O papel dos EUA nos protestos em Honk Kong

International Action Center (*) - Quinta-feira, 11 Julho, 2019

Os meios de comunicação têm enchido páginas e ecrãs com os protestos de massas em Hong Kong, realmente gigantescos. O alvo, quer dos manifestantes, quer da propaganda dominante, é obviamente a China. Na origem, está uma alteração legal que permitiria a extradição para a China continental de pessoas acusadas de crimes. O clamor levantado a pretexto dos “direitos humanos” mascara a tentativa, por parte do Ocidente, com relevo para os EUA e o Reino Unido, de manter Hong Kong quanto possível fora da soberania chinesa. A isto não é alheia a guerra política e económica que os EUA desencadearam contra a China. É o que denuncia a seguinte declaração do International Action Centre (EUA).

Ajudas ou intervenções dos EUA nunca protegeram direitos humanos ou democracia

O imperialismo norte-americano é o maior inimigo dos povos que lutam por um futuro com dignidade, soberania e plenos direitos humanos. Wall Street e o capital financeiro mantêm o seu domínio no mundo através da ameaça de mais de 800 bases militares em territórios estrangeiros, porta-aviões, golpes constantes, assassinatos, ataques de drones e fome causada por sanções impostas a mais de 30 países ao redor do mundo.

Wall Street também usa o poder “suave” do National Endowment for Democracy (NED, Dotação Nacional para a Democracia) para financiar milhares de organizações não-governamentais, partidos políticos reaccionários e alianças com ditadores corruptos em todo o mundo.

Lembremos que, por meio do NED, os EUA financiaram tentativas de golpe, muitas vezes envolvendo componentes de protesto de massas, nas Honduras, Nicarágua, Venezuela, Haiti, Ucrânia e Síria. Qualquer movimento tem o potencial de atrair muitas pessoas progressistas bem-intencionadas, muitas vezes com queixas legítimas cujos interesses não são os da liderança do movimento. Mas a ajuda e as intervenções dos EUA nunca protegeram os direitos humanos ou a democracia.

Os recentes protestos de massas que abalam Hong Kong— contra uma proposta de modificação das leis de extradição — obrigam a olhar mais fundo, e a perguntar que forças estão por trás do movimento e quem dele beneficia.

Antecedentes

A Grã-Bretanha roubou Hong Kong à China no final da primeira Guerra do Ópio em 1842. As Guerras do Ópio impuseram o tráfico de ópio, tratados desiguais e ocupação colonial. Cem anos de pilhagem imperialista, empobreceram e mantiveram a China subdesenvolvida.

A vitória da revolução em 1949 mudou radicalmente a China e iniciou os esforços para construir o socialismo. Mas durante 30 anos, de 1949 a 1979, a China foi completamente cercada, bloqueada e sancionada pelos EUA e pelos países imperialistas ocidentais.

Em 1979, a partir da “reforma e abertura” iniciada com Deng Xiaoping, a China fez concessões ao mercado capitalista. Isso deu à China acesso a alguma tecnologia e capitais do mundo industrializado, mas foi um acordo com o diabo, fortalecendo a classe capitalista na China.

Hong Kong foi devolvida à China em 1997 sob o princípio “um país, dois sistemas” que preservou grande parte do sistema legal/judicial colonial britânico.

Hong Kong é um centro do capital financeiro mundial. É profundamente hostil às medidas sociais que, na China continental, tiraram centenas de milhões de pessoas da pobreza extrema e proporcionaram altos padrões de cuidados de saúde, educação e infra-estruturas modernas.

O capital financeiro fez fortes incursões na China. Hong Kong é a base de operações do Ocidente, incentivando o crescimento de uma classe capitalista na China que ameaça as bases do socialismo. Hoje a China é uma sociedade profundamente contraditória, caracterizada pela luta entre uma classe capitalista renascida e as aspirações dos trabalhadores e camponeses chineses de manter e expandir a economia planificada.

