O Brexit, para além do circo

Manuel Raposo - Quarta-feira, 23 Outubro, 2019

O circo em que se transformou o Brexit é certamente fruto, também, dos conflitos partidários no Reino Unido, das disputas de poder entre Reino Unido e União Europeia e ainda da pressão exercida a partir de fora pelos EUA para romper e enfraquecer a UE. Mas ficar por aí seria ver só a superfície do assunto e trocar as causas com as consequências.

Existe uma real dificuldade em fazer o divórcio entre RU e UE sem grandes perdas para ambos os lados. Porquê? Porque o capital europeu fundiu-se de tal modo nos últimos 50-60 anos que separar a economia do RU da do resto da UE implica provocar rombos enormes no funcionamento dos negócios do conjunto do capital europeu. A “globalização” na Europa deu-se efectivamente, e fazê-la recuar é uma tarefa impossível. É este o nó do problema que tem bloqueado o Brexit.

O grande capital do RU não quer o Brexit, e qualquer outro grande capital internacional instalado no RU também não — por isso, boa parte deles tratam já de se retirar da ilha diante da perspectiva de ruptura. A maioria da grande burguesia do RU, portanto, não quer o Brexit por razões óbvias. É daqui que nasce a resistência da Câmara dos Comuns, chamada a pronunciar-se sobre os acordos de saída. E, pelas declarações feitas logo após o referendo de 2016, ainda é mais clara a oposição na Câmara dos Lordes, onde se senta a nata da aristocracia-burguesia dominante.

O Brexit, na verdade, expressa a ilusão, a utopia, da pequena burguesia e de boa parte dos trabalhadores ingleses empobrecidos, que pensam poder livrar-se da dominação estranguladora do capital internacionalizado e viver em paz com “o seu” capital nacional — na miragem de o poderem domesticar, em sentido próprio e figurado.

Não é pois a maldade da Alemanha ou da França, nem a teimosia do parlamento britânico, que complicam o acordo do Brexit, é a própria lógica de autodefesa de um capital europeizado, fusionado, sem fronteiras, que exige largos espaços de manobra e regras supranacionais comuns — por cima e à custa de interesses nacionais definitivamente ultrapassados. A lógica, enfim, do imperialismo europeu que, quanto mais unificado estiver, mais forte se sentirá para competir com as demais potências imperialistas.

Esta realidade coloca novos desafios à esquerda revolucionária e à revolução socialista na Europa. Desafios que o separatismo do Brexit apenas envolve em nevoeiro. Os trabalhadores europeus têm de enfrentar hoje um capital e uma burguesia de dimensão europeia, com meios de acção europeus, unidos numa frente comum contra o trabalho. Consequentemente, a luta de classes, com todas as suas tonalidades nacionais, trava-se hoje — no que é essencial, o derrube do capitalismo — à escala europeia.

O atraso das ligações internacionais entre a massa trabalhadora (europeia e mundial) impede-a de fazer frente ao desafio. E é responsável pelas derivas nacionalistas e fascistas em que boa parte dos proletários embarcam — porque não vêem outra via, porque não se sentem com força própria para enfrentar um capital unificado que faz corpo comum contra eles.

A simpatia que algumas forças da esquerda mostram para com o Brexit (entre nós o PCP, por exemplo) padece da mesma ilusão que levou os eleitores ingleses a querer abandonar a UE: a crença ingénua, repete-se, de que assim podiam ver-se livres dos malefícios do capital internacionalizado e passar a lidar com “o seu” capital e “a sua” burguesia. Uma ilusão que vai sair cara aos britânicos, pela quebra acentuada de nível de vida que se anuncia e pela maior dependência face aos EUA que se adivinha. Cara também, no plano político, para o conjunto dos trabalhadores europeus que acreditem nas virtudes de um regresso ao passado como pretende ser o Brexit.






Um Comentário a “O Brexit, para além do circo”

  1. leonel clérigo disse:

    CONTRADIÇÕES: “VELHAS ANÁLISES” e “NOVOS DESAFIOS”

    Este texto de MR merece uma boa e profunda “discussão”. E, sem ela, dificilmente poderemos dar passos em frente e chegar a “bom porto”, coisa necessária nos tempos de “confusão” em que vivemos e convém à dominação do burguês capitalista.
    Geralmente um texto tem, se assim se pode dizer, um “ponto chave” que “arrasta” todos os outros. E o texto acima de MR, julgo, não foge a esta regra. Por isso e para podermos escapar ao eterno “vira o disco e toca o mesmo”, há que apanhar o “boi pelos cornos” – a velha “pega de caras”, salvo seja – sem a qual não se avança, sequer, um palmo.

    1 – É costumo dizer-se que “sem unidade de pensamento não há unidade de acção”. E para haver essa “unidade de pensamento” é necessário que “diferentes interesses” – de grupos sociais e de classes – se possam agregar em torno de um “programa mínimo” suportado por uma “análise concreta da situação concreta”, base de um “programa”, uma “estratégia” e uma “táctica”.
    Não dou notícia destas “existências” nos dias de hoje: a “desafinação” é grande e, com alguma certeza, cada um está “tocando como sabe” e julgando desnecessária toda e qualquer “orquestra”. Se não estou enganado, é o que acontece entre o texto de MR e o meu “comentário”. Vamos então ver o que se pode arranjar e se sai daqui alguma coisa da “desafinação”.

    2 – O “ponto central” de MR parece levantar as seguintes questões: as condições “objectivas”, “materiais”, permitem hoje que a “TOTALIDADE” dos trabalhadores do UE possam vir a ter UNIDADE na ACÇÃO? Ou seja: as “condições de vida material” de “toda” a classe trabalhadora europeia são assim tão “HOMOGÉNEAS” ao ponto de lhes permitir “PENSAR DE IGUAL FORMA” (como era, no séc. XIX, o caso dos trabalhadores fabris em Inglaterra e nas outras zonas fabris europeias)? Ou ainda e dito de outra maneira: face ao “desenvolvimento desigual” da Europa do Norte e do Sul, “um programa mínimo” do Sul “satisfaz” a classe trabalhadora do Norte? E o contrário: o “programa da classe trabalhadora do Norte” – que imagino ser “aceite” pelos trabalhadores do Sul… – será do “agrado” e “consentimento” do Capital Europeu do Norte já sem falar do patronato “terceiro mundista” do Sul?

    3 – Se, cabalmente, me mostrarem a possibilidade – nos dias que correm – de UNIDADE na ACÇÃO de toda a “classe trabalhadora europeia” – apesar das diferentes “condições materiais” -, contem comigo para ir em “peregrinação” à nossa Srª da Agrela que, como muitos sabem e em questão de “milagres”, “não há Santa como ela”…

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