Unir a luta dos imigrantes com o movimento operário

Três perguntas a Tendance Claire, fracção do Novo Partido Anticapitalista

Manuel Vaz - Quinta-feira, 30 Julho, 2009

travailleurs_unis_72dpi.jpgNa série “Três perguntas a…”, que Manuel Vaz iniciou com centro na realidade francesa de hoje, publicamos desta vez um texto que aborda a questão antiga mas actual da presença e do peso dos imigrantes na luta de classes em França – na sequência dos acontecimentos, de que o Mudar de Vida deu conta, da Bolsa do Trabalho de Paris. Vistos sempre e paradoxalmente como um motor de luta e um freio pelas organizações operárias indígenas, os imigrantes constituem sem dúvida um ponto de referência clássico em matéria de internacionalismo e solidariedade. Destacam-se, nesta entrevista, os esforços dos meios da esquerda revolucionária francesa para reerguer um movimento operário anticapitalista assente em critérios de luta de classe.

A Tendance Claire e o Novo Partido Anticapitalista

Tendance Claire (Tendência Clara) é uma fracção minoritária organizada no seio do NPA (Novo Partido Anticapitalista). Por sua vez, o NPA (herdeiro do partido trotskista LCR – Liga Comunista Revolucionária) é a versão francesa do Bloco de Esquerda em Portugal.
Logo após as eleições presidenciais de 2007, que se saldaram com a vitória de Sarkozy, o candidato da LCR, Olivier Besancenot, que acabava de obter 1 498 581 votos, anunciou a sua intenção de criar de imediato um novo partido político “aberto a todos os anti-capitalistas”.

Ano e meio mais tarde, a 6 de Fevereiro deste ano, realizou-se na região parisiense o congresso de fundação do NPA que iria agrupar os militantes organizados da LCR, da JCR (organização da juventude da LCR), da Esquerda Revolucionaria, do grupo CRI (Comité Revolucionário Internacionalista), do colectivo Quadrado Vermelho e sobretudo vários milhares de militantes sem partido que obtiveram uma representação maioritária no conselho político nacional. Por esta ocasião, Besancenot declarou: “O NPA não é unicamente trotskista. Ele retoma todas as tradições revolucionárias, marxistas mas igualmente libertárias”. Os efectivos do novo partido rondavam então os 9 mil militantes, multiplicando por três os efectivos iniciais da LCR.

As eleições europeias de Junho passado são a primeira batalha eleitoral na qual o novo partido vai participar, um tanto precipitadamente. E os resultados (840 713 votos, isto é, 4,98% dos votos expressos e zero eleitos) não satisfazem nem aderentes nem simpatizantes. A questão das alianças “à esquerda” provoca polémica e rupturas no interior do partido.

A fracção Tendance Claire, constituiu-se em 14 de Fevereiro 2009, logo após o congresso de fundação. A sua moção de orientação geral obteve no congresso apenas 2,8% dos votos dos 700 delegados. Tendance Claire reclama-se do programa fundador da IV Internacional e propõe-se agir no seio do NPA contra “as importantes limitações programáticas” e outras “fraquezas estratégicas”. A fracção agrupa essencialmente os militantes do ex-grupo CRI.

Três perguntas a Tendance Claire

As questões que colocámos a Tendance Claire rodam em torno da luta dos sans papiers (imigrantes ditos “clandestinos”) e das recentes tomadas de posição da central sindical CGT e da direcção nacional do NPA.

1. Vocês estão entre aqueles que desde início condenaram severamente a agressão aos sem-papéis (CSP 75) pelo serviço de ordem da CGT, em 24 de Junho. Mas enquanto fracção do NPA como explicam o retraimento, o silêncio, da direcção do vosso partido diante de tais actos anti-operários?

Nós constituímo-nos como tendência do NPA desde o congresso de fundação porque achámos que os fundamentos programáticos do novo partido sofriam de ambiguidades (nomeadamente sobre a natureza da revolução que queremos) e porque a sua orientação estratégica não estava à altura dos objectivos. De facto, desde há anos, a luta de classes em França é marcada por uma combatividade dos trabalhadores e dos jovens superior à que se vê na maior parte dos países comparáveis, e isto foi confirmado pelo ciclo de lutas do primeiro semestre, a primeira resposta da classe operária à crise.
Mas, desde há anos e de maneira ainda mais aguda nestes últimos meses, o principal obstáculo à convergência das lutas e a uma dinâmica de unidade que possa levar à greve geral é a política das direcções sindicais e dos partidos reformistas a que estão ligadas.

