Pirataria britânica agrava perigo de guerra no Golfo Pérsico

António Louçã - Segunda-feira, 22 Julho, 2019

Ao mandar apresar um petroleiro iraniano em Gibraltar, no que deviam ser águas territoriais espanholas, o Governo britânico talvez só quisesse dar mais uma prova de alinhamento com o batuque guerreiro de Donald Trump e John Bolton. Mas a provocação tem consequências e elas estão à vista. A guerra está mais próxima.

O acto de pirataria contra o petroleiro iraniano foi bem uma metáfora militar-naval do Brexit. Theresa May no melhor estilo irresponsável de David Cameron, arquitecta um gesto agressivo para galvanizar uma plateia ululante, saudosa do império vitoriano que ditava por todo o lado a sua vontade segundo a lei da canhoneira. A irresponsabilidade leva-a a ignorar que pode haver reacções por parte do Irão ou a perguntar-se que reacções serão essas. E leva-a, acessoriamente, a ignorar que também o Governo espanhol se sentirá provocado e que a União Europeia nunca poderá tomar partido por um membro cessante contra um membro que permanece.

A partir daqui tudo se enreda. Londres não podia invocar o embargo dos EUA contra o Irão como motivo para apresar o petroleiro iraniano, porque oficialmente o Reino Unido continua a ser, tal como a União Europeia, subscritor do acordo nuclear com o Irão, e portanto não promotor do embargo norte-americano. Tinha portanto de inventar um outro pretexto e foi encontrá-lo num outro embargo, o da Europa contra os fornecimentos à Síria: o navio, afirmou o Foreign Office, transportava petróleo para a Síria e isso não pode ser (bem semelhante ao MNE português, quando inventa um pretexto para suspender a concessão de vistos a cidadãos iranianos).

O Irão nega que o navio transportasse petróleo para a Síria e, na verdade, caberia aos piratas britânicos explicarem, à vista de um mapa mundi, como o Irão se terá lembrado de fazer passear o seu petróleo pelo Estreito de Gibraltar, em vez de o entregar de alguma forma muito mais directa à vizinha Síria. E é duvidoso que a União Europeia, encurralada pela dupla provocação britânica, contra o Irão e contra a Espanha, possa confirmar que o apresamento foi feito em nome do seu embargo.

Mas há pior ainda, para a desastrada iniciativa britânica. Londres procura recuperar as boas graças de Donald Trump depois de um embaixador britânico demasiado lúcido o ter descrito como um idiota, e de uma saborosa inconfidência ter deixado transpirar para o público esse veredicto. A reconciliação é tanto mais necessária quanto a oligarquia britânica, depois de se cobrir de ridículo em sucessivas votações inconclusivas sobre o Brexit, se prepara para uma saída desordenada da União Europeia e precisa, mais do que nunca, de facilidades concedidas pelos EUA. Acontece que o acto de pirataria cometido em Gibraltar nem a esse nível lhe serviu de alguma coisa.

Com efeito, na política externa norte-americana a avidez doutrinária de Bolton por uma nova guerra (não aprendeu nada com o desaire do seu antigo patrão, George W. Bush, no Iraque) ainda tem de suplantar o pragamatismo cínico de Mike Pompeo. E o árbitro da contenda – um idiota, como sentenciou o embaixador britânico – mantém para a política externa um comportamento tão errático como para a sua campanha contra as quatro congressistas democratas, que um dia aponta ao escárnio da sua habitual plateia ululante, e no outro diz ter protegido contra os excessos dessa plateia.

E, se Donald Trump continua por enquanto sem optar por um dos dois rumos que lhe são propostos na sua Administração, isso tem que ver com o horror do vazio que uma parte do seu séquito experimenta depois de ter partido quase toda a louça que havia para partir. Ao denunciar o acordo nuclear com o Irão, desobrigou o regime dos ayatollahs de todos os compromissos que este tinha assumido quanto ao desenvolvimento do nuclear. Teerão anunciou depois, unilateralmente, que mantinha esses compromissos na medida em que as outras potências signatárias do acordo também continuassem a cumprir a sua parte.

Mas, como as declarações dessas potências, nomeadamente as europeias, não eram mais do que palavreado vazio e cumplicidade efectiva com o embargo norte-americano, Teerão anunciou depois que retomaria o enriquecimento de urânio acima dos níveis previstos no acordo. Os protestos norte-americanos perante este anúncio foram apenas cómicos, porque no fundo redundavam em exigir ao Irão o respeito por um acordo de que os EUA já se tinham afastado.

Neste momento, a algazarra belicista dos EUA assenta sobre uma base cada vez mais frágil — o que não a torna menos perigosa. Com efeito, todas as suas apostas para o Médio Oriente estão a fracassar. O famoso plano para a Palestina não tem “interlocutor”, nem mesmo a subserviente Autoridade Palestiniana, porque é um plano de colonização e apartheid na sua forma mais crua. A Turquia está em rota de colisão com a NATO e de aproximação com a Rússia. A Arábia Saudita teve de assistir, há duas semanas, à deserção dos Emiratos Árabes Unidos, seu único aliado efectivo na guerra genocida que leva a cabo no Iémen.

É, portanto, normal o Pentágono e a CIA terem percebido que, à vista de uma possível guerra contra o Irão, o pesadelo interminável da guerra no Iraque fará a figura de uma brincadeira de crianças. E, tendo ambos percebido isto, é normal que procurem a todo o transe desdramatizar a legítima retaliação iraniana sobre dois navios de pavilhão britânico. Para além do envio de tropas norte-americanas para a Arábia Saudita, ambos evitam uma escalada que possa conduzir rapidamente o Irão a bloquear o Estreito de Ormuz, ou simplesmente a criar uma insegurança tal para a navegação no Estreito, que leve governos como os da Noruega e do Reino Unido a aconselharem outras rotas, muito mais longas e caras.

Tudo isso é mau para os negócios e pode precipitar a economia mundial numa crise imparável. Só por esse motivo, os protestos britânicos contra o Irão tiveram até agora um apoio tão circunspecto de uma Administração Trump que ainda não decidiu o que fazer. Mas a História também nos mostra que o imperialismo é, por natureza, aventureiro, e que frequentemente se decide pela fuga para a frente. Nesse momento — se esse momento chegar, e ele nunca esteve tão perto — todas as CIAs e todos os Pentágonos se porão incondicionalmente ao seu serviço.






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