 3 Novembro, 2009

face-oculta.jpgO futuro dirá se o processo “Face oculta” seguirá a lei inexorável que parece determinar o curso de vários outros: a montanha a parir um rato. Assim tem sido no caso Casa Pia, no “Apito dourado”, no Freeport.
Para já, as acusações que pesam directamente sobre o ex-dirigente do PS e ex-ministro Armando Vara são graves: a troco de 10 mil euros, exigidos por ele próprio e pagos pelo “rei da sucata”, Manuel Godinho, Vara terá intercedido junto da administração da EDP para que o empresário aí obtivesse adjudicações importantes. Num outro caso, desmentido pelo ministro Mário Lino, Vara teria intercedido junto deste para fazer substituir a administração da Refer, mais uma vez no interesse de Godinho.

Perante tais acusações, o reflexo normal, são e correcto seria, à esquerda, o de fazer votos por um completo esclarecimento do caso, e de manter sobre ele atenção e vigilância intensas. Diametralmente oposta foi, contudo, a reacção de Manuel Alegre, o candidato a federador da esquerda nas próximas eleições presidenciais.

Segundo Alegre, as violações do segredo de justiça que tornaram conhecidas as acusações contra Vara constituem “o mais grave problema da democracia” (citado em Público, 31 de Outubro). Nem mais, nem menos: grave é, para ele, saber-se que Vara foi acusado e do quê. Mais grave do que haver milhares de pessoas despedidas, por vezes em falências fraudulentas que os tribunais nunca chegam a julgar; mais grave do que ficarem impunes todos os crimes de colarinho, da corrupção à fraude fiscal; mais grave do que prescreverem todos os processos contra figurões que contratam a peso de ouro advogados especialistas em arrastar os pés. E não teria fim a lista de escândalos desta democracia que Alegre ignora, ao lado do incómodo causado ao seu amigo Vara.

A isto acrescenta Alegre que se fala muito das pessoas arguidas ou simplesmente postas em causa nos processos “Face oculta” e “Freeport”, mas pouco ou nada das pessoas que o são no caso dos submarinos. É verdade que, surpreendentemente, as responsabilidades individuais de Paulo Portas foram menos escrutinadas no caso dos submarinos que aqui as de Vara ou além as de Sócrates. Mas não deveria o nosso combativo presidenciável ter levantado a questão na altura própria, isto é, precisamente quando se falava de submarinos? Porque fala ele do processo dos submarinos quando o tema é o “rei da sucata”, os seus subornos e subornados? Não cheira tudo isto a uma grosseira manobra de diversão?






4 Comentários a “Alegre e a “Face oculta””

  1. L.E. disse:

    Mais de acordo não poderia estar … quem viver verá … (será?!) … muito sinceramente? duvido …

  2. afonsomanuelgonçalves disse:

    Tornou-se desde há muitos anos um hábito observar Manuel Alegre com manobras de diversão nos mais variados assuntos. Tão depressa afirma uma coisa como se contradiz na intervenção seguinte. Basta para isso que as circunstâncias e as conveniências pessoais lhe convenham. Consagrado como poeta e político de indesmentível valor, este ilustre defensor da esquerda democrática não é facilmente desmontável nessas manobras de diversão em permanente corrupio mediático. António Louçã põe o dedo na ferida, mas na sua pose majestática de impoluto e incorruptível, Manuel Alegre prossegue a sua marcha triunfal a caminho de Belém. Se conseguir lá chegar é mais um a juntar aos outros. Que Deus todo poderoso o ajude nesse Gólgota tão espinhoso.

  3. Miguel L disse:

    O verdadeiro diálogo das conversas telefónicas entre Sócrates e Armando Vara aqui revelado ;-):

    http://classemedia.biz/blog/paginaum/ultimas/sob-escuta/

  4. Maria** disse:

    a face oculta o quê?-ponham-se a pau que este é um ataque concertado a todas as instituições.

    http://apombalivre.blogspot.com/2010/02/face-oculta-o-que-ponham-se-pau-que.html

    Ora agora que o vento sopra a favor , lá parece a dona manuela , com aquele seu arzinho de dona de casa mais muito fina , a dizer de suas banalidades que ela é mesmo do tipo de meter o dedito espevitado em frente do nosso nariz naquela do–“eu não dizia?….”

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