Venezuela entre o golpe e a invasão

António Louçã - Quinta-feira, 24 Janeiro, 2019

Parece claro que até domingo, dia 27 de janeiro, se optará nos Estados Unidos entre a receita golpista e a receita da invasão para liquidar o que resta do chavismo. É sempre arriscado fazer “prognósticos antes do jogo”, mas o risco reduz-se drasticamente se há, como é o caso, uma lógica de ferro no comportamento do imperialismo norte-americano.

A receita golpista é, à primeira vista, preferível para Washington. Se o Exército acabar por reconhecer a presidência interina de Guaidó, as tropas ianques escusam de meter-se na Venezuela quando ainda não acabaram de sair da Síria e quando ainda mal começaram a sair do Iraque e do Afeganistão. O golpe poderá começar por ser relativamente incruento, porque terá apoio popular. Os ajustes de contas virão depois, quando a elite venezuelana se sentir suficientemente segura para começar o extermínio metódico de tudo o que cheire a chavismo.

É verdade que o Exército começou por emitir um comunicado reiterando a sua lealdade a Nicolás Maduro. Mas ainda está para nascer o exército que não negue e renegue intenções golpistas até dois minutos antes de sair para a rua em pronunciamento sedicioso, e ainda está para nascer o que não as negue e renegue logo dois minutos depois de ter abortado alguma intentona militar.

Até aqui, a cúpula do Exército venezuelano tem-se limitado a ganhar tempo. Mas agora, pela primeira vez, tem um prazo: até sábado à noite, que é o prazo dado aos diplomatas e espiões ianques para abandonarem o país.

O dilema é claro: ou o Exército adere à proclamação de Guaidó e garante a segurança dos funcionários ianques; ou os EUA, com o clássico pretexto de “proteger cidadãos norte-americanos”, enviam tropas para a Venezuela. Por outras palavras, invadem.

Pode Donald Trump mandar regressar os seus agentes? Não pode, nem quer.

Não pode, porque sofreria uma humilhação, infligida por um adversário que ele e toda a gente consideram moribundo. Não pode, porque isso equivaleria a reconhecer que a presidência de Guaidó é fictícia e que Maduro continua a ter autoridade suficiente para expulsar os mandatários do “grande irmão do norte”. Não pode, porque desse modo reduziria a nada a proclamação de Guaidó, que o próprio Trump induzira, encorajara e preparara com antecedência.

E não quer, porque, mandando-os regressar, perderia aquilo que deve considerar uma oportunidade única. Por um lado, invadir a Venezuela neste momento é fazê-lo com boas probabilidades de, num primeiro momento, as tropas norte-americanas serem aclamadas como libertadoras. Não há na História dos EUA muitas oportunidades de captar com as câmaras de filmar, as objectivas e os smartphones muitos momentos desses. Além disso, seria uma oportunidade única para fragilizar ainda mais a economia cubana e para incrementar a pressão sobre as exportações petrolíferas do Irão.

Por outro lado, invadir a Venezuela neste momento equivale, na política doméstica, a pôr os democratas de joelhos com o espantalho de um inimigo externo (também porque, os democratas, partido imperialista, facilmente se convencem a ajoelhar perante um presidente que grite mais alto). Como poderão os democratas manter a recusa do Muro, se o país estiver ocupado a invadir o seu pátio traseiro?

Claro que aos círculos mais lúcidos do imperialismo não faltam argumentos contra a invasão. A tentação dos passeios militares e das entradas triunfais em cidades estrangeiras já se revelou fatídica: invadir o Afeganistão foi um passeio militar, invadir o Iraque foi outro. Sair desses dois atoleiros, tem sido o cabo dos trabalhos e é coisa que ao fim de quase duas décadas ainda não tem um termo à vista. Os “passeios militares” demasiado fáceis eram ilusões de óptica. Na verdade, tratava-se de armadilhas mortíferas. Destapavam, além disso, caixas de Pandora como é a interminável crise dos refugiados.

Na América Latina, a tradição anti-ianque é muito mais antiga, enraizada e profunda do que no Médio Oriente ou no Hindustão. As imagens de multidões venezuelanas a aclamarem tropas norte-americanas rapidamente seriam substituídas por imagens de multidões a queimarem bandeiras de stars and stripes por todo o continente – incluindo na Venezuela.

Mas, claro, essa visão dois centímetros para além do próprio nariz só pode existir em círculos mais lúcidos do imperialismo. E aqui estamos a falar de Donald Trump e da sua clique.






4 Comentários a “Venezuela entre o golpe e a invasão”

  1. leonel clérigo disse:

    MAU TEMPO NA AMÉRICA LATINA

    António Louçã que também entende arriscado “prognósticos antes do jogo”, não hesita contudo correr o “risco” – é a “lógica” das coisas a impor-se e, como ele sugere, de maneira “férrea” – perante os acontecimentos recentes na Venezuela e seu corajoso “desafio” ao poder IMPERIALISTA dos USA. E, no seguimento do texto acima, coloco duas questões.

    1 – Nos dias de hoje, a muito provável intervenção “directa” militar dos USA na Venezuela, já não nos permite ilusões: tornou-se claro seus “objectivos”. E mais: ninguém – mesmo que tenha só “a cabeça entre as orelhas” – considera já como “justificativa” de tal acção de interferência na soberania dum Povo, a lengalenga “DEMOCRÁTICA” da “Defesa” dos “Direitos Humanos”, das “Liberdades”, dos “Valores ocidentais”… e outras patranhas (como a da “sua esfera de influência) que, já lá vão uns bons anos, têm andado a “enevoar” os objectivos REAIS do mundo da EXPLORAÇÃO CAPITALISTA e dos NEGÓCIOS de “sentido único” entre Desenvolvidos e Subdesenvolvidos.
    Os USA – já ninguém pode fingir desconhecer ou iludir – é a maior potência do Capitalismo Imperialista do nosso tempo o que quer dizer que, não só é a maior força exploradora de trabalho de todo o Planeta como – é só seguir a lógica – é a maior “força de bloqueio” ao DESENVOLVIMENTO dos POVOS SUBDESENVOLVIDOS.
    Não deixa de ser “curioso” – e digno de “estudo” – como o povo estadunidense parece “distraído” acerca deste “papel” