Governo patronal-socialista contra o direito de greve

António Louçã - Terça-feira, 20 Agosto, 2019

Tinha de ser a “geringonça”, para fazer o que nenhum governo de direita alguma vez ousaria: serviços mínimos a 100 por cento, requisição civil desde o primeiro dia, militares a fazerem de motoristas, motoristas procurados em casa pela polícia e conduzidos para trabalhos forçados sob ameaça de prisão. Mas ninguém pense que este foi um ataque de pânico dos patronal-socialistas perante uma greve especialmente perigosa. Para eles, cada greve é agora um incêndio e o alarmismo tornou-se uma panaceia universal.
 
Poucos meses antes desta campanha contra a greve dos motoristas de matérias perigosas, tinha sido a agressão policial contra o piquete dos estivadores em Setúbal, para impor a passagem de fura-greves vindos de outras localidades. No próprio dia em que o plenário dos motoristas decidiu suspender a greve, foi o anúncio, mais uma vez, de serviços mínimos completamente abusivos para a greve da Ryanair. Os patronal-socialistas querem agora aplicar a receita por todo o lado.
 
Todos os ministros e todos os apoiantes da “geringonça” começam as suas tiradas retóricas dizendo que o direito de greve é uma pedra angular da democracia. Aí, apressam-se a acrescentar: “Mas …”. Geralmente, o que se segue a esse “mas” vai muito além das emergências médicas ou outras que justificariam serviços mínimos bem definidos: ele é o direito da maioria a não ser incomodada, ele é o direito dos veraneantes a terem férias com combustível à discrição, ele é o direito dos automobilistas a circularem sem limitações, ele é o drama dos iates imobilizados na marina de Vilamoura; ele é, enfim, um ror de tolices, de queixinhas e queixumes que são, todas elas, colocadas acima do tal direito inalienável “mas”.
 
Menos realce costumam merecer outras lamentações, porque aí o gato escondido começa a mostrar o rabo: as lamentações dos operadores turísticos, as dos concessionários das petrolíferas, as do sector hoteleiro e da restauração e tudo o que diz respeito aos interesses económicos potencial ou efectivamente atingidos pela greve. Ainda assim, a ingenuidade ou o excesso de zelo de algum mercenário da comunicação social ocasionalmente deixa ver a ponta deste iceberg. E esta é a essência da cruzada que agora empreenderam os patronal-socialistas contra o direito de greve, tal como eles próprios confessam, já sem nenhuma vergonha, a respeito da greve da Ryanair.
 
Com tudo isto, constitui uma curiosa inversão de papeis o facto de o líder da direita, Rui Rio, vir criticar o Governo PS por ser demasiado pró-patronal. E é o próprio Rio quem aconselha António Costa a retomar uma posição de “equidistância”, para poder arbitrar o conflito. Faz também parte dessa inversão de papeis que seja igualmente Rio a criticar o Governo PS por ter dado esse passo, inédito em 45 anos de democracia, de comissionar os militares como fura-greves. Entende-se a preocupação do PSD, com os olhos postos nas eleições de outubro: se os patronal-socialistas fazem tudo o que pedem os patrões, se eles se antecipam mesmo aos desejos expressos dos patrões, se eles adivinham os desejos inconfessados dos patrões, se os patronal-socialistas concebem as ideias perversas – mas tão úteis! – que ainda nem sequer passaram pela cabeça dos patrões … então para que servirá o PSD?
 
A outra direita mais tosca e trauliteira, depois de ter sido remetida para quinto partido português do espectro europarlamentar, reagiu ao contrário, tratando de ser mais papista que o papa e pedindo apenas que passem a ser lei as violações do direito de greve que agora vimos na prática do Governo. Acontece que, “para a economia poder funcionar”, o revisionismo legislativo do CDS teria de estender-se a muitas outras áreas. Pelo menos, a evasão fiscal teria de passar a ser lei, porque ficou claro que os patrões filiados na ANTRAM sonegam dezenas de milhões ao fisco com o truque de pagar horas extraordinárias como se fossem ajudas de custo; e as violações do horário de trabalho também teriam de tornar-se legais, para que os motoristas possam conduzir toneladas de explosivos durante mais de 8 horas, sem atender à segurança rodoviária em geral e à sua em particular.
 
Para já, os patronal-socialistas não têm pressa. Aos patrões, eles já mostraram que conhecem todas as notas da escala. Sabem mudar a lei e sabem violar a lei, enquanto ela não é mudada. Souberam enfrentar as greves dos estivadores e dos motoristas com a lei que existe e souberam aliar-se à direita, contra os seus parceiros bloquistas e comunistas, para alargarem o período experimental na revisão das leis laborais. Souberam prometer aos precários uma ampla regularização de falsos recibos verdes e souberam adiar o cumprimento da promessa até ela ser em boa parte esvaziada.

Por saberem muito, os patronal-socialistas poderão ganhar confortavelmente as eleições de outubro e, logo a seguir, dispensar os seus parceiros de esquerda. Mas não sabem o suficiente – porque ninguém sabe, porque ninguém pode – para decretar a defunção da luta de classes. E, por baixo dos pés da maioria parlamentar que vão obter, já hoje começa a fermentar a maioria social dos e das que lutam: docentes, estivadores, enfermeiros, motoristas. O manifesto de activistas sindicais promovido pelo SEAL [Sindicato dos Estivadores e da Actividade Logística] em solidariedade com os motoristas foi um primeiro sinal.






Um Comentário a “Governo patronal-socialista contra o direito de greve”

  1. leonel clérigo disse:

    BALANÇO…e PERSPECTIVAS

    É da “tradição” do mundo do trabalho “escalpelizar” as suas próprias “acções” e “lutas”, fazer sua “crítica” e “autocrítica” implacável – já diziam isso os “mestres”… – para que a “realidade” se revele por completo e se anule a poeira com que muitos – os de fora e até os de “casa” – as desejam sempre envolver.
    António Louçã veio chamar a atenção para esse “escalpe” e até, meritoriamente, fez mais: aventurou-se a dar o “pontapé de saída”. É certo que nem todas as cartas saíram ainda do baralho mas, há sempre que empurrar para a frente: o mundo não se revela, vai-se revelando. E só depende de nós…
    Um bom e oportuno texto o de António Louçã. Continuemos…

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