É no contexto dessa luta, bem como do crescente cerco militar dos EUA e da guerra comercial contra a China, que os actuais protestos em Hong Kong devem ser compreendidos. As forças do capital financeiro em Hong Kong e os seus aliados nos EUA e na Europa querem afastar Hong Kong da China para que possa funcionar como um posto avançado económico e político na região.

Isso significa limitar a integração legal e política com a China, tanto quanto possível. Para esse fim, os EUA forneceram amplo apoio político, financeiro e propagandístico aos protestos.

Factos sobre os protestos

Várias organizações membros da Frente Civil de Direitos Humanos, a coligação por trás dos recentes protestos, recebem ou receberam financiamento do NED. Entre elas, o Instituto de Gestão de Recursos Humanos de Hong Kong, a Confederação de Sindicatos de Hong Kong, a Associação de Jornalistas de Hong Kong, o Partido Cívico, o Partido Trabalhista e o Partido Democrático.

Mais de 37.000 ONGs, com dezenas de milhares de funcionários, estão registadas em Hong Kong, muitas das quais recebem financiamento dos EUA e da Europa.

Martin Lee, fundador do Partido Democrata, que faz parte da Frente Civil de Direitos Humanos, reuniu-se com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, durante os protestos, e recebeu deste o pleno apoio aos protestos. Se os protestos tivessem de facto uma finalidade progressista, não seriam apoiados pela liderança reaccionária do imperialismo norte-americano — a mesma força que tenta levar a cabo um golpe na Venezuela, ameaça a Coreia do Norte e procura iniciar uma guerra com o Irão.

O sistema legal/judicial independente de Hong Kong é uma relíquia do colonialismo britânico. Em nenhum outro lugar do mundo uma cidade tem leis independentes de extradição, com autoridade acima da de um país soberano. (**)

Apesar de décadas de financiamento multimilionário do Ocidente, Hong Kong tem uma taxa de pobreza de 20% (23,1% para crianças), comparada com menos de 1% na China continental. Nos últimos 20 anos, a pobreza em Hong Kong permaneceu alta, enquanto a China continental tirou incontáveis milhões de pessoas da pobreza.

Os recentes protestos, tal como os de 2014, não levantaram essa questão. Os protestos foram dirigidos contra a liderança de Hong Kong, ligada à China continental, ignorando as ligações aos EUA dos bancos e dos capitalistas ultra-ricos sediados em Hong Kong, que claramente não demonstram interesse em responder aos problemas da pobreza ou outras necessidades de primeira importância.

Os EUA afirmam estar preocupados com a liberdade de expressão e extradições com motivações políticas, enquanto pressionam para a extradição de Julian Assange por expor os crimes do imperialismo norte-americano.

Os meios de comunicação nos EUA e na Europa têm divulgado entusiasticamente os protestos em Hong Kong, em contraste com a escassa cobertura, muitas vezes negativa, dos protestos de massas em Gaza, Honduras, Sudão, Iémen, França ou a recente greve geral no Brasil. A diferença na cobertura mediática revela a diferença das forças que estão por trás dos protestos e que deles beneficiam.

O imperialismo norte-americano tem uma longa história de “revoluções coloridas”, em que protestos com um verniz progressista e até revolucionário são usados como cobertura para uma agenda reaccionária pró-EUA. É o caso da aliança entre o imperialismo norte-americano e as forças do capital financeiro mundial em Hong Kong, contra a liderança política e a soberania chinesa.

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(*) O International Action Center (iacenter.org) é um associação de activistas fundada em 1992 pelo antigo Procurador-Geral dos EUA Ramsey Clark. Apoia movimentos anti-imperialistas em todo o mundo e opõe-se às intervenções militares dos EUA em quaisquer circunstâncias. Texto traduzido e adaptado pelo MV.

(**) A questão não se põe apenas em relação à China. Também Taiwan tem um contencioso recente com Hong Kong a este respeito, a propósito de um indivíduo que assassinou uma mulher em Taiwan e se refugiou em Hong Kong para escapar à Justiça. Um dos argumentos da alteração legal pretendida pela China é precisamente evitar que a legislação actual faça da ex-colónia uma espécie de off-shore do crime. (Nota MV)






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