Tópico: Editorial

O teletrabalho como panaceia

Editor — 25 Novembro 2020

O teletrabalho parece ter-se tornado uma panaceia. Patrões, Governo e meios de comunicação, não só o promovem invocando razões sanitárias, como se empenham em exaltar-lhe supostas virtudes inovadoras — como se estivéssemos diante de uma revolução no mundo do trabalho. Quase se agradece à pandemia por vir obrigar a tamanho “progresso”.


As eleições nos Açores como amostra

Editor — 6 Novembro 2020

As eleições regionais nos Açores mostraram, uma vez mais, a tendência para a diminuição do peso relativo das forças do chamado bloco central PS-PSD. Na verdade, a perda da maioria absoluta que mantivera o PS à frente do governo regional (menos 7 pontos) não foi compensada pelo fraco crescimento do PSD (mais 3 pontos). Neste caso, porém, a deslocação do eleitorado dirigiu-se, quase exclusivamente, para a direita. A quebra da CDU e a estagnação do BE, por um lado, e o crescimento do Chega, do PPM e da Iniciativa Liberal, por outro lado, assim o mostram.


Parque jurássico

Editor — 30 Setembro 2020

A TSF reanimou um fóssil por alguns minutos, numa entrevista a Ferraz a Costa transmitida a 26 de Setembro. O homem, que foi presidente da CIP durante 20 anos, é presidente (pois claro) duma associação patronal chamada Fórum para a Competitividade. Além de gerir os negócios da família, do ramo farmacêutico (Iberfar), nunca se lhe conheceu actividade laboral propriamente dita. Fala do trabalho dos outros, como patrão.


A hora dos reformadores sociais

Editor — 9 Agosto 2020

Chovem as promessas de que “isto” tem de mudar, por se ter tornado (evidentemente) insustentável. “Isto” é o aumento das desigualdades, o desperdício, a destruição ambiental. Disse-o recentemente, falando para o mundo, o secretário-geral da ONU António Guterres. Disse-o também, em escala caseira, o professor António Costa Silva, encarregado pelo Governo de traçar um plano de recuperação económica.


Caldo de cultura

Editor — 23 Julho 2020

Não se pode dizer que a pandemia apanhou tudo e todos de surpresa. Não se pode dizer que qualquer regime social, qualquer economia, qualquer forma de Estado seriam abalados como o mundo o está a ser.


O anjo da guarda

27 Novembro 2017

Não há muito tempo, os meios da direita falavam com insistência de que “o país” precisava de um líder com carisma para “pôr ordem nisto”. E o facto é que a ideia toca muita gente do povo, farta de compadrio, de corrupção, de enriquecimentos desbragados, descrente de uma democracia que só serve ricos e poderosos. É uma ilusão que se paga cara, como se viu entre 1926 e 1974.

As cinzas de Pedrógão e de Oliveira do Hospital adubaram este terreno. Marcelo Rebelo de Sousa viu aí a sua oportunidade, apresentando-se como anjo da guarda do povo desvalido. Não só distribuiu abraços lacrimosos — fez-se porta-voz dos que “não têm voz”, numa versão adoçada dos apelos à “maioria silenciosa”.


O tabu

19 Julho 2017

O PCP e o BE, que tanto defendem um Portugal livre de tutelas exteriores, teriam no caso de Tancos, se não o tratassem como facto isolado, uma boa ocasião de mostrar como a subordinação militar à NATO e às aventuras militares do imperialismo prejudicam o país. Bastaria estender os exemplos à fraude nas messes da Força Aérea, ao roubo de armas da PSP, aos submarinos, aos blindados Pandur e por aí fora. Lembrando não só os gastos em missões externas ou material militar, mas também o foco de corrupção que tal subordinação origina.

Mas não. Jerónimo de Sousa culpou os governos que “reduziram ao osso a condição militar” praticando “cortes e mais cortes” que “colocam em causa a missão das Forças Armadas”. Catarina Martins ficou “perplexa” com “este falhanço em tarefas fundamentais do Estado”.


Liberdade a sério

3 Maio 2017

Tirando as manifestações populares, as comemorações do 25 de Abril são de há muito uma exibição das forças do poder. Discursos sobre os seus planos para o país, condecorações aos seus servidores ou aos seus personagens emblemáticos, às vezes ocasião para guerrilhas partidárias.

Mesmo as manifestações de rua se mostram cada vez mais saudosistas, sem real capacidade de intervenção política. Fala-se, claro, do que “ainda falta fazer” (Catarina Martins, BE) ou garante-se, num suplemento de ânimo, que o 25 de Abril “está carregado de futuro” (Jerónimo de Sousa, PCP). Mas a verdade é que tudo não passa de uma evocação momentânea, em que as massas, quando muito, soltam os seus gritos de alma, deixando depois “aos políticos” e ao Estado a tarefa de fazerem no resto do ano o que o povo está impedido de fazer: transformar a vida pelas sua próprias mãos, dar outro caminho ao país. E, no entanto, se houver memória, foi isto que aconteceu no breve ano e meio de Abril a Novembro.


Capital a salto

13 Março 2017

Do que já foi revelado sobre os 10 mil milhões de euros que saíram do país a salto, é possível perceber umas quantas coisas.
Uma, tratou-se de um encobrimento e não de um lapso. Duas, a decisão envolve o governo de cima a baixo. Três, o propósito foi esconder uma fuga programada e regular de capitais. Quatro, essa fuga atingiu em média mais de 4 mil milhões por ano entre 2010 e 2014 e saltou para 9 mil milhões em 2015, quando em 2009 ficara pelos 800 mil. Cinco, a concentração de riqueza que isto revela dá-se justamente nos anos mais duros da chamada “austeridade”. Seis, a “disciplina orçamental” destinava-se a produzir uma acumulação de capital em poucas mãos. Sete, para que o processo funcionasse, era preciso facilitar não só a acumulação mas também a fuga dos capitais para zonas seguras ou de mais rendimento. Oito, não convinha, pois, que se ficasse a saber que uma tal concentração de riqueza em poucas mãos era o directo reverso da penúria a que a maioria do povo foi forçado.


A prédica

8 Janeiro 2017

Bastou que o presidente da República, pelo Ano Novo, em oito minutos de generalidades, invocasse pela enésima vez uma “estratégia de crescimento económico sustentado” para o país “crescer muito mais” — bastou isso para que um coro de comentadores prestimosos visse aí a grande aposta para 2017 e a chave para tirar o país da fossa.

Nenhum deles se interessou em perguntar porque estamos estagnados há 20 anos; porque não crescem a Europa, os EUA ou o Japão; porque sofrem os “tigres” de ontem (da China a Angola) quebras tremendas dos seus PIB, com desemprego e pobreza a rodos. Ninguém quer encarar o facto de todo o sistema capitalista estar empanado, sem esperança de arrancar de novo — de ter chegado a um beco sem saída.


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