A Europa, falecida de coronavírus

António Louçã - Sábado, 11 Abril, 2020

O body count de vítimas do novo coronavírus ainda vai longe do fim, mas entre as mais proeminentes destaca-se a União Europeia. A certidão de óbito, sem se assumir ainda como tal, foi emitida pela reunião do Eurogrupo de 9 de Abril, ao aprovar o pacote de medidas para responder à pandemia. Com isso, disseram os ministros da Finanças europeus, pretendiam lançar uma boia de salvação aos países que se debatem para não ir ao fundo. Se era uma boia, era de chumbo. Quem levar com ela, mais depressa se afoga.

O plano é tão transparente que nem pôde ofuscar os papalvos acenando com meio bilião de euros. Sim, é muito dinheiro, mas não para a tal espécie de Plano Marshall, que aqui só seria possível com Eurobonds. Em vez de mutualizarem a dívida, os ministros europeus fazem dela uma grande oportunidade de negócio. Muito dinheiro investido na desgraça alheia deve render depois juros astronómicos. Os banqueiros esfregam as mãos de contentes: os ministros fizeram o seu papel e vem aí uma nova crise de dívidas soberanas.

Mas a ganância tolda aos banqueiros e seus ministros a visão para tudo o que vá um pouco além do tal palmo à frente do nariz onde lhes cheira a lucros chorudos. Esta crise de dívidas soberanas não vai ser como a anterior. Agora não vão ser só a Grécia e Portugal — certamente sacrificados mais uma vez — a pagar as extravagâncias dos países do Norte. No pelourinho estão também médias potências europeias como Itália e Espanha. E, mesmo se “a França é a França”, como dizia o inefável Juncker, não é líquido que desta vez Macron possa sair deste mau passo tão incólume como Hollande saiu do anterior.

Dir-se-á que era de esperar e que mais uma vez se prova aqui que a burguesia se tornou incapaz de repetir as grandes façanhas que em tempos cometeu na História universal. Se no século XVIII ela foi capaz de unificar num só país boa parte do continente norte-americano, se no século XIX conseguiu ainda unificar num só país a Kleinstätterei alemã, se no século XX teve ainda veleidades federalistas para toda a Europa, ela deve neste novo século assumir a sua senilidade e absoluta impotência perante tarefas históricas desta dimensão.

E a gravidade dos males da decadência varia na razão inversa das poderosas tradições comuns que deviam servir de cimento à unidade europeia. Nem assim uma classe decrépita consegue fazer o mesmo que a vigorosa burguesia dos founding fathers americanos fez num continente ignoto e selvagem.

Mas colocar todo o fracasso na conta de um declínio da burguesia e da sua crescente incapacidade para executar planos ambiciosos pode ser demasiado simplista. A incapacidade começou a manifestar-se logo na fase de concepção do plano.

Esta Europa que agora falece de coronavírus não era filha natural de uma poderosa tradição comum e sim o bebé proveta de uma ganância sem limites. Uma das coisas que este velho continente tinha em comum era ser o berço de potências imperiais que durante séculos disputaram o mundo umas às outras. Na perspectiva de longo prazo, a herança comum tinha de tornar-se um factor de discórdia e não de convergência.

Na breve euforia do pós-guerra, quando havia um mundo inteiro a reconstruir e era preciso dar valor às actividades produtivas, o europeísmo floresceu como comunidade do carvão e do aço e depois como mercado comum. Todos queriam vender o que produziam a toda a gente. Mas hoje, na época da financiarização, dos fundos-abutres, do salve-se quem puder na bolsa de valores, era inevitável que viesse ao de cima o ADN fratricida da Europa.

Em Bruxelas, os ministros comissários das multinacionais e da alta finança são incapazes de olhar para a pandemia como uma catástrofe humanitária: encaram-na como uma oportunidade de negócio. Querem vender dinheiro, e vendê-lo caro. Quem o comprar agora, vai pagá-lo mais tarde com língua de palmo.

O Governo de António Costa protestou debilmente contra o papel do seu ministro Mário Centeno nesta missa de defuntos pela União Europeia. Mas dele nada podemos esperar. Tudo o que anunciou de medidas “sociais” foi a moratória para o pagamento de alugueres ou para o corte de água e luz a quem perca o emprego. Depois da crise, será preciso pagar uma dívida acumulada. É a lei do galinheiro: tal como os países do sul da Europa terão de pagar com juros aos seus salvadores de Bruxelas, também os trabalhadores despedidos terão de pagar aos credores que entretanto passaram a poder hipotecar-lhes os futuros salários. António Costa, que protesta mas tenciona pagar, já se prepara para fazer-nos pagar a nós a factura de Bruxelas.

Na verdade, esta Europa mal concebida e mal parida é uma construção artificial e contra-natura. Os países do sul, eternos sacrificados de todas as crises de dívidas soberanas, têm cada vez mais em comum com os vizinhos da orla mediterrânica do que com a matilha de Bruxelas. Desembaraçados dos Governos que agora fazem patrulhar o mare nostrum à caça de imigrantes e refugiados, com governos representativos do interesse da população trabalhadora, os países do sul rapidamente encontrariam muito mais em comum com essas outras geografias e tradições do que com os agiotas do Eurogrupo.






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