Chamem-lhe austeridade ou não

Manuel Raposo - Terça-feira, 12 Maio, 2020

Em duas entrevistas dadas à televisão e à rádio, o ministro da Finanças fez questão de vincar repetidamente que a crise económica em que o país e o mundo caíram é um produto da pandemia e não da própria lógica económica. Disse mesmo que, no seu entender, a curva da economia acompanhará a curva da pandemia, isto é, recuperará em paralelo com a retoma das condições de saúde.
Neste discurso, a crise actual passa por ser um mero hiato (“que ninguém previa” e para o qual “ninguém estava preparado”) no fluxo normal dos negócios — e que, mais logo, tudo retomará o andamento a partir do ponto em que se estava, mais coisa menos coisa.

Como Mário Centeno não é ingénuo, estas afirmações só podem ser uma cortina de fumo para ocultar a dura realidade que se está a viver e que se vai viver nos próximos anos — criando uma miragem de esperança numa recuperação e numa normalização que nada aponta vir a acontecer.

O que Centeno mistifica é o seguinte. Por um lado, a crise sanitária foi apenas o detonador de uma crise financeira já anunciada. Com efeito, a generalidade dos analistas previa que, mais tarde ou mais cedo, ela viria sem dúvida, que a sua magnitude seria muito maior que a de 2008, e que as suas implicações económicas seriam devastadoras.

Os observadores mais rigorosos e, sobretudo, os economistas marxistas, mostraram que a raiz dessa nova crise estava no facto de as respostas dadas à crise anterior não terem solucionado nada do que esteve na sua origem — ou seja, a estagnação da acumulação do capital, fruto, nomeadamente, da quebra das taxas de lucro. E assim será de novo.

A pandemia, portanto, apenas veio fazer com que o surgimento desta nova crise ocorresse de chofre e por uma via inesperada, mas o terreno estava já devidamente adubado pela própria lógica do crescimento capitalista.

Por outro lado, Centeno silencia o facto previsível (e em parte já presente) de que uma massa enorme de forças produtivas será entretanto liquidada — postos de trabalho, empresas, capitais — e que, com isso, a retoma que o patronato almeja decorrerá num quadro de devastação ainda incalculável. É isso que as previsões das instâncias capitalistas internacionais (FMI, BCE, OCDE) apontam, sempre com valores colossais de recessão e de desemprego. (1)

Isso mesmo, aliás, fica patente nas previsões, que o próprio Centeno avançou, acerca da prometida ”recuperação”: uma coisa para durar anos. O ponto de partida da retoma, se a houver, será pois muito diferente da situação de Janeiro ou Fevereiro.

O optimismo de Centeno tem o condão de passar ao lado de uma outra coisa essencial: a crise social decorrente da crise económica. Os dados já conhecidos são avassaladores: desemprego galopante, cortes salariais, miséria absoluta de milhares de famílias (de que as filas para obter alimentos são uma pálida amostra). Ora, grande parte destas situações não será revertida. O que significa que haverá uma degradação acentuada, e generalizada, das condições sociais da população trabalhadora e uma massa maior de pobres.

Centeno, e com ele o Governo, respondem a isto dizendo “esperem um pouco que a normalidade virá de novo” — no fundo, uma fórmula adoçada do “aguentem, aguentem” do despudorado banqueiro Ulrich. (2)

Com a bandeira da tímida recuperação de rendimentos conseguida no governo anterior, Costa e Centeno acenam agora com garantias frouxas de que não haverá “austeridade”. Poderão não adoptar a postura canalha de Passos Coelho e Portas, mas a pergunta chave volta a ser: quem vai pagar os custos de mais esta crise?

Se a ordem “natural” das coisas persistir — isto é, se o patronato continuar a impor medidas penalizadoras ao trabalho, se os sindicatos se mostrarem dóceis, se os trabalhadores e os pobres não se revoltarem contra as injustiças que estão já à vista — se assim for, então quem vive do salário vai sofrer de forma ainda mais agravada aquilo que nos anos da troika todos testemunhámos. Chamem-lhe austeridade ou não.

Mas a população trabalhadora não está forçosamente num beco sem saída. Hoje, como ontem, a questão resume-se nestes termos:

Os trabalhadores não podem alimentar a esperança de inverter o rumo de penúria para que são empurrados sem tocar nos interesses do capital.

Perante o retrocesso a que a crise económica conduz toda a vida social, a luta de massas, para dar frutos, tem de atacar as bases do regime. É o sistema de exploração que tem de ser posto em causa – não há ganhos para ambos os lados entre capital e trabalho.

É preciso romper o bloqueio que tem limitado o movimento popular: a sua sujeição voluntária à ordem capitalista.

