Barack Obama

Continuidade política debaixo de uma retórica de “mudança”

Rita Moura - Domingo, 24 Fevereiro, 2008

obama.jpgO entusiasmo com o pré-candidato à presidência norte-americana Barack Obama parece transcender fronteiras, geográficas e políticas. Nos EUA, eleitores jovens e independentes mobilizam-se para ir às urnas, um fenómeno novo num país onde 6 em cada 10 jovens não vota. Até alguns republicanos sussurram o seu contentamento com Obama. Em Portugal, desde Daniel Oliveira a Marcelo Rebelo de Sousa, o namoro com Obama é público e assumido. As suas palavras de “mudança” e “esperança” são agradáveis aos ouvidos. Mas quando nos dispomos a procurar as políticas mais substantivas e concretas, o discurso revela-se oco e a intenção preocupante.

Na política internacional, há muito que democratas e republicanos não se distinguem. Obama também não. Apoiou a invasão, bombardeamento e ocupação do Afeganistão e tem sistematicamente defendido o financiamento e envio de mais tropas para a região. Foi também apoiante do ataque ao Líbano e protege a política de apartheid de Israel tão firmemente como Hillary Clinton ou qualquer republicano. Diz bem alto que votou todas as leis contra a guerra do Iraque, mas enquanto senador apoiou o investimento de quase 300 mil milhões de dólares na guerra. Quanto ao Paquistão, já declarou estar disposto a bombardear o país para chegar aos Talibãs, numa “guerra que os EUA precisam de vencer”.

No plano nacional, duas questões são tema da campanha: os direitos dos imigrantes e a construção de um serviço de saúde de acesso universal. Barack Obama não defende nenhum dos dois. No que se refere à imigração, Obama juntou-se a tantos outros senadores democratas para financiar a edificação do muro de 1600 km de extensão ao longo da fronteira com o México. Quanto ao serviço de saúde pelo qual tanta gente desesperadamente espera, Barack Obama propõe-se negociar com as seguradoras “preços mais justos”. O poder de decidir quem recebe ou não tratamento, quem vive ou morre, continuará portanto nas mãos dos seguros privados. Mais, só contribuirá com impostos para o serviço de saúde quem quer. A porta para que os ricos se retirem do pagamento está escancarada.

A ideia de que um negro pode dar outra “cor” à Casa Branca tornou-se um dos motivos de atracção da campanha de Obama. Mas a realidade política que se esconde debaixo da sua retórica de “mudança” garante que, caso venha a ser eleito, o essencial ficará na mesma.






3 Comentários a “Continuidade política debaixo de uma retórica de “mudança””

  1. Henrique Melo disse:

    I have a dream…

    Onde é que já ouvi isto?

  2. Daniel Oliveira disse:

    Escreve-se no “Mudar de Vida”, um interessante projecto informativo de esquerda: «Em Portugal, desde Daniel Oliveira a Marcelo Rebelo de Sousa, o namoro com Obama é público e assumido. As suas palavras de “mudança” e “esperança” são agradáveis aos ouvidos. Mas quando nos dispomos a procurar as políticas mais substantivas e concretas, o discurso revela-se oco e a intenção preocupante.»
    O exercício que vem depois é trivial: escolhem-se todas as posições em que se discorda de Obama para mostrar que entre Obama e o que temos a diferença não existe. Escolhe-se o Afeganistão para se esquecer o Iraque. Escolhe-se o voto de Obama quanto ao financiamento da guerra para esquecer a sua permanente oposição à guerra, quando entre democratas e republicanos se ouviam os urros de combate. Descobre-se que o Obama é contra um serviço de saúde universal esquecendo-se o ponto em que está o debate nos EUA e o salto político que esta campanha já significou nessa matéria. A conclusão quase inevitável do pequeno artigo está no título: «Barack Obama: Continuidade política debaixo de uma retórica de “mudança”». Ou seja, entre Obama e Bush a diferença é quase nula. No fundamental, vai tudo dar ao mesmo.
    De facto, se não contar com as circunstâncias encontro sempre uma razão para não estar em lado algum. Nos EUA, em Portugal ou em qualquer ponto do planeta. Não defendo o voto útil. Mas sei que é inútil ficar de fora quando não há mais lado nenhum para ir. E nos EUA não há. Quando houve, quando Ralph Nader conseguiu a força política que depois desbaratou, foi por ele que estive. Até dei dinheiro ao gajo! Só que o desespero e frustração são hoje muito maiores e Nader não chega para tanto. Esse voto está a ir para Obama mesmo que Obama queira outra coisa. Claro que se alguém espera que os americanos votem num candidato que queira reduzir o poder dos EUA no Mundo está olhar para o povo e para o país errado. Isso caberá a outros povos, a outros eleitores de outros países.
    As escolhas, por serem escolhas, são sempre um mal menor nas circunstâncias em que se fazem. Não se apoia o mal menor quando ele significa um recuo ou uma desistência. Quando isso significa baixar a fasquia quando ela pode ficar onde está ou até subir um pouco. É por isso que não acho que Sócrates seja uma alternativa ao que tivemos com Durão Barroso. De facto, por mais que nos esforcemos, será difícil encontrar alguma diferença programática. Mas pode dizer-se o mesmo em relação a Obama quando comparado com Bush? Querer que Obama vença é baixar a fasquia da exigência? É baixar a fasquia em relação a Bush filho? Em relação a Bill Clinton? Em relação a Bush pai? Em relação a Carter? Em relação a Reagan? Dizer que Obama é a continuidade do que temos é fazer uma grave confissão: tudo o que se disse sobre George W. Bush não era mais do que propaganda. Ele afinal não era pior do que os outros.
    O jovem blogger Matthew Yglesias faz este exercício irónico, comparando a candidatura de Obama à de McCain (paralelos com Bush só mesmo o “Mudar de Vida” se atreve): «Afinal de contas não há um milésimo de diferença entre um candidato que promete cortes de impostos, passar os riscos de saúde para os indivíduos, uma revigoração da campanha bushista para dominar o Mundo através da força militar, uma abordagem pró-indústria aos temas ambientais e, do outro lado, um rival que promete uma socialização substancial dos riscos de saúde, uma diminuição em 80% nas emissões de dióxido de carbono e o fim da Guerra do Iraque (e do quadro de pensamento que levou a essa guerra!), ensino pré-escolar universal, etc. Claro, há também aquelas nomeações judiais – aborto, direitos gay, etc – e algumas miudezas sobre se a Agência Nacional de Segurança pode ou não ter poderes de espionagem irrestritos. Mas basicamente não passam dos mesmos dois clones das grandes empresas concorrendo com programas virtualmente idênticos.»
    Ver o copo meio vazio ou meio cheio são duas opções possíveis e nenhuma delas condenável. No “Mudar de Vida” dão algumas boas razões para ser cuidadoso em relação a Obama. Não ignoro nenhuma delas. Mas ao não reconhecer nenhuma mudança no debate, nenhuma evolução no confronto político nos EUA e nenhuma diferença substancial nos programas (com omissões escandalosas), não se está apenas a ver o copo meio vazio: está-se a jurar, como se tornou hábito em alguma esquerda, que o copo nunca vai encher. Nem uma gota. Até um dia longínquo que ninguém consegue imaginar, está sempre tudo na mesma e na mesma tudo ficará.
    E o que mais me perturba é o tratamento que é dado à “esperança”: nada mais do que uma palavra agradável aos ouvidos. Nesta campanha “esperança” não é apenas uma palavra. Ela pode ser fundada ou infundada, mas é absolutamente real. Palpável, mesmo. Entre muitos americanos esta esperança é a maior que sentiram nas suas vidas políticas. E é de uma enorme cegueira passar sobre este facto com tanta ligeireza. É verdade que as coisas não mudam só porque as pessoas acreditam que vão mudar. Mas se as pessoas nunca acreditarem elas nunca mudarão. O primeiro passo para que exijam mudanças é terem esperança. Mesmo que os protagonistas lhes prometam mais do que vão dar. Neste ponto, há pouca diferença entre os deprimidos crónicos da esquerda e um Vasco Pulido Valente: ambos acham que está sempre tudo na mesma e nada de novo está realmente a acontecer.
    Se de cada vez que uma coisa muda a única coisa que tivermos para dizer às pessoas é que tudo acabará inevitavelmente na mesma e que só quando tudo for como queremos é que alguma coisa de relevante está a acontecer não estaremos a dar razões de luta às pessoas. Estaremos a dar-lhes razões de desistência. E este é o pecado da esquerda: esqueceu-se do enorme poder político da esperança. Porquê? Porque ela própria a perdeu. O outro pecado é mais grave e incomoda-me mais: há alguma esquerda que não acredita no poder transformador do voto. Mas esse é outro debate. Limito-me, quanto a isto, a ser cauteloso: nunca lhes dou o meu. Temo que não mo devolvam ou que o tratem como se não fosse importante.

  3. Rita Moura disse:

    Caro Daniel,

    Não temos que nos contentar com pequenas diferenças, senão deixamos de saber notar as grandes ou de lutar por elas.

    O meu alerta é contra a ilusão espalhada (inclusive por ti) de que Obama é um pacifista ou que vai defender os excluídos do sonho americano. Ninguém disse que Obama é igual a Bush! Mas veja-se o caso da guerra. O que eu gostava de perguntar ao Obama é: Porque é que a guerra no Afeganistão (ou no Irão, ou no Paquistão) é a “guerra certa”? As diferentes nuances ou ênfases que cada candidato dá não chegam. E a experiência mostra que as diferenças são maiores em campanha eleitoral que no exercício do cargo.

    Finalmente, a “esperança”, que na tua óptica certa esquerda mata. Eu não perdi esperança nenhuma, tanto que continuo o meu combate político. Mas uma diferença entre nós é que eu não espero nada da parte do poder ou dos que estão à beira de o alcançar. Não temos que apoiar um candidato em todas e em cada eleição. Às vezes temos que estar de fora.

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