Retomar o projecto socialista

A propósito dos resultados das eleições europeias

Rémy Herrera (*) - Sábado, 29 Junho, 2019

Na medida em que os actos eleitorais espelham o conflito de interesses das forças sociais, a observação dos resultados pode dar conta do estado da luta de classes num determinado momento e das vias políticas que se abrem a cada uma dessas forças. É o que faz Rémy Herrera ao analisar as recentes eleições europeias, em França e de um modo mais geral na Europa. Os claros avanços da extrema-direita levam-no a concluir pela necessidade de ruptura com o capitalismo e de radicalização das forças progressistas — por um projecto socialista. Resumimos as ideias principais do artigo.

Em geral, poucas surpresas

As eleições de 25-26 de Maio poucas surpresas revelaram. Quase em todo o lado os partidos das direitas extremas obtiveram resultados bons ou muito bons. A tendência, que não é nova no continente, confirma-se, consolida-se e inquieta.

Em França a União Nacional de Marine Le Pen teve mais de 23% dos votos expressos, na Itália a Liga Norte chegou aos 34%. Além dos 50 deputados eleitos por estas duas forças, o Parlamento Europeu terá ainda mais 7 deputados eleitos pela extrema-direita austríaca, holandesa e estónia. E as estes somam-se os eleitos pelas forças reaccionárias, ditas “eurocépticas”, da Polónia e da Hungria.
 
França: derrota do “centro”, ausência da esquerda

O caso da França é singular. O partido da maioria presidencial, o RPEM de Macron, perdeu (com 22%) face à extrema-direita. Mais: os dois outros partidos em que o poder assentou durante mais de 40 anos, os republicanos e os socialistas, foram ao tapete com, somados, menos de 15% dos votos.

O neoliberalismo, de que estas forças foram os patrocinadores, foi assim claramente rejeitado — mas continuará a ser aplicado pela mão de Macron. Democraticamente, dizem-nos, mesmo quando metade do eleitorado de absteve e mais de um milhão votou branco ou nulo.
 
Quanto à esquerda em França, o espectáculo é… sinistro. A França Insubmissa elegeu 6 deputados com 6% dos votos, o Partido Comunista Francês (que já não fala de socialismo, mas apenas de social e mais frequentemente de societal…) não chegou aos 3%. Os trotskistas da Luta Operária ficaram pelos 0,7%, imperturbáveis. O Partido Revolucionário Comunistas [uma cisão do PCF] obteve 0,01%. O copo está vazio.

Quanto aos ecologistas, que querem “hegemonizar” a esquerda do alto dos seus 13,5%, precisam de provar que são de esquerda: o cabeça de lista do partido Europa Ecologia Os Verdes mostrou-se favorável a uma reforma da Função Pública “aproximando-a do estatuto dos privados” — tal como pretende Macron!
 
Porque cresce a extrema-direita?

Voltemos ao essencial. Porque ganhou a extrema-direita em França? Porque beneficia de um apoio crescente nas classes populares que, no entanto, não parecem racistas?
Muitas causas, trabalhando profundamente na sociedade e no longo prazo, de natureza socioeconómica, ideológica e psicológica, poderiam ser aqui chamadas.

Precisemos, a este respeito, que o racismo é uma doutrina intrinsecamente de direita e visceralmente segregada pelo pensamento burguês com o propósito de dividir as classes dominadas; que as classes trabalhadoras não são geneticamente mais estúpidas que as outras e, portanto, embora manipuladas pelos média, não são menos capazes de identificar o seu interesse de classe; e que componentes bastante amplas dessas mesmas classes trabalhadoras estão agora disponíveis para uma mudança social radical, prontas para uma “saída do sistema” (parecendo alguns sectores da classe média estarem a ponto de bascular para o mesmo campo).

Arrisquemos avançar uma dessas causas, entre outras, importante no que diz respeito à esquerda. Mas que é tabu. Ei-la: cada vez mais segmentos das classes trabalhadoras apoiam a extrema-direita porque vêem nela, erradamente, a força mais capaz de fornecer respostas aos incontáveis sofrimentos que os oprimem e aos medos que os assombram.

