Não pode ser o capital a ditar como se organizam os sindicatos

Comentário ao artigo “De boas intenções…” (MV, 25 de Maio)

Francisco Raposo - Sexta-feira, 6 Junho, 2008

Concordo em absoluto com o artigo do José Mário Branco. Mas creio que há um aspecto da referida entrevista [feita pelo Público a Bruto da Costa] – que o artigo não aborda – que merece ainda um comentário.
A certa altura, Bruto da Costa despe a máscara de técnico e investigador – já agora, equiparado a ministro – para assumir a parcialidade necessária aos dias que correm. Diz ele que a CGTP não tem credibilidade porque integra na sua direcção dirigentes do PCP. Espanto e novidade? Claro que não.

Obviamente que o PCP domina hegemonicamente a CGTP e estranho, estranho era isto não acontecer. A esmagadora maioria dos dirigentes sindicais da CGTP está filiada nesse partido político. É um facto incontornável.
Mas que propõe Bruto da Costa para a credibilização da CGTP? A proibição de dirigentes de partidos integrarem a direcção da CGTP. Claro que a UGT é caso diferente: o presidente da UGT é do PSD, o secretário-geral é membro da Comissão Política e do Conselho Nacional do PS e, acima de tudo, a UGT assina de cruz a legislação antilaboral do Governo.
Bruto da Costa dá o seu contributo à ofensiva ideológica contra os sindicatos “irresponsáveis” (leia-se CGTP) para tentar promover os sindicatos “responsáveis e europeus”.

Estarei eu a dizer que a CGTP corresponde às necessidades dos trabalhadores actualmente? Longe disso, a sua linha de integração no sistema, a sua estreiteza de perspectivas na defesa da “economia nacional”, o burocratismo dominante, a falta de um programa de construção de um sindicalismo de classe, combativo e democrático, o seu medo de “perder o controle” que a empurra para a “moderação” e o “realismo”, são graves pechas, graves entraves à luta organizada dos trabalhadores.
Mas infelizmente, no movimento sindical não se vislumbram propostas e práticas de oposição articuladas que não sejam à direita. E nos sectores revolucionários ainda dominam as fugas para a frente e a recusa a uma intervenção organizada, “de formiguinha”, no seio dos sindicatos, que construa alternativa ao actual estado de coisas.

Mas creio que todo o revolucionário deve rejeitar a pressão ideológica para fazer aceitar que o Estado, que o capitalismo, determinem como os sindicatos se organizam. São os trabalhadores que têm de mudar as suas direcções, não o capitalismo, o seu Estado e os seus propagandistas.
Os partidos, esses devem intervir nos sindicatos com clareza e transparência: com propostas, indicação de militantes e aceitação do debate democrático sem excepções. Só com essa prática os trabalhadores poderão avaliar da justeza das propostas, ideias, métodos e organização que cada partido de trabalhadores apresenta para a resposta às necessidades e aspirações dos trabalhadores e das suas famílias.

Mas qualquer tentativa de desacreditar e destruir os sindicatos enfraquecerá inevitavelmente os trabalhadores, permitindo a ainda maior divisão e desorganização do movimento dos trabalhadores, e contentando assim patronato e burocratas sindicais.
Também nos sindicatos é necessário mudar de vida, trazer para a frente a luta contra o Capital, reintroduzir a luta por uma sociedade sem classes, a Democracia Socialista.






Um Comentário a “Não pode ser o capital a ditar como se organizam os sindicatos”

  1. Manuel Monteiro disse:

    Estou de acordo com o Xico Raposo nas considerações que faz sobre o movimento sindical.
    Já no que diz respeito à questão dos revolucionários, o seu programa e a sua organização, é que a coisa ficou um bocado vaga. O capitalismo está organizado, e, embora com contradições, ataca em conjunto. Os reformistas estão organizados – PC e BE – e controlam, mais o PC, em força o movimento sindical. E os revolucionários? Que programa apresentam aos trabalhadores que seja um programa de ruptura com o capitalismo? Que organização de modo que os trabalhadores mais conscientes se aproximem das nossas posições?
    O que se verifica é uma grande dispersão em pequeníssimos grupos, tão pequenos que quase ninguém sabe que existem.
    O que eu acho é que os revolucionários dispersos têm que se juntar, discutir tudo o que há a discutir, elaborar um programa minímo, ver que embrião de organização se pode estabelecer entre todos E APARECER AOS TRABALHADORES COM UM PROGRAMA ALTERNATIVO AO CAPITALISMO E AO REFORMISMO.
    Estou inserido no projecto MV para discutir com todos os camaradas revolucionários estas questões, procurando, com o sentido das realidades, dar alguns passos em frente.
    Vamos a isso?
    Manuel Monteiro

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