A deriva nacionalista da falsa esquerda

Manuel Vaz - Sábado, 3 Outubro, 2009

colagem_varlez_72dpi.jpgO uso da burca ameaça a ordem republicana burguesa. Em nome do “orgulho de ser francês” apela-se ao “combate comum direita/esquerda” para preservar “a identidade da França”. Numa palavra, tratar-se-ia de um “desafio de civilização” para o qual nos convida não um qualquer partido fascista ou um agente particularmente tonto do partido republicano norte-americano, mas simplesmente o deputado do PCF, André Gérin, ex-presidente da câmara de Vénissieux (arredores de Lyon).
O homem é já conhecido pelas suas posições nacionalistas tacanhas que confirmou em Os guetos da República, um livro publicado em 2007 onde justificava os célebres propósitos do então presidente Chirac, de Junho de 1991, acerca de insuportáveis “ruídos e odores” das famílias imigrantes, que perturbariam o quadro de vida idílico das famílias autóctones…

A dimensão da “ameaça”

Numa carta de 11 de Abril último, dirigida ao primeiro-ministro, Gérin reclama a convocação de uma comissão de inquérito parlamentar para cortar caminho à ameaça islamista radical “que conduz uma luta anti-França, anti-brancos”; pretende uma comissão para inquirir, e evidentemente proibir, o uso da burca que “constitui, para a população, um incómodo, uma rejeição e uma perturbação contra a ordem pública”; inquieta-se em nome de milhares dos seus concidadãos “ao ver nos mercados, espaços de comércio e de lazer, mulheres aprisionadas, inteiramente vendadas”, afirma ele.

Mas qual é a dimensão desta ameaça? É urgente, alerta Guérin, porque o fenómeno “amplificou-se nestes últimos dez anos” e nomeadamente desde um determinado 11 de Setembro – acontecimento que oportunamente permitiu colocar na ordem do dia a teoria do “choque das civilizações”… e a necessidade imperiosa de uma nova cruzada guerreira no Oriente.

Mas quantas são elas, estas mulheres “prosélitas”, estes “fantasmas ambulantes” submetidas “ao marido” ou a uma “concepção radical da religião” (se utilizarmos a linguagem de Gérin)? Curiosamente são os próprios serviços policiais que vêm desarmar o zelo anti-integrista do autor da imprecação que usa uma faixa tricolor. Uma nota da Direcção Central de Informação Interna datada de 8 de Julho último revela “que apenas 367 mulheres em França estariam integralmente vendadas sob uma burca ou um niqab“.

A primeira reacção é de espanto: um número tão baixo e tão preciso?! Questionamo-nos sobre como terá a polícia procedido a esta contagem e, mais ainda, como terá chegado a um número com esta precisão… suíça! É evidente que não é preciso ser um fino perdigueiro para dar conta de que a “invasão da burca” não existe, a não ser na forma de uma alucinação ancorada no cérebro sobre-aquecido de um Gérin provavelmente sob uma forte insolação …e cheio de disparates.

Uma Santa Aliança

No entanto, o apelo republicano do deputado “comunista” não foi indiferente a Sarkozy que, diante do Congresso reunido em Versalhes a 22 de Junho, declarava: “Quero afirmá-lo solenemente: a burca não é bem-vinda no território da República Francesa”. E, com a velocidade de um relâmpago a que o chefe supremo da burguesia nos habituou, a comissão de inquérito reclamada por Gérin, transformada em “comissão de informação”, foi constituída a 1 de Julho na Assembleia Nacional para elaborar um “relatório da situação”, cujas conclusões devem ser conhecidas no início de 2010. E lá está Gérin à cabeça da sua comissão parlamentar composta por 32 membros, reunindo a fina-flor da reacção parlamentar francesa, todos, bem entendido, com “a mão estendida para os muçulmanos” para “fazer recuar o integrismo”.

E aí temos um Gérin populista lado a lado com uma das direitas mais chauvinistas e coloniais da Europa com a cumplicidade implícita do seu partido – que continua a designar-se comunista – e que deixa à solta o seu delfim sem uma única palavra… Tudo isto em nome de um princípio laico e da luta contra o integrismo, a pretexto de defender o Ocidente e a República, e, acima de tudo, a pretexto de proteger, de defender e de alargar os direitos das mulheres. Ei-los uma vez mais em marcha contra o Islão praticado em França: tratar-se-ia da única religião repressiva em relação às mulheres e isto em razão da visibilidade do aparato vestimentário das fiéis (e das intrínsecas ameaças veladas), ao mesmo tempo que poupam a crítica a todas as outras religiões do Livro.

