Mais um caso de violência no palco da ‘tradicional’ Queima das Fitas

MV / M.A.T.A. (Movimento Anti "Tradição Académica") - Quarta-feira, 21 Maio, 2008

No final da semana passada, os jornais relataram mais uma história chocante relacionada com a chamada Queima das Fitas, desta vez em Braga, onde uma rapariga foi violada. Sobre o caso, o Movimento Anti Tradição Académica (M.A.T.A) tomou posição num comunicado em que afirma “Uma violação é uma violação. Mas nós temos outras coisas a dizer também”. Publicamos de forma resumida as principais passagens do referido comunicado.

Uma aluna de primeiro ano – dita “caloira” na hierarquia das praxes – da Universidade do Minho foi violada por um colega – “cardeal”, na mesma hierarquia – durante a festa da Queima das Fitas.

É mais um caso de violência em contexto de “tradição académica”. Não o sendo, a própria aluna não diria “nunca desconfiei dele até porque ele é cardeal do curso e tem por dever proteger os caloiros”.

Este caso é diferente de outros do passado, porque a brutalidade de uma violação sexual choca e é condenável por qualquer pessoa, independentemente do contexto do acto. Também difere por não ter sucedido em grupo: foi uma decisão individual do “cardeal” (e não das “comissões de praxes”) e ocorreu fora do alcance das outras pessoas, e não em situação de “arrebanhamento” onde existem sempre pressões de grupo.

No entanto, tem semelhanças em vários pontos com outros casos tornados públicos e é por isto que não se pode desligar da relação que tem com a chamada “tradição académica”:
Primeiro, a confiança depositada num colega “superior” acaba por ser defraudada, deixando clara a arbitrariedade das hierarquias entre estudantes.
Segundo, a relutância da vítima em denunciar o sucedido (denúncia esta que, note-se, não foi feita em Braga) esconde o medo de voltar à escola onde o “cardeal” continuará a “proteger os seus caloiros”, e esconde também o receio de voltar a frequentar o curso e a escola, aos quais tem todo o direito.
Terceiro, a reacção da direcção da Escola, anunciando que “só abrirá um inquérito quando houver uma queixa formal da vítima”, mostra que se desresponsabiliza uma vez mais.
Quarto, os convívios escolhidos usam o álcool como argumento que justifica a violência quando, de facto, a origem dessa violência está no facto de esses convívios se basearem nas “tradicionais” hierarquias que conferem diferentes poderes às pessoas que assim “convivem”.
Finalmente, fica mais uma vez provado que na escola e nas suas “tradições”, tal como na sociedade, as mulheres são encaradas como “o elo mais fraco”, sendo por isso as principais vítimas das discriminações e abusos.

Recusamos o policiamento dos convívios entre estudantes como resposta. Pelo contrário, pensamos que a gravidade deste caso obriga a várias reflexões: por parte de quem acredita que a hierarquia é uma solução legítima para o convívio; por parte da direcção da Escola que tem a obrigação de garantir que esta aluna pode continuar a estudar; por parte da direcção da Escola, do Ministério do Ensino Superior e do Ministério Público, que têm a responsabilidade de não deixar este caso cair no esquecimento.

Não se pode admitir que uma pessoa tenha medo de denunciar uma agressão, nem tão pouco que essa denúncia traga ainda mais obstáculos à sua vida. Este medo e estes obstáculos são transversais a todos os casos conhecidos (e desconhecidos) e terão que acabar um dia.
E esse dia deve ser hoje.

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