É preciso renovar nos trabalhadores a convicção de que só pela sua intervenção as condições da sua vida poderão mudar.

———

(1) Previsões do FMI: recessão de 7,5% e desemprego de 10,7% na zona euro; recessão de 8% e desemprego de 13,9% em Portugal; recessão mundial de 3%.
Previsões do BCE: recessão entre 5% e 12% na zona euro.
A OIT previa, em Março, mais 25 milhões de desempregados no mundo até final do ano (a somar aos 188 milhões calculados em 2019) e uma perda de rendimentos dos trabalhadores de 3,4 biliões de dólares. Porém, só nos EUA, em Abril, foram perdidos mais de 20 milhões de empregos. Ainda a OIT calculou, em Abril, que o número de horas de trabalho perdidas, em todo o mundo, no segundo trimestre do ano equivaleu a 195 milhões de trabalhadores a tempo inteiro.

(2) “Portugal aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta!”. Fernando Ulrich, então presidente do BPI, numa conferência, em Outubro 2012, que discutia o Orçamento do Estado para 2013.






5 Comentários a “Chamem-lhe austeridade ou não”

  1. afonsomanuelgoncalves disse:

    Vira o disco e toca o mesmo, repete-se sem fim o refrão que as forças à esqurrda das organizações oficiais de esquerda sejam partidos ou sindicatos não podem dizer para não beliscar a paz pôdre do sistema e além disso não percam os seus “direitos” adquiridos, isto é; mordomias, privilégios, prebendas etc. Ora é sabido que um apelo em abstracto à revolta corresponde a assobiar para o lado dado que as forças da ordem por um lado sem grande repressão resolvem o problema e além disso os trabalhadores ficam apenas com o direito de se apropriarem das ruas e torná-las sua propriedade. sem mais garantias nem triunfos, O beco sem saída em que estão metidos os trabalhadores dispensa este género de recomendações e no entanto também ficam sem caminho para avançar.

  2. mraposo disse:

    Ficamos a aguardar as propostas (em concreto) de Afonso Gonçalves.
    Manuel Raposo

  3. afonsomanuelgoncalves disse:

    Manuel Raposo, infelizmente não tenho propostas concretas a transmitir ao MV, embora me lembre que por duas vezes depois de verifica que no Parlamento quando o PS votava com o PSD e o CDS legislação contrária aos interesses dos trabalhadores, o PCP e o BE “naturalmente”votava contra. O espírito de conciliação assim o exigia. Mas quando se tratou de fazer aprovar a lei “anti”-laboral e
    do SNS e dos rentistas sugeri a apresentação de uma moção de censura ao governo. Aqui a hipocrisia do PCP não conseguiu disfarçar-se com o seu protesto veemente e, claro, votar contra. Quanto a mim julgo que me cabe o direito de comentar o que quer que seja sem estar obrigado a fazer o que não pretendo.. abraço.

  4. leonel clérigo disse:

    O “CONCRETO”

    Li com a atenção o comentário de Afonso Gonçalves e o “desafio” de Manuel Raposo (MR).
    Para tentar “ultrapassar” a questão julgo poder aproveitar o “concreto” de que fala MR para começarmos a debruçar sobre o “QUE FAZER” a este País e onde os seus habitantes – e governantes – parecem não ter ideia alguma de jeito de como resolver os seus problemas graves que hoje já despontam às claras.
    Assim, será que temos “estaleca” para lançarmos mão da ECONOMIA POLÍTICA e vislumbrar um rumo para sairmos do BURACO ancestral onde estamos metidos e onde até os “RONALDOS” da Economia parecem não ver um palmo à frente do nariz?
    Antigamente, os MARXISTAS falavam em RUMO e em FUTURO. E hoje? Perderam o pio? Será assim tão difícil estabelecer uma “Estratégia de Desenvolvimento” – e seu correspondente Projecto Político – que nos empurre para esse FUTURO?
    Talvez não seja mau começar a ter presente um trecho do FADO do Frederico de Brito:
    “Quem não quer viver de sonhos
    Não se deixe adormecer”…

  5. jml disse:

    “É preciso romper o bloqueio que tem limitado o movimento popular: a sua sujeição voluntária à ordem capitalista.”

    É verdade, concordo com isso (como aliás com a totalidade do texto) mas o rompimento de tal bloqueio, nunca se fará (não quer dizer que não haja protesto ou até mesmo motins) sem que para isso exista uma força organizada e a oriente nesse sentido.

    Assim proponha e deixava ao cuidado do MR ou do MVida a possibilidade de convocação de um encontro, onde se poderia discutir a situação actual e como intervir.

    Abraço
    ZM

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