Dividir, atiçando ódios religiosos

A consequência evidente e imediata desta tempestade num copo de água, tempestade unilateral e provocadora, será o agravamento inevitável das tensões raciais já gritantes no seio da população. Em plena crise, perante as novas vagas de despedimentos que despontam, perante uma legislação cada vez mais liberticida, Gérin serve objectivamente os desígnios transparentes da burguesia reaccionária dirigida por Sarkozy: montar uma manobra de diversão que atiça os ódios religiosos entre as comunidades e dividir, em particular, a classe operária segundo uma linha religiosa.

O facto religioso (“radical” ou não) não é o produto de um complot, de uma conspiração urdida em segredo por um grupo de clérigos fanáticos escondidos milagrosamente numa gruta no fundo mais recôndito de uma montanha inacessível, manipulando a seu bel-prazer e por meio de “sortilégios divinos” milhões de homens e mulheres por todo o planeta, que teleguiam, através de múltiplas e inumeráveis “mãos invisíveis”, redes temíveis equipadas à maneira de James Bond… e que são pacientemente caçadas nos átrios das estações de caminho-de-ferro e nos aeroportos…

E, no entanto, é assim que se descreve o quadro geral das perturbações no país e no mundo. É assim também que todos os órgãos mediáticos burgueses veiculam a imagem do inimigo actual do Ocidente, portanto, do nosso suposto inimigo comum – não é mais o vermelho, o totalitário, o comunista, mas é o terrorista, o integrista, o islâmico. É desta forma que o aparelho de propaganda burguês reduz a luta política maior do nosso tempo a uma história sombria e complicada entre polícias e malfeitores. Estamos no próprio coração do paradigma cultural tipo – tantas vezes declinado em narrativas romanceadas, biografias de encomenda, reportagens de perder o fôlego, representações dramáticas, séries audiovisuais, cinema de Hollywood – a que são reduzidos os conflitos de classe, quer sejam quotidianos ou de grande envergadura, num mundo que afinal só reconhece um único deus, o dinheiro.

Entender o “ópio do povo”

Esta representação política simples e simplista, entre o bem e o mal, entre os bons e os maus, dando resposta aos arquétipos bem oleados do real reinterpretados pela máquina ideológica dominante, de uma religião hostil à ordem imperial dominante, justifica, portanto, o recurso natural à guerra no plano externo e à vigilância policial agravada, bem como a um chorrilho de leis celeradas, no interior das fronteiras.

Ora, a religião é uma representação ideológica global do mundo, um reflexo invertido do real na consciência. A ilusão religiosa é precisamente produto do real. Ela tem, assim, as suas raízes no mundo social tal qual ele é. Lutar contra a religião é antes de mais lutar contra este mundo, para o superar. “É claro que qualquer transformação histórica das condições sociais arrasta ao mesmo tempo a transformação das concepções e das representações dos homens e, consequentemente, das suas representações religiosas ” (Marx, A ideologia alemã, 1846).

Por outro lado – como sublinhou Nadine Rosa-Rosso aquando da sua intervenção no Fórum Internacional de Beirute a 17 de Janeiro 2009 (*) – se a religião é “o ópio do povo”, importa lembrar que esta frase lapidar de Marx, tantas vezes citada pelos seus adeptos, é contudo precedida por uma reflexão muito instrutiva: “A miséria religiosa é simultaneamente a expressão da miséria real e o protesto contra essa miséria. A religião é o suspiro da criatura ameaçada, o coração de um homem sem coração, tal como é o espírito dos tempos privados de espírito. Ela é o ópio do povo” (Contributo para a crítica da filosofia do direito de Hegel, 1844). Decerto, trata-se de um ópio, um consolo, um paraíso artificial, um travão à consciência crítica do mundo. Mas é também “o protesto contra a miséria “, é também “o espírito num tempo privado de espírito”. Existe assim uma dualidade no fenómeno ideológico religioso.

Se não tivermos em conta o carácter duplamente dialéctico da religião, frequentemente como legitimação da sociedade existente e por vezes como lugar da sua própria contestação, não estaremos em condições de compreender o alastramento crescente do Islão entre os povos oprimidos do Próximo e do Médio Oriente, vítimas de espoliações e de massacres inauditos praticados pelos imperialistas. As vastas massas daqueles territórios são o alvo de bárbaras agressões high-tech provenientes deste Ocidente laico, bem pensante e professando ideias religiosas “civilizadas” – “não radicais” como diria Gérin. Salta à evidência que na conjuntura histórica actual os povos oprimidos do mundo oriental fizeram do Islão a sua bandeira na luta de resistência contra a agressão dos norte-americanos e seus aliados.

