Um planeta à beira da catástrofe

A violência de massas cresce com o agravamento da crise mundial

Michael T. Klare / Manuel Raposo - Quinta-feira, 11 Junho, 2009

grecia-molotov-no-choque72dpi.jpgO texto que divulgamos é um resumo de um artigo do norte-americano Michael T. Klare, que lecciona sobre paz e segurança mundial no Hampshire College, EUA. Foi publicado em Março no site CounterPunch e aborda a actual crise mundial do capitalismo por um ângulo interessante e actual: o crescimento da violência de massas num quadro de aumento da pobreza e do desespero.
Numa altura em que as forças da ordem (políticas, policiais, judiciais, morais) visam criminalizar as acções de protesto social – insistindo na tecla do aumento da criminalidade e iludindo a relação entre crime e pobreza – o texto de Michael Klare mostra bem a relação directa que existe entre a crise em curso e os protestos massivos. E mostra mais: a inevitabilidade da violência como reacção ao aumento da pobreza e à falta de perspectivas de futuro.
Serão certamente as populações e os países do Terceiro Mundo os mais atingidos pela crise e pelas suas consequências; mas os laços estreitos que a globalização do capitalismo estabeleceu entre todos os países do mundo fazem com que largas camadas trabalhadoras de países desenvolvidos se vejam também mergulhadas no desemprego e na pobreza. Essa é uma base comum para que os protestos desses dois mundos venham a convergir para o mesmo fim, a contestação do sistema capitalista, atacando a crise na sua raiz.
Manuel Raposo

O colapso económico mundial provocou já falências bancárias, bancarrotas, fechos de fábricas e confiscações; nos próximos anos esse colapso provocará sem dúvida milhões de desempregados em todo o planeta. Mas uma outra consequência perigosa só recentemente apareceu: as desordens civis e os conflitos étnicos. Talvez se siga, um dia, a guerra.

À medida que as pessoas perdem a confiança na capacidade dos mercados e dos governos em resolverem a crise mundial, elas explodirão provavelmente em manifestações violentas ou atirar-se-ão violentamente àqueles que tomam como responsáveis da sua situação desesperada, incluindo funcionários, directores de fábricas, proprietários de casas, imigrantes e minorias étnicas.
Se o desastre económico actual se transformar no que Barack Obama chamou uma “década perdida”, a consequência pode ser levantamentos por todo o mundo tendo por origem a situação económica.

Para tomarmos consciência disso, basta pendurar na parede um mapa do mundo e começar a colocar alfinetes vermelhos nos locais onde os episódios violentos já tiveram lugar. Atenas (Grécia), Longman (China), Port-au-Prince (Haiti), Riga (Letónia), Santa Cruz (Bolívia) e Vladivostoque (Rússia), para começar. Muitas outras cidades, de Reiquiavique, Paris, Roma e Saragoça até Moscovo e Dublin tiveram já enormes manifestações contra a subida do desemprego e a queda dos salários – manifestações contidas graças, em parte, a numerosas forças policiais antimotim.

Na maior parte dos sítios, tais levantamentos, mesmo violentos, permanecem provavelmente limitados pela sua natureza e suficientemente desorganizados para que as forças da ordem os possam controlar em poucos dias ou semanas. Pelo menos foi assim que as coisas se passaram até agora. No entanto, é inteiramente possível que, à medida que a crise económica se agrave, alguns destes incidentes se propaguem em acontecimentos bem mais intensos e mais longos: rebeliões armadas, golpes de estado militares, conflitos civis – ou mesmo guerras entre estados sobre um fundo de crise económica.

Cada erupção de violência tem as suas próprias origens e características distintas. Mas todas têm a sua fonte numa combinação similar de angústia quanto ao futuro e falta de confiança na capacidade das instituições estabelecidas de tratarem dos problemas imediatos. E, tal como a crise é mundial, de um modo nunca antes visto, da mesma maneira os incidentes locais – particularmente com a natureza instantânea das comunicações modernas – têm o potencial de arrastar atrás de si outros locais muito afastados, unicamente ligados de modo virtual.

Uma pandemia de violência de origem económica

Os motins que estalaram na Primavera de 2008 em resposta ao aumento dos preços alimentares parecem indicar a rapidez a que a violência de origem económica se pode espalhar. Os media ocidentais não relatam geralmente todos os incidentes deste tipo, mas o New York Times e o Wall Street Journal referiram mesmo assim os motins nos Camarões, no Egipto, na Etiópia, no Haiti, na Índia, na Indonésia, na Costa do Marfim e no Senegal.

Essas acções de protesto pararam porque a queda do preço do petróleo diminuiu os preços dos bens alimentares. Mas podem recomeçar quando os preços do trigo, da soja e talvez do arroz aumentarem nos próximos meses – precisamente no momento em que é garantido que milhares de milhões de pessoas nos países em desenvolvimento vão ver os seus rendimentos, já de si marginais, afundarem-se por causa do colapso mundial.

Apesar de terem sido pintadas como conflitos étnicos, religiosos ou de castas, estas erupções de violência foram manifestamente provocadas pela angústia económica e pelo sentimento de que outro grupo social se safa melhor – à custa dos mais precários.