Essas pessoas colaboram com o patronato e o governo e empenham-se em esgotar as lutas dividindo-as, concretamente através de “jornadas de acção” sem perspectivas. Ora, a crítica da direcção do NPA contra as direcções sindicais continua parcial e timorata, não tem nada de sistemática e não é acompanhada de um verdadeiro combate político, nas empresas e no interior dos próprios sindicatos, por uma orientação alternativa, por iniciativas fortes com vista a dinamizar a auto-organização dos trabalhadores e a coordenar as suas lutas. O comunicado da direcção do NPA sobre a evacuação da Bolsa do Trabalho pelos homens de mão da CGT, e a sua recusa em publicar um segundo comunicado apesar as múltiplas exigências nesse sentido da base do NPA, decorrem evidentemente dessa mesma recusa em combater de modo frontal e sistemático as direcções sindicais.

2. Por vezes, para justificar o injustificável ou minimizar o alcance do assunto, evoca-se um desacordo táctico entre o CSP 75 e a CGT que no entanto de início apoiava a luta dos sem-papéis. Que acha disso?

Para além desta ou daquela opção táctica, a CSP 75 é evidentemente, há anos, uma componente importante e reconhecida do movimento dos trabalhadores sem-papéis. A decisão de certos sectores da CGT, em Abril de 2008, de se empenharem no combate pela regularização dos trabalhadores Sem-papéis e de organizar greves nesse sentido, abriu a porta a uma dinâmica que poderia ter conduzido a uma verdadeira fusão do movimento dos sem-papéis e do movimento operário. Desde há mais de dez anos, com efeito, o movimento dos sem-papéis prossegue de modo corajoso, mas sofre com a distância e o isolamento em que é mantido pelas direcções sindicais.

Estas, na melhor das hipóteses, fazem um discurso humanitário, recusando considerar os trabalhadores sem-papéis como o sector mais oprimido da classe operária e colocar no centro das reivindicações unitárias da classe o combate pela regularização de todos, pela igualdade dos salários e das condições de trabalho.

Ora, na primavera de 2008, a direcção confederal da CGT, as principais federações e uniões regionais persistiram nessa atitude apesar do lançamento de greves de sem-papéis por um dado número de militantes e de sindicatos de base da CGT. Estas greves permaneceram por isso isoladas, não se estenderam ao conjunto das empresas em que eram possíveis em consequência da recusa mais geral da direcção da CGT de impulsionar um movimento de conjunto da classe operária contra o patronato e Sarkozy.

Em vez de lutar pela regularização de todos os sem-papéis e de apelar à mobilização solidária de toda a classe operária, a direcção da CGT impôs que o objectivo dessas greves de sem-papéis fosse exclusivamente a regularização caso a caso no quadro da lei racista de Hortefeux que prevê regularizar em certas condições trabalhadores sem-papéis de certos sectores particularmente penosos que têm falta de mão-de-obra.

Na falta de um combate político frontal contra a orientação e os métodos da direcção confederal, mesmo os militantes e os sindicatos de base que dirigiram essas greves com devoção e coragem se viram rapidamente num impasse. No final, 2 mil trabalhadores sem-papéis terão sido regularizados, segundo a CGT, na realidade bem menos do que isso na medida em que muitos o foram com títulos de permanência de curta duração.

A CSP 75 exigiu com razão que a greve fosse estendida e que os dossiês dos seus membros fossem também examinados: isto equivalia a fazer explodir as quotas ditadas por Hortefeux e sobre as quais a direcção da CGT assentou a sua estratégia; isto conduzia, por conseguinte, a exigir a extensão da luta a todos os sem-papéis, o que supunha um apelo claro das direcções sindicais nesse sentido. Esta é a chave real do conflito, que nada tem de táctico, mas revela um desacordo de fundo.

