Donde menos se esperava

Terça-feira, 13 Agosto, 2019

Não admira que os patrões, não apenas os dos transportes, tenham tomado como alvo o porta-voz dos camionistas, o advogado Pardal Henriques. À boca pequena e na forma de intriga, tanto lhe são apontadas “ambições políticas” escondidas, como supostos comportamentos “pouco recomendáveis” — como disseram esse outro advogado que representa a Antram (que terá também as suas ambições políticas) e o presidente da Confederação do Comércio (ele mesmo politicamente pouco recomendável).
O que admira é ver Francisco Louçã (SIC, 9 Agosto), e com ele o BE; e também o PCP, seja através do Avante, pela pena de Manuel Gouveia (8 Agosto), ou em notas de imprensa (8 e 12 Agosto), fazerem o mesmo.
Digamos claramente: isto é um argumento baixo quando usado a respeito de uma luta assumida por centenas de trabalhadores e quando eles estão debaixo de fogo do patronato e do Governo. Não porque Pardal Henriques seja santo, ou não queira protagonismo pessoal, ou até não “alimente projectos políticos reaccionários” — mas porque tudo isso é distinto da luta empreendida pelos camionistas.
Para o patronato qualquer golpe serve para quebrar as pernas aos trabalhadores. Mas não será elementar que quem se reclama da esquerda tem obrigação de distinguir a (suposta ou real) ambição pessoal, de quem quer que seja, da luta em si mesma? Louçã, Gouveia e o gabinete de imprensa do PCP fizeram o mesmo que fazem a direita e o patronato quando estes acusam a esquerda, os dirigentes sindicais, a CGTP de “manipularem” as lutas dos trabalhadores e todas as lutas sociais com fins partidários. Uma bela ajuda ao patronato e ao Governo. E uma bela ajuda ao PS para Outubro.






3 Comentários a “Donde menos se esperava”

  1. afonsomanuelgoncalves disse:

    O recurso ao boato para desviarem as atenções dos assuntos importantes e anularem protagonismos inconvenientes e perigosos é recorrente na vida politica de muita gente. No caso concreto de Louçã isso manifesta-se doentiamente, por vezes raia a tentação inevitável. Existe um mar de ecemplos que poderiam ser relembrados, mas certamente muita gente já reparou nesse hábito incontrolável. O PCP também sabe a regra de destruir inimigos através do boato e da má lingua e o BE com a habitual demagogia relativamente a assuntos que estão na moda e são rentáveis aproveita a onda e corre atrás dela. Nada disto surpreende vindo de quem vem. O porta voz dos grevistas que silenciou o Secretário Geral da CGTP tinha que ser um alvo a abater e como todos conhecem bem Maquiavel aplicam a sua extraordinaria descoberta que em política os fins justificam os meios.

  2. Emília Montemor disse:

    Julgo eu que, na luta política, deve haver argumentação política e não a mexeriquice de quem não tem nada para dizer ou é um verdadeiro trapaceiro cujo objectivo é espalhar a confusão e impedir que os outros vejam mais claro e descubram um rumo.

    Um exemplo: imaginemos que eu faço uma crítica ao grande economista Pedro Arroja a propósito da sua definição de Economia Capitalista Liberal e que ele, simplesmente, diz ser “…o contrário do Socialismo”.
    O que se deve dizer sobre isto, não é que o Sr. Economista Pedro Arroja passa os dias a meter o dedo no nariz, mas que esta definição é circular: para se saber o que é o capitalismo liberal do Prof. Arroja temos que ir estudar primeiro o que é o Socialismo e só depois o seu “contrário”.
    Mas suponhamos que se diz: o Socialismo é o contrário do Capitalismo do Sr. Prof Arroja. Ficamos assim na mesma como a lesma ou como o cão que anda às voltas a ver se morde o rabo. Com este método do Prof. Arroja fica-se sem saber o que é o Socialismo e o seu oposto: o capitalismo liberal. A não ser que se rompa o circulo e se diga que o Capitalismo Liberal do Prof Arroja mais não é do que os Monopólios cartelizados (surgidos da fase concorrencial do Capitalismo) travestidos com a roupagem – para inglês ver – da velha Mão Invisível de Adam Smith.
    O nosso Prof. evita assim dizer, com este truque, o que afinal ele pretende para DESENVOLVER o PAÍS, ao utilizar a borrada caquética do seu Capitalismo Liberal que já vem chegando novamente à Wall Street na forma de uma crise económica infernal que nos vai pôr a todos a pão e laranjas.

    Isto para dizer que se o Sr. Pardal Henriques gosta ou não do Partido do Sr. Marinho e Pinto é algo que lhe é de direito: Mário Soares e Sá Carneiro não tinham várias agendas escondidas no 25 de Novembro? Donde, por exemplo, surgiram depois as “privatizações”? da estratosfera?…(1)
    E a nossa impagável Comunicação Social não tem agendas escondidas? Quais dos comentadores das TVs Privadas estão hoje na calha para candidatos à Presidência da República aproveitando a “experiência” do Professor Marcelo?…

    (1) – Se alguém quiser hoje instruir-se em Agendas escondidas, aconselho a levar na bagagem de férias a Compilação de Reinaldo Caldeira e Maria do Céu Silva “CONSTITUIÇÃO POLÍTICA da REPÚBLICA PORTUGUESA 1976 – Projectos, votações e posição dos partidos.” Edição da Livraria Bertrand.
    Aqui, podem-se encontrar múltiplas propostas semelhantes às que se seguem e nos ajudem a desenvolver o país:

    PS: Portugal é uma República soberana, em transição, por via pluralista e no respeito pela vontade popular, para o socialismo, entendido este como o poder democrático dos trabalhadores, com vista à instauração duma sociedade sem classes…

    PPD – Afirma a vontade do povo português de construir uma sociedade mais justa, mais livre, mais fraterna, da qual sejam abolidas todas as formas de opressão, de exploração e de privilégio, correspondente aos ideais do socialismo personalista…

    CDS – …Assim é que a Revolução veio afirmar também os princípios da democracia económica e social, na via para um socialismo português que, na sua precisa reivindicação de originalidade, supera e rejeita, a um tempo, os capitalismos individualistas e os socialismos totalitários.

    Coisas lindas…

  3. leonel clérigo disse:

    Não deixa de ser curioso este comentário acima de EM.
    Diz-se que “recordar é viver” e trazer à liça “resmas” de “promessas” não cumpridas e “agendas escondidas” dos Partidos que nos vêm governando há mais de 4 décadas (PS, PPD e CDS), temos que admitir ser um pouco assustador.
    Qual será então o nosso futuro? Mais do mesmo? Mais um monte de tretas registadas em papel para “inglês ver”? As “celuloses” agradecem…
    Aguardemos então pelos belos “PROGRAMAS de DESENVOLVIMENTO” do País que se estão a preparar “em segredo” – para não copiarem uns pelos outros – e nos vão deixando em grande ansiedade…

Deixe o seu Comentário