Barbárie sob bandeira democrática II

EUA: 20 a 30 milhões de mortes desde 1945

Manlio Dinucci (*) - Sexta-feira, 4 Outubro, 2019

Não é uma análise, nem mesmo uma opinião: é um facto. A “ordem internacional livre e aberta”, promovida desde 1945 pelos Estados Unidos, custou a vida de 20 a 30 milhões de pessoas em todo o mundo. Nenhum presidente, fosse ele qual fosse, conseguiu mudar o ritmo desta máquina da morte.
No resumo de seu último documento estratégico — Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, 2018 (cujo texto completo permanece em segredo) — o Pentágono afirma que “depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e os seus aliados instauraram uma ordem internacional livre e aberta para salvaguardar a liberdade e os povos da agressão e da coerção”, mas que “agora esta ordem está a ser minada pela Rússia e pela China, que violam os princípios e as regras das relações internacionais”. Eis uma alteração completa da realidade histórica.

Michel Chossudovsky, director do Centro de Investigação sobre Globalização, recorda que aqueles dois países, hoje classificados como inimigos, são os mesmos que, quando eram aliados dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, pagaram a vitória sobre o Eixo nazi-fascista Berlim-Roma-Tóquio com o preço mais elevado em vidas humanas: a União Soviética, cerca de 26 milhões e a China, 20 milhões, em comparação com pouco mais de 400 mil dos Estados Unidos.

Chossudovsky apresenta um estudo de James A. Lucas, sobre o número de pessoas mortas pela série ininterrupta de guerras, golpes de Estado e outras operações subversivas efectuadas pelos Estados Unidos, desde o final da guerra, em 1945, até hoje. Estima-se esse número entre 20 e 30 milhões (1), cerca do dobro do número de vítimas da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário acaba de ser celebrado em Paris, com um “Fórum da Paz”.

Além dos mortos, há os feridos, que muitas vezes ficam deficientes. Especialistas calculam que, por cada pessoa morta na guerra, outras 10 ficam feridas. Isto significa que os feridos provocados pelas guerras dos EUA atingem centenas de milhões. À estimativa do estudo adiciona-se um número não quantificado de mortes, provavelmente centenas de milhões, provocadas pelos efeitos indirectos das guerras: fomes, epidemias e migração forçada, escravidão e exploração, danos ambientais, roubo de recursos às necessidades vitais para cobrir despesas militares.

O estudo documenta as guerras e golpes realizados pelos EUA em mais de 30 países asiáticos, africanos, europeus e latino-americanos. O que revela que as forças militares dos EUA são directamente responsáveis por 10 a 15 milhões de mortes, causadas por grandes guerras: as da Coreia e do Vietname e as duas contra o Iraque. Outros 10 a 14 milhões de mortes resultaram de guerras ‘por procuração’, conduzidas por forças armadas aliadas, treinadas e comandadas pelos EUA — no Afeganistão, em Angola, no Congo, no Sudão, na Guatemala e outros países. A Guerra do Vietname, que se estendeu ao Camboja e ao Laos, causou 7,8 milhões de mortos (além de um grande número de feridos e lesões genéticas, devido à dioxina espalhada pelos aviões de guerra dos EUA).

A guerra ‘por procuração’, na década de 1980, no Afeganistão, foi organizada pela CIA que treinou e armou, com a colaboração de Osama bin Laden e do Paquistão, mais de 100 mil mudjaidin para combater as tropas soviéticas caídas na “armadilha afegã” (como mais tarde a definiu Zbigniew Brzezinski, salientando que o treino dos mudjaidin tinha começado em Julho de 1979, cinco meses antes da invasão soviética do Afeganistão).

O golpe mais sangrento foi organizado na Indonésia, em 1965, pela CIA, que forneceu aos esquadrões da morte indonésios a lista dos primeiros 5 mil comunistas e outros a serem mortos. O número de abatidos é estimado entre meio milhão e 3 milhões.

Esta é “a ordem internacional livre e aberta” que os Estados Unidos, independentemente dos que presidem à Casa Branca, procuram alcançar para “salvaguardar os povos da agressão e da coerção”.

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(*) Geógrafo e analista geopolítico. Escreve no jornal italiano Il Manifesto. Artigo publicado em 20 Novembro 2018
(1) “US Has Killed More Than 20 Million People in 37 “Victim Nations” Since World War II”, James A. Lucas, November 27, 2017






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