25, o deles e o nosso

Manuel Raposo - Segunda-feira, 25 Novembro, 2019

Sobre o 25 de Novembro, 44 anos depois, está tudo dito e (quase) tudo provado. Foi um golpe militar conduzido pela ala direitista do MFA, teve o apoio das secretas e dos governos europeus e norte-americano, Mário Soares foi o seu testa de ferro, pôs fim ao movimento popular mais radical da história portuguesa recente, criou condições para a reconstituição do grande capital, destruiu as organizações populares e fez retroceder as conquistas de 19 meses de acção directa de um povo farto de mordaças — festiva, solidária, empenhada, como todas as movimentações que constroem coisas novas.

Uma democracia cinzenta, engravatada, dita representativa, moderna, europeia, tomou o lugar do que fora um simples, tímido, esboço de democracia popular. Não foi preciso esperar 44 anos para ver os frutos: primazia absoluta aos negócios, corrupção, fortunas fulgurantes, diferenças colossais entre riqueza e pobreza, degradação dos serviços sociais, afastamento da massa do povo de qualquer decisão política (depois queixam-se da abstenção…), os pobres de novo empurrados para baixo. Eis o monopólio político da burguesia.

Mas a direita quer ir mais longe: tirar o golpe da sombra envergonhada em que o tem mantido e comemorar o 25 de Novembro com as mesmas honras do 25 de Abril. Foi este o sentido do voto que o CDS levou à Assembleia da República e que mereceu a aprovação de toda a direita (CDS, PSD, Iniciativa Liberal, Chega e sete deputados do PS sem complexos).

Há contudo uma contradição que o voto do CDS ainda não resolve. Se o 25 de Novembro representa, como diz a direita e disse Mário Soares, a “normalização democrática”, então Abril não pode estar para a direita no mesmo pé de Novembro. Abril foi a abertura da caixa de Pandora que a burguesia sempre temeu e que só conseguiu fechar em Novembro. Portanto: Abril, nunca mais! Foi o que a Iniciativa Liberal significou ao clamar “25 de Novembro, sempre!”.

Sejam então coerentes: comemorem, todos juntinhos, o vosso 25. Ficará a esquerda mais livre de confusões no que respeita ao nosso 25 — democrático porque popular, progressista porque anticapitalista.






Um Comentário a “25, o deles e o nosso”

  1. Carlos Ramos disse:

    Uma sugestão:a possibilidade de partilhar no facebook dava jeito.
    Cumprimentos,
    Carlos Ramos

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