Não entenderemos também a penetração do Islão entre as massas proletárias oriundas da imigração que se amontoam às centenas de milhares nos nossos subúrbios longínquos. Aqui, o Islão aparece como “o suspiro da alma sofredora” perante a vastidão da exploração de uma burguesia medíocre, sedenta de lucros, que nem sequer respeita as suas próprias regras; perante um aparelho de Estado que decreta lei sobre lei contra a sua presença “clandestina” penalizando os seus usos vestimentários religiosos “ostentatórios”. Fizeram-no em 2004 quando proibiram o uso do véu na escola, recomeçam agora contra o uso (imaginário) da burca no espaço público.

Porque é que a religião persiste?

Em 1909, Lenine, abordando a religião e as suas interferências na luta de classes do seu tempo, sintetizava assim a questão:
“Porque é que a religião se mantém nas camadas atrasadas do proletariado urbano, em vastas camadas do semi-proletariado, tal como na massa dos camponeses? Em consequência da ignorância do povo, responde o progressista burguês, o radical ou o materialista burguês. E portanto, abaixo a religião, viva o ateísmo, a difusão de ideias ateias é a nossa tarefa principal. Os marxistas dizem: é falso. Este ponto de vista traduz a ideia supérflua, estreitamente burguesa, de uma acção da cultura por si própria. Este ponto de vista não explica completamente, não explica com um sentido materialista, mas com um sentido idealista, as raízes da religião. Nos países capitalistas actuais, estas raízes são sobretudo sociais. A situação social desfavorecida das massas trabalhadoras, a sua aparente impotência total perante as forças cegas do capitalismo, que infligem, todos os dias e a todas as horas, mil vezes mais sofrimentos horríveis, tormentos mais selvagens aos humildes trabalhadores do que acontecimentos excepcionais como as guerras, os sismos, etc., é aí que é preciso procurar hoje as raízes mais profundas da religião. «O medo criou os deuses». O medo perante a força cega do capital, cega porque não é previsível pelas massas populares, que, em cada instante da vida do proletário e do pequeno patrão, ameaça trazer-lhe a ruína «súbita», «inesperada», «acidental», que causa a sua perda, que faz dele um mendigo, um desclassificado, uma prostituta, o leva a morrer à fome, são estas as raízes da religião moderna que o materialista não deve perder de vista, acima de tudo e antes de tudo, se não quiser permanecer um materialista primário” (Da atitude do partido operário em relação à religião).

Nos nossos dias, a isto devemos acrescentar uma outra miséria ainda mais grave, uma miséria moral e política que atinge o proletariado no seu conjunto e isola particularmente a fracção do proletariado oriunda da imigração – uns e outros são abandonados por uma esquerda moribunda, capitulacionista e à deriva… e que em muitas situações se “cobre” ostensivamente, como é o caso do filisteu Gérin, com a velha roupagem de uma direita fiel aos valores do Ocidente, da barbárie civilizadora da acumulação capitalista.

Não é significativo que Xavier Mathieu, líder sindical da CGT na fábrica de pneus Continental de Clairoix (Oise), em luta pela indemnização dos 1120 operários despedidos, acabe de qualificar Thibault, secretário-geral da confederação, como “parasita”? Referindo-se aos bonzos sindicais, Mathieu acrescenta: “Os Thibault e companhia, só servem para se entenderem com o governo, para acalmarem as bases. Toda essa canalha serve apenas para isso!”; ao mesmo tempo que esclarece: “Pretendia atacar exclusivamente as federações. Tenho um imenso respeito pela base que no dia a dia se bate e percebe que lá por cima as coisas não andam”.

Se a esquerda bem pensante, política ou sindical, chega ao ponto de considerar que os operários combativos, como os da Continental, não passam de uma cambada de “bandidos”, então não estará longe de pensar que todos estes proletários de origem imigrante, que se empenham em nome de Alá no apoio à resistência à agressão imperialista, não são mais do que “terroristas” que ameaçam o Ocidente e o homem branco. Como sublinhou, muito a propósito, Alain Badiou, “O «ascenso dos integrismos» não é mais do que o espelho em que os ocidentais de barriga cheia consideram, amedrontados, os efeitos da devastação das consciências a que eles mesmos presidem” (Por detrás da lei do véu, o medo, Le Monde, 22 de Fevereiro 2004).

