A liquidação da Cerâmica da Portela, em Tomar

Como a “má gestão” pode ser um óptimo negócio

Urbano de Campos - Segunda-feira, 25 Fevereiro, 2008

O grupo Mendes Godinho vendeu a Cerâmica da Portela, em Tomar, em Julho de 2006 à Certomar-Cerâmicas por mais de um milhão de euros. Na altura, os novos patrões afirmaram-se dispostos a renovar a empresa e a dar-lhe outra projecção. Presentemente, a fábrica – que chegou a ter 98 trabalhadores em 2001 – está em vias de encerramento definitivo, tendo os 32 trabalhadores decidido (como referimos numa notícia breve) rescindir colectivamente os contratos depois de terem esperado, sem resultados, o pagamento dos salários atrasados desde Novembro. Deste modo, perdidas as esperanças de pagamento dos salários, os trabalhadores podem reclamar os subsídios de desemprego.

Ao todo, os patrões devem aos trabalhadores 140 mil euros. Os salários, de 450 euros mensais, estavam congelados há três anos. Situações de fome efectiva foram vividas pelos operários desde que os pagamentos cessaram. Além de todas as demais dificuldades: na impossibilidade de pagarem as rendas de casa, por exemplo, muitos trabalhadores receavam ser despejados. O recurso às entidades locais mostrou-se igualmente sem frutos: nem a Câmara Municipal de Tomar, nem a Segurança Social, nem as instituições de solidariedade (como a Caritas, a que alguns operários recorreram) valeram aos trabalhadores.

Durante meses, os novos patrões brincaram positivamente com os trabalhadores fazendo-lhes promessas que não cumpriam mas que os iam mantendo a trabalhar e agarrados à empresa. Dividiram-nos e evitaram assim uma resistência unida, chegando por vezes a oferecer notas de 20 euros aos trabalhadores que se lhes iam queixar individualmente.

A partir de certa altura, os patrões deixaram de pagar a fornecedores. A energia foi cortada e começou a faltar matéria-prima. A laboração sofreu paralisações. Inclusive, cheques sem cobertura foram passados para “pagar” as quotizações sindicais.

O sindicato do sector da cerâmica que tem acompanhado este processo acusou os responsáveis da fábrica de “má gestão”, argumentando que toda a produção tem sido vendida e apontando a existência de encomendas como prova de que a actividade da empresa é viável. No entanto, há sinais de que pode estar em curso uma operação deliberada de liquidação da empresa, que poderia estar já no fito dos novos proprietários quando a adquiriram à Mendes Godinho. A venda recente de uma parte dos terrenos da fábrica, sem que quaisquer aplicações fossem feitas na empresa – e, menos ainda, pagos os salários atrasados – indicia que os patrões tencionam safar o capital que empataram na compra da empresa e usá-lo para outros fins.

A “má gestão” da empresa terá sido, neste caso, uma boa gestão por parte dos patrões dos seus capitais – seja qual for a aplicação que deles vierem a fazer. O que permite ver como a dinâmica do capital, na sua busca incessante de rentabilidade, deita mão a todos os processos, dentro ou à margem da lei. Dívidas e humilhações aos trabalhadores, cheques carecas, falências sem motivo económico, são procedimentos correntes cujas consequências recaem sempre sobre os assalariados.






Um Comentário a “Como a “má gestão” pode ser um óptimo negócio”

  1. Alice Marques disse:

    Falta acrescentar no relato apresentado, uma questão importante : a Comissão de Trabalhadores de Fábricas mendes Godinho, questionou diversas vezes a Administração sobre este duvidoso negócio, tendo em conta os prejuízos sérios que traria aos trabalhadores afectos à actividade de Cerãmica, pois seriam “absorvidos” pela nova empresa, sem serem indemnizados por FMG, ou garantidos os seus direitos`de antiguidade. A maioria preferia ter recebido a indemnização, e correr o risco de ser ou não absorvido pela nova empresa, mas foi-lhe recusada essa possibilidade, pois o contrato de transmissão incluía todos os trabalhadores afectos ao quadro de pessoal! Já na altura , alguns de nós pensámos que o que se estaria a preparar não seria mais do que uma armadilha…
    No entanto, os trabalhadores acreditaram na palavra da Administradora Ana Paula Ribeiro, porque representava a PARPÚBLICA , empresa ligada ao ESTADO, e portanto, esta seria uma entidade séria, que não se prestaria a desenvencilhar-se assim dos trabalhadores a quem devia responsabilidades!!!!
    Infelizmente não foi assim. A Parpública, empresa accionista das Fábricas Mendes Godinho, desprezou a sua responsabilidade para com os trabalhadores, apenas com o objectivo de reduzir e evitar custos com a liquidação da empresa, transferiu-os fazendo com eles um negócio , que pode ser legal mas é IMORAL, com a agravante de ser a PARPUBLICA , a empresa Estatal, a promovê-lo!!!

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