3. Estes acontecimentos lembram a aventura da Paul Mercieca, antigo presidente da câmara de Vitry sur Seine que, na véspera de Natal de 1980, tentou desalojar, com um buldozer, os 300 imigrantes malianos (neste caso “legais”) residentes num lar Sonacotra [habitação social] da cidade. Que paralelo estabelece entre estes dois factos?

Um presidente de câmara do PCF de 1980 e os burocratas da CGT de 2009 têm como ponto comum principal, para lá dos anos e da queda do muro de Berlim, ser fundamentalmente estalinistas, isto é uma variante de burocratas reformistas. Hoje como ontem, tais pessoas inscrevem a sua orientação no quadro do sistema capitalista e das instituições do Estado imperialista francês. Isso condu-los necessariamente ao chauvinismo, desde o “produzamos francês” o PCF dos anos 1970 (sem falar da cumplicidade desse partido com o nacionalismo e o colonialismo francês, desde os anos 1930 à guerra da Argélia) até à actual recusa dos dirigentes do PCF e da CGT de batalhar pela revogação das leis anti-imigrantes (muitas das quais foram votadas sob governos PS-PCF).

Toda a política de colaboração de classes com a burguesia implica a recusa em unificar a classe operária, porque a luta de classe de um proletariado unificado se desenvolveria com uma tal dinâmica que faria voar em pedaços o quadro político que permite hoje às direcções sindicais e aos partidos reformistas “acompanharem” as contra-reformas do governo. Pelo contrário, o combate pela unidade da classe operária, pela fusão do movimento dos sem-papéis com a classe operária, pela regularização de todos os sem-papéis e, por conseguinte, pela demarcação sistemática face aos reformistas é uma tarefa central para todos aqueles que querem construir um novo partido anticapitalista coerente e consequente, isto é, revolucionário.


NR: as opiniões dos nossos entrevistados podem não corresponder necessariamente aos pontos de vista da redacção do MV.






2 Comentários a “Unir a luta dos imigrantes com o movimento operário”

  1. alfredoalexdiniz disse:

    Já se sabia (que era sol de pouca dura) e que ao fim de um mês, ou pouco mais teria que haver fracções entre si, aliás onde há dois troskystas,terá que haver forçosamente duas “organizações”, uns são a favor das teses da II internacional, outros da II,1/2 e ainda outros os “mais puros”da IV, no fundo todos estão contra o proletariado e contra o comunismo, apesar da sua linguagem pseudo-socialista.
    Conseguem ver em tudo em que não estão de acordo, para esconderem o seu oportunismo e as suas inconsequências “revolucionárias” a “mão invisível” de Stalin, daí a sua diabolição.
    No entanto este artigo, chama a atenção para a falta de denúncia, sobre as práticas poliíticas e sindicais oportunistas e anti-proletárias dos dirigentes sindicais das maiores Centrais Sindicais Francesas, prática essa que também no seu início o MV tinha e fazia, apesar de muito limitado e pouco aprofundado, mas que deixou de fazer e o que é mais grave é que passou a defender algumas exigências políticas reformistas e burguesas, que até aqui “eram” propriedade do PCP e do BE.
    Será que o MV, está de vela em “PÔPA” e a procurar atracar a outros PORTOS, ou é apenas uma crise “PASSAGEIRA” de identidade ideológica?

    A.Alex.Diniz

  2. alfredoalexdiniz disse:

    Caros amigos
    Estou deveras supreendido com a censura que fizeram ao meu comentário; Será que o “comentário” era insultuoso? Se não era e porque se tratava de uma crítica a posições que eu entendo serem reformistas, porque razão os amigos não o publicaram? Ou será que só aceitam aquelas que vos é favorável e convivem mal com a crítica?
    É que nos comentários que faço, nos (sit) do PCP e no BE, também já me tem acontecido o mesmo.
    Será que vós estão a ir pelo mesmo caminho? Ou perante as circunstâncias evidentes, optaram pela não resposta,como prova da vossa fraqueza política e ideológica.
    É que para quem se apresenta como anti-capitalista (segundo o vosso manifesto) e depois manifesta esta prática, possivelmente não ireis muito longe.
    Se os “troskistas” da “tendance claire” tivessem conhecimento desta vossa atitude, certamente que vos classificariam como “STALINISTAS”

    Ainda assim um abraço
    A.Alex.Diniz

Deixe o seu Comentário