A JCP, o RJIES e as praxes

Diana Dionísio - Domingo, 2 Novembro, 2008

A Juventude Comunista Portuguesa fez um texto intitulado «RJIES – proibição das praxes», que está no seu blog e que enviou para a imprensa. Na semana passada, pelo menos nas paredes da Faculdade de Letras de Lisboa, apareceram uns cartazes impressos a tinta azul com o título Comunicado e esse mesmo texto, assinado pela JCP. Nesse texto, a proibição das praxes e o RJIES (o novo Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior que, sem se chamar “Regime de Privatização do Ensino”, tirou os estudantes nos órgãos de discussão e decisão das escolas e os trocou por representantes de empresas) são metidos no mesmo saco, são “a mesma coisa”, e o apelo é para que todos os estudantes (depreende-se: os que lutam contra o RJIES e os que lutam pelas praxes) se unam.

A JCP dá tanta importância à praxe (e está tão metida nela) que se dá ao trabalho de escrever um texto sobre isso. Isto revela, aliás, que as praxes andam mesmo a ganhar muito poder dentro das escolas e muito tempo e espaço da cabeça dos estudantes – facto triste e perigoso a que se deve dar atenção.
Mas os membros da juventude comunista estão também preocupados com a “outra” luta… e por isso querem juntar todos. Hum… e até dá jeito: olhem lá o pessoal todo das praxes numa manifestação! Uooou! As grandes massas de gente seguidista a engrossar as magras fileirinhas de pessoas que querem lutar por uma escola pública, livre, gratuita, para todos, sem mercado.

E pronto, já têm uma bela estratégia de manipulação de massas! É só criar um novo grito: «a proibição das praxes é um atentado à liberdade dos estudantes!» Para eles tem tudo que ver com o RJIES, é mais uma ameaça do RJIES. Há que ver, já agora, que ainda por cima isto é mentira: o RJIES não proíbe as praxes. Estas recentes “lutas”, RGAs, protestos contra a proibição das praxes só nasceram porque o Mariano Gago foi o primeiro ministro que teve a ousadia de falar sobre elas e contra elas, e o que disse foi que não deixaria de averiguar os abusos. Ele também não proibiu nada. Quem proibiu foram alguns directores de algumas faculdades (cheios de medo de serem responsabilizados, pois sabem muito bem de que é que as suas casas gastam!). Esses proibiram que houvesse praxes dentro das suas instalações, coisa que nem sempre chegou a acontecer na prática – veja-se o Instituto Superior Técnico, por exemplo, onde continuou tudo na mesma apesar da proibição.

Acho incrível que se ache que a luta por uma outra escola – uma escola que não seja mercado, uma escola em que as pessoas se relacionem em pé de igualdade e em que busquem por conhecer novas coisas – e a “luta” por podermos ser carneiros e burros e irmos atrás das praxes seja considerada a mesma coisa. Para mim, são o oposto. Também o ministro Mariano Gago devia pensar um pouco sobre isto, quando se afirma contra as praxes mas acaba com a democracia nas escolas e dá as faculdades às empresas, de mão beijada. Mas o ministro é do poder, faz o que o poder lhe manda, já se sabe. O que me inquieta de facto são aqueles com quem eu deveria estar na luta por mudar o mundo, jovens estudantes que dizem também querer lutar contra o RJIES, neste caso. E acham que o conseguem fazer enquanto milhares de estudantes-avestruzes têm a cabeça enfiada em baldes de esterco?! E que o conseguem fazer precisamente com esses que têm lá a cabeça e que andam a lutar para que não se acabe a tradição de tapar a boca, os olhos, os ouvidos e o nariz aos estudantes?!

As praxes ensinam a deixar o sentido crítico na cama quando saímos de casa e a cumprir as ordens que recebemos dos outros – desde que sejam superiores hierárquicos, claro. As praxes são o contrário do pensamento, da igualdade, da fraternidade, do salto por cima dos muros. As praxes são o prato de sopa já inventado e já gasto que reflecte no seu fundo de loiça tudo o que nos vende (ou até oferece, se for preciso!) a nossa sociedade capitalista, carneirista, individualista, mesquinha, cinzenta, parca de novas ideias e de atitudes diferentes e livres e com capatazes empenhados em fazer esconder a todo o custo que mudar de vida é possível.






5 Comentários a “A JCP, o RJIES e as praxes”

  1. Cuida Lá disse:

    Que bom que alguém aponte estas incoerências pós-modernas, ou, se calhar, até mais do que isso: desnorte político, esquizofrenia filosófica…
    Obrigada.

  2. Duarte disse:

    Antes que mais nada: sou estudante e não entro em praxes. Acho, tal como a autora do texto, que é uma forma de seguidismo e de estupidificação dos estudantes. Mas isto é a minha opinião.
    Uma coisa é a condenação social da praxe, outra coisa é a sua proibição. A condenação social é aceitável (e aliás louvável), mas a proibição é uma medida que, como a JCP diz, interfere na liberdade dos alunos.

    Não se esqueçam que a liberadade normalmente é a liberdade dos outros. É fácil lutarmos pelas nossas liberdades. Difícil é lutarmos pelas liberadades que não pretendemos usufruir. Eu nunca penso vir a usufruir da liberdade de praticar um aborto (pois não o posso fazer biologicamente), mas defendo a liberdade de outros o fazerem, se o entenderem. Neste caso, é igual: ainda que sejamos contra a praxe, se acreditamos na liberdade como valor fundamental, não faz sentido tentar impedir os outros de a fazer.

    Nota-se nesta tentativa de imposição de valores morais (no caso da praxe) uma certa tendência autoritária, que esperava ver em outras esquerdas que não a do Mudar de Vida. Não sejamos mais estalinistas que o Estaline…

    Neste caso, a JCP tem razão, porque está a defender o direito dos alunos a serem seguidistas. E esse direito, é um como os outros.

  3. josé manuel faria disse:

    Podem ser contra as praxes, mas foram os primeiros a pactuarem com o traje académico no início de 80 quando no Porto não havia tradição!

  4. ana disse:

    Não creio que a autora esteja a favor da proibição das praxes. Aliás, sei bem que não está.
    A questão que a Diana levanta é a relação entre as praxes e a luta estudantil. Porque se há quem queira pensar que arrebanhar para as praxes é o mesmo que arrebanhar para as outras coisas (e neste caso, arrebanhar para “as lutas”), a verdade é que o arrebanhar impõe um “come e cala” nada baseado no espírito crítico; e a contestação, a luta (estudantil e não só) e o “mudar de vida” só são possíveis com pensamento crítico, com o levantamento de questões, geralmente novas (e não ratadas pelo tempo da auto-denominada “tradição”).

  5. sales disse:

    Acho piada, “arrebanhar impõe um come e cala nada baseado no espirito critico”, como que o chamado espirito critico fosse livre de lavagem ideológica, neste caso de quem detém os meios, e eu nem me pronunciar sobre quem porque me parece ser um blog tão intelectual que me deveria sentir mal por aqui opinar, dado que simplesmente detenho o ensino básico… o que os senhores ditos pensadores ou procuradores de um emprego bom não percebem é que de facto existe a sachola, o dono dela e quem depende dela para trabalhar.. é essa a diferença, o seguidismo é eu papar a sopa do sistema e achar-me superior ou porque tenho um dito curso superior ou porque até leio o público em vez da bola, tem sempre graça que os arrebanhados sejam os que lutam contra a corrente e nunca os que nela se deixam levar…..disse.

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