Transformar a revolta em revolução

A religião é absolutamente incompatível com a libertação da humanidade das suas submissões milenares, resultantes das diferentes sociedades divididas em classes que nos precederam. Deste ponto de vista, não deve ser poupada, por “razões tácticas”, à crítica ideológica; mas seria absurdo pensar que a arma da crítica bastaria, que suplantaria mesmo, a dimensão política do desenvolvimento da luta de classes.

Em todo o período histórico que nos separa da queda do capitalismo, aí estará a religião, bem viva, como produto espiritual deste mundo, simultaneamente como um travão e como uma alavanca. Um travão na maior parte do tempo, quando acompanha a causa dos opressores e se transforma “numa espécie de álcool espiritual onde os escravos do capital diluem a sua imagem humana”; um fermento da revolta, quando é tomada pelos oprimidos como bandeira da sua causa.

Aos revolucionários, a uma verdadeira esquerda que tem que renascer das cinzas, compete demonstrar que é possível fazer melhor e mais, afirmando-se, nomeadamente, como “a fracção mais determinada dos partidos operários de todos os países, a fracção que estimula todas as outras” com a vantagem de dominar “a compreensão clara das condições, da marcha e dos objectivos gerais do movimento operário”, como preconizou o Manifesto Comunista de 1848.

Competirá aos revolucionários transformar a revolta em revolução, abraçar sem reticências a causa dos oprimidos, eliminar qualquer linha de demarcação entre crentes e não-crentes no seio dos proletários. “A unidade na luta verdadeiramente revolucionária da classe oprimida pela criação de um paraíso na terra é mais importante para nós que a unidade da opinião proletária sobre o paraíso nos céus”, sublinhou, com oportunidade, Lenine (O socialismo e a religião, 1905). A transformação radical das condições materiais de vida no decurso do processo revolucionário, por outras palavras, na revolução em curso, é a base sobre a qual se erguerá uma nova humanidade, e também a condição de superação da religião enquanto concepção geral do mundo. O estaleiro está mesmo à nossa frente, aberto de par em par.

(*) Ver neste site o artigo A esquerda e o apoio à luta anti-imperialista






2 Comentários a “A deriva nacionalista da falsa esquerda”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Muito oportuno este artigo de M.Vaz, que corroboro integralmente. Para ser mais completo, poderia explicitar mais a citação de Marx, na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel para se entender com toda a clareza no seu contexto a expressão “a religião é o ópio do povo”. De qualquer modo, julgo que o que é verdadeiramente relevante é o retrato que M. Vaz nos revela do estado da actual da esquerda francesa no seu conjunto. Mas não é só em França que isto acontece. Quase toda a Europa está mergulhada nessa triste encruzilhada. Quem não se lembra da forma como foi tratado o que aconteceu em 11/09/2001. Só a lucidez de Gore Vidal, na altura, soube com alguma objectividade, penso eu, analisar o acontecimento de forma mais política e racional e não tratou histericamente nem emocinalmente a enorme da tragédia humana que realmente o facto provocou.

  2. Manuel Baptista disse:

    «A religião é absolutamente incompatível com a libertação da humanidade das suas submissões milenares, resultantes das diferentes sociedades divididas em classes que nos precederam. Deste ponto de vista, não deve ser poupada, por “razões tácticas”, à crítica ideológica; mas seria absurdo pensar que a arma da crítica bastaria, que suplantaria mesmo, a dimensão política do desenvolvimento da luta de classes. »
    As afirmações peremptórias contra a religião do estilo acima, destroem e entram em contradição interna com outras passagens do mesmo artigo.
    O artigo está mal «cozinhado» porque não reflectiu o suficiente sobre o que escreveu.
    A religião não é diferenciada da espiritualidade sequer, neste artigo.
    Ora, aí está uma falha importante. A espiritualidade é algo vivo, que acompanha o ser humano, desde os seus alvores, melhor: é parte intrínseca do humano. A religião é uma cristalização ou fossilização dessa espiritualidade viva, que – por vezes – se afirma e rompe a «crosta» de convencionalismo, de hipocrisia, de culto da ordem e do poder, até mesmo no seio da religião instituída.
    Há, em todas as épocas e culturas, hereges e dissidentes… onde os colocas? Muitos foram/são decisivos para o avanço da humanidade.

Deixe o seu Comentário