Medo de desemprego, precariedade, degradação social, medo de fronteiras abertas e perda de soberania nacional, finalmente medo da imigração. Tudo ao mesmo tempo. Porque também pensam, correctamente desta vez, que as organizações da esquerda — tal como elas actualmente funcionam, com as suas contradições, divisões, hesitações, inadequações — desistiram (ou já não têm capacidade) de os defender.
 
Um imperativo absoluto

As forças de esquerda não estão encostadas à parede. Elas têm, sim, uma parede à sua frente: a parede do capitalismo. Ou elas compreendem finalmente que não há saída da crise capitalista se não for uma saída do próprio sistema capitalista, ou o país, e a Europa, seguirão inelutavelmente a via que os EUA iniciaram: o acesso ao poder duma extrema-direita. Como sucede com os seus dois aliados indefectíveis, Israel e a Arábia Saudita, e, mais recentemente, com o Brasil, em que Jair Bolsonaro é um produto fatal do falhanço do reformismo.
 
Portanto, sair do capitalismo surge como o imperativo absoluto de todos os verdadeiros progressistas. Ecologistas incluídos, que devem perceber que se trata de uma questão de vida ou morte, que a alternativa fundamental continua a ser, mais do que nunca, ou o socialismo ou a barbárie.

Se 88 milhões de europeus vivem em condições inaceitáveis de pobreza, alguns privados de empregos, outros lançados na competição entre trabalhadores, todos vendo os seus direitos esmagados, é porque a lei da selva do capitalismo se impõe.

Se o “Estado francês” vende ao desbarato as jóias da indústria nacional é porque optou por ceder aos ditames de Bruxelas e da ditadura do capital globalizado. (Entre inúmeros exemplos possíveis: o ramo de energia da Alstom foi vendido à General Electric … que despede mil trabalhadores em Belfort.)

Se os migrantes procuram alcançar as costas da Europa — que tem obrigação de recebê-los e tratá-los com dignidade — é porque a miséria e a guerra os empurram para isso, arriscando as vidas, porque o capitalismo saqueou as suas sociedades e o imperialismo lhes impõe conflitos criminosos. Se a crise climática é tão devastadora, é porque nenhum limite é colocado à loucura e à rapacidade dos exploradores. Precisamos de nos livrar desta espiral destrutiva.

Retomar o projecto socialista, abandonar o reformismo

O espírito de justiça exige uma ruptura com o capitalismo e o fim das guerras imperialistas. Em face do ódio, da raiva, da violência em germe na extrema-direita — o último bastião do sistema capitalista —, a razão pede a radicalização das forças progressistas, o que significa abandonar o reformismo hipócrita e colaboracionista e retomar o projecto pós-capitalista de transições socialistas.

Nos anos 20 e 30, os fascismos espalharam-se pelo continente europeu para combater os comunistas que, quando não triunfaram na esteira do Outubro Vermelho, lutaram de armas na mão, heroicamente, até ao fim — da Spartakusbund às Brigadas Internacionais. Os pontos altos que nos fazem olhar para cima são Rosa Luxemburg ou Dolores Ibárruri Gómez.

Os extremistas de direita da era moderna, esses, cresceram naturalmente com o estrume fétido deixado na cena política pelos líderes de uma esquerda social-democratizada, aburguesada, vazia, repleta com as migalhas que os capitalistas lhe lançavam, domesticada por uma renda imperialista extorquida aos povos do Sul. Líderes que se declararam vencidos e capitularam lastimavelmente sem sequer pensarem em travar batalha.

———

(*) Economista, marxista, investigador no Centro Nacional de Investigação Científica (França). Trabalha no Centro de Economia da Sorbonne, Paris.
Tradução, selecção e subtítulos da responsabilidade do MV, a partir do original publicado em 31 de maio.






Deixe o seu Comentário