Em 2008, os conflitos provocados pela situação económica rebentaram igualmente numa grande parte da China oriental. Tais acontecimentos, etiquetados como “incidentes de massas” pelas autoridades chinesas, significam geralmente manifestações de trabalhadores contra o encerramento súbito de fábricas, as perdas salariais ou a confiscação ilegal de terras. Na maioria dos casos, os manifestantes exigiam indemnizações da parte dos directores das empresas ou das autoridades governamentais e foram recebidos a golpes de matraca pela polícia.

Do Terceiro para o Primeiro Mundo

Desde Dezembro, o epicentro de tais incidentes esporádicos de violência deslocou-se dos países em desenvolvimento para a Europa ocidental e para a antiga União Soviética. Aqui, as manifestações foram sobretudo motivadas pelo medo de um desemprego prolongado, pelo desespero ligado às malfeitorias e à incompetência dos governos, e pelo sentimento de que “o sistema”, seja qual for a maneira de o definir, é incapaz de satisfazer as aspirações futuras de amplos grupos de cidadãos.

Um dos primeiros levantamentos desta nova maré deu-se em Atenas, na Grécia, em 6 de Dezembro de 2008.

A Rússia conheceu igualmente uma série de manifestações violentas em Dezembro desencadeadas pela imposição de tarifas alfandegárias elevadas sobre os automóveis importados. Quando a polícia de Vladivostoque recusou reprimir as manifestações, as autoridades ficaram suficientemente inquietas para enviarem de Moscovo, a 5.900 km, unidades de forças especiais.

Em Janeiro, incidentes da mesma natureza espalharam-se em toda a Europa oriental. Entre 13 e 16 de Janeiro, manifestações antigovernamentais, com confrontos violentos com a polícia, estalaram em Riga, capital da Letónia, em Sófia, capital búlgara, e em Vilnius, capital da Lituânia. Torna-se já impossível fazer a lista de todos os episódios deste tipo, o que parece indicar que estamos à beira de uma pandemia mundial de violência, tendo uma origem económica.

Uma receita perfeita para a instabilidade

Enquanto a maior parte dos incidentes deste tipo é desencadeada por um acontecimento imediato – uma tarifa alfandegária, o encerramento de uma fábrica local, o anúncio de medidas de austeridade – há factores sistémicos que estão em curso. Os economistas concordam que estamos no meio duma recessão mais profunda que todas as outras desde a Grande Depressão dos anos 30, mas supõem geralmente que esse declínio – como todos os outros desde a segunda guerra mundial – será seguido dentro de um, dois, ou três anos, pelo início de um restabelecimento típico.

Mas há boas razões para suspeitar que pode não ser assim – que os países mais pobres (ao mesmo tempo que os habitantes dos países mais ricos) terão de esperar bem mais tempo por um tal restabelecimento ou poderão mesmo não beneficiar de nenhum. Mesmo nos EUA, segundo uma recente sondagem Ipsos/McClatchy, 54% dos norte-americanos pensam hoje que o pior está para vir e apenas 7% acham que a economia “virou a página”. Um quarto da população pensa igualmente que a crise vai durar mais de quatro anos. Seja nos EUA, na Rússia, na China ou no Bangladesh, é esta angústia subjacente – este sentimento de que as coisas são bem piores do que se diz – que contribui para alimentar a pandemia mundial de violência.

Os avisos do Banco Mundial

O mais recente relatório do Banco Mundial (BM) sobre a situação, as Perspectivas Económicas Mundiais para 2009, responde a estas angústias com ambiguidade. Recusa-se a expor o pior, mesmo se depois acaba por dá-lo a entender em termos demasiados claros para serem ignorados – a perspectiva de um declínio de longa duração, ou mesmo permanente, das condições económicas para numerosas pessoas em todo o mundo. Teoricamente optimista – como o são tantos peritos nos media – quanto à probabilidade de um restabelecimento económico num futuro não muito longínquo, este relatório está cheio de avisos relativos ao potencial de danos duráveis nos países em desenvolvimento se as coisas não caminharem pelo melhor.

Duas inquietações, em particular, dominam as Perspectivas da Economia Mundial para 2009: que os bancos e as empresas dos países mais ricos deixem de investir nos países em desenvolvimento, sufocando o que resta das possibilidades de crescimento; e que o custo dos bens alimentares suba de modo incomportável, ao mesmo tempo que a utilização de solos agrícolas para a produção acrescida de biocarburantes origine uma reduzida disponibilidade de bens alimentares para centenas de milhões de pessoas.

A baixa quase certa dos investimentos ocidentais nos países do Terceiro Mundo, diz o relatório, significará uma situação muito grave para os países em desenvolvimento. Um tal cenário traduzir-se-á numa situação de convulsão e desordem, incluindo falências bancárias e crises monetárias num leque importante de países em desenvolvimento.

Um crescimento negativo brutal num grande número de países em desenvolvimento, com todas as repercussões concomitantes, designadamente pobreza e desemprego acrescidos, seriam assim inevitáveis.

Combinem-se estas duas conclusões do BM – crescimento económico zero nos países em desenvolvimento e aumento dos preços alimentares – e ter-se-á uma receita perfeita para perturbações civis e violência implacável. As erupções de violência vistas em 2008 e no princípio de 2009 seria assim sinais anunciadores de um futuro sombrio no curso do qual, a um dado momento, um número indeterminado de grandes cidades será convulsionado por motins e desordens civis que poderão espalhar-se como fogo em palha.

O mapa de um mundo à beira da catástrofe

Existe hoje no mundo um número enorme de sítios potenciais para tais erupções múltiplas – ou mesmo pior. A China, por exemplo. Até agora as autoridades conseguiram controlar os “incidentes de massas” individuais, impedindo-os de se fundirem em qualqer coisa mais vasta. Mas num país com mais de 2.000 anos de história de amplos levantamentos milenares, o risco de uma escalada tem de estar no espírito dos dirigentes chineses.

Em 2 de Fevereiro, um responsável cimeiro do partido chinês, Chen Xiwen, anunciou que, só nos últimos meses de 2008, o número espantoso de 20 milhões de trabalhadores migrantes, que, nos últimos anos, foram das zonas rurais para as cidades em crescimento, perdeu o emprego. E que poucos deles têm perspectiva de voltar a encontrar emprego em 2009, nem mesmo se regressassem ao campo, onde não teriam terra para trabalhar.

Nestas condições, e com milhões de trabalhadores suplementares despedidos das fábricas costeiras no próximo ano, as perspectivas de perturbações massivas são elevadas.

Outro exemplo são os estados petrolíferos do Terceiro Mundo que tiveram crescimentos meteóricos dos seus rendimentos quando o preço do petróleo era elevado, permitindo aos seus governantes comprar os grupos dissidentes ou financiar poderosas forças de segurança. Mas com os preços do petróleo a cair de 147 dólares o barril para menos de 40, tais países, de Angola à Nigéria ou ao Iraque, estão confrontados com uma grave instabilidade.

Outras regiões, igualmente prejudicadas por essa política nacional respeitante à partilha dos rendimentos, estarão abertas a convulsões de toda a espécie, incluindo guerras fratricidas mais numerosas e mais intensas

A Bolívia é outro produtor de energia que parece estar à beira de uma escalada de violência alimentada pela situação económica. A elite de ascendência europeia, que controla a parte oriental do país, suporta mal a interferência do governo central de Evo Morales e procura controlar ela própria essas reservas – criando as condições para uma guerra civil generalizada.

Países estreitamente vigiados

Dada a situação mundial em que se sucedem desenvolvimentos surpreendentes e por vezes inesperados, predizer o que quer que seja é arriscado. No entanto, para o povo, os dados essenciais são bastante claros: o declínio económico contínuo, combinado com o forte sentimento de que as instituições e os sistemas existentes são incapazes de pôr as coisas em ordem, produz já uma mistura letal de angústia, de medo e de cólera. Explosões populares de uma espécie ou de outra são inevitáveis.

Esta nova realidade chegou já aos escalões mais altos dos serviços de informações norte-americanos. Numa audição senatorial, em 12 Fevereiro último, o almirante Dennis C. Blair, novo director das Informações Nacionais, declarou: “A primeiríssima preocupação a curto prazo dos EUA, em matéria de segurança, é a crise económica mundial e as suas implicações geopolíticas… Os modelos estatísticos mostram que a crise económica, se persistir por um período de um a dois anos, aumenta o risco de instabilidade que ameaça certos regimes”.

O almirante Blair não especificou que países tem em mente, mas é claro, depois do seu testemunho, que os responsáveis norte-americanos vigiam de perto dúzias de nações instáveis na África, no Próximo Oriente, na América Latina e na Ásia Central.

Retome-se agora o mapa pendurado na parede, com todos os alfinetes cor-de-laranja e vermelhos, e pintem-se os países em tons de vermelho e laranja indicando os declínios recentes mais chocantes do produto interno bruto e os mais fortes aumentos do desemprego. Mesmo sem 16 agências de informações às nossas ordens, teremos uma boa noção dos sítios onde Blair e consortes têm o olhar fixado, em termos de instabilidade, à medida que o futuro se vai tornando sombrio sobre um planeta à beira da catástrofe.

Adaptado de A planet at the brink, de Michael T. Klare, publicado em CounterPunch, em 03.03.09






Um Comentário a “Um planeta à beira da catástrofe”

  1. HEITOR DA SILVA disse:

    Esta é uma séria probabilidade que, como tal, exige ser encarada com seriedade. À partida é de considerar uma de duas possíveis situações que seriam : 1 – levantamentos violentos desorganizados sem ordem nem lei; 2 – Grupos específicos autónomos organizados, tendo como 1º objectivo resistir aos referidos em 1 e ao mesmo tempo estabelecendo os seus próprios sistemas de segurança em rede, como forma de estabelecer ordem e estabilidade. Dependendo do grau de efectividade deste ponto seriam ampliadas a ordem e a segurança necessárias para resistir e organizar a vivência das populações e a produção a ela necessária. Lógico será agir em antecipação e não reagir a posteriori depois do caos instalado.

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