Mentir à descarada

Como se fabrica “opinião pública”

Manuel Raposo - Quinta-feira, 26 Fevereiro, 2009

O diário de distribuição gratuita Meia Hora deu destaque de primeira página, na sua edição de 2 de Fevereiro, aos 30 anos da revolução no Irão dizendo que o país vive “arredado do convívio (?) das nações” por apoiar “grupos radicais islâmicos” e por andar a enriquecer urânio “à revelia da ONU”. Dias depois, a 17 de Fevereiro, comentava o resultado do referendo na Venezuela dizendo que Hugo Chávez “agora pode ficar no poder até se fartar”. Para o jornalismo praticado pelo Meia Hora os factos não contam.

“Eixo do Mal”
No que toca ao Irão, não se percebe que “convívio” e que “nações” tem em mente o Meia Hora, mas é um facto objectivo que o Irão é membro de pleno direito da ONU – organismo internacional que, mal ou bem, é o fórum onde as nações do mundo “convivem”. A afirmação do MH é portanto desprovida de qualquer valor para caracterizar o posicionamento internacional do Irão. Tem apenas o efeito de dar a conhecer o padrão mental do MH que, pelos vistos, é o dos EUA do senhor Bush e o dos sionistas israelitas.

Sendo assim, percebe-se que o “apoio dado a grupos radicais islâmicos” pelo Irão incomode o MH – foram esses “grupos radicais” que deram o corpo ao manifesto para enfrentar as agressões de Israel ao Líbano em 2006 e recentemente em Gaza. Claro que, por isso, o Irão merece, na óptica retorcida do MH, o anátema de “eixo do mal” – mas não os EUA e Israel que têm às costas, só nos últimos oito anos, bem mais de um milhão de mortos civis em quatro teatros de guerra (Afeganistão, Iraque, Líbano e Palestina).

Países “perigosos”
Classificando o Irão como “um país perigoso”, o MH serve-se de um relatório do International Institute for Strategic Studies (do Reino Unido) para sugerir que o Irão poderia fabricar uma bomba nuclear “até ao fim do ano”. Tudo, claro, “à revelia da ONU”.

Ora, o relatório não afirma o que o MH lhe atribui, e os factos acerca da questão são completamente outros. O Irão produz urânio enriquecido com conhecimento da organização da ONU capacitada para o fazer, a Agência Internacional de Energia Atómica. Mais, o Irão subscreveu o Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares e por isso é fiscalizado pela AIEA – coisa que Israel não fez, tendo-se tornado uma potência nuclear clandestina, sem qualquer controlo, e por isso mesmo “um país perigoso”.

Como que desmentindo tudo o que dissera antes, o MH de 20 de Fevereiro dá conta, (mas numa nota muito pequena…) de uma informação dada na véspera pela AIEA, segundo a qual ”o Irão continua a realizar operações de enriquecimento de urânio” não tendo a AIEA “registado qualquer progresso substancial” no que respeita ao inquérito sobre o “alegado programa nuclear militar de Teerão”.

Chávez é mau
Com o caso de Hugo Chávez, de novo as impressões contam mais que os factos, na mesma linha de jornalismo “insinuante” que o MH pratica.

O facto é este: foi aprovada em 16 de Fevereiro, por referendo, uma emenda à constituição venezuelana que permite a recandidatura, sem limites, de todos os eleitos para cargos políticos. A notícia do MH diz que a Venezuela “coroou Chávez” e que ele agora “pode chegar à eternidade” como presidente.

Houve fraude no referendo? Não. Chávez, ou qualquer candidato venezuelano, têm a partir de agora a reeleição garantida? Também não. O comentário desvairado do MH mostra apenas um propósito: atribuir, de forma inteiramente gratuita, projectos ditatoriais a Hugo Chávez passando por cima do facto de a emenda constitucional ter sido sujeita a sufrágio e ter vencido com o apoio dos votos populares por ampla margem. É isto que dói a todos os Meias Horas.

Uribe é bom
O facciosismo do MH torna-se ainda mais patente lembrando este outro facto: em Junho de 2004, na Colômbia, foi tomada a mesma decisão com o propósito de renovar o mandato do presidente Álvaro Uribe, o traficante de armas e de droga que os EUA apoiam e financiam. A emenda constitucional foi, neste caso, aprovada no parlamento (e não em referendo) apenas por uma diferença de dois votos. Soube-se entretanto, em Abril de 2008, através de uma deputada que deu com a língua nos dentes, que Uribe comprara votos dos deputados – e, diante disto, o Supremo Tribunal de Justiça da Colômbia instituiu um Tribunal Constitucional para impugnar a ilegalidade.

Neste caso sim, o propósito não foi outro senão eternizar o regime corrupto e torcionário que domina a Colômbia contra os interesses da sua população. Mas não parece que o Meia Hora se atreva a dizer que Uribe tenha sido “coroado” ou “eternizado” no poder.






Um Comentário a “Como se fabrica “opinião pública””

  1. António Poeiras disse:

    Mas não fazem o mesmo os auto-denominados ‘jornais de referência’ (Público, Expresso, DN ou JN)?

    Naturalmente, qualquer jornal, e essa é a questão verdadeiramente relevante, produz e reproduz o consenso, a ‘cultura comum’ numa determinada comunidade num tempo determinado.

    Mesmo à esquerda, é mais comum identificar elementos dessa cultura (a que chamamos dominante) que comportamentos revolucionários.

    Os operários, na sua maioria e por mais que isso custe à esquerda, aspiram apenas à propriedade e ao poder.

    Os jornalistas, sobretudo os mais jovens, de um modo geral muito pouco eruditos e bastante incapazes de pensar para além do trivial, ainda por cima cheios do seu estatuto, limitam-se a reproduzir os discursos dos políticos, como agora se diz, do arco do poder: até os bloquistas mais próximos dos gabinetes de S. Bento e Bruxelas falam de Hugo Chavez com uma ênfase semelhante à dos jornais – populista, ditador e patati, patata.

    Há menos a intenção de intoxicar (uma conspiração comandada por um centro de poder) que um conjunto de outros fenómenos idos da tendência para o consenso à ignorância e, também, a acção intencional de alguns agentes, claro está, mas esta é menos significativa e medra apenas porque encontra um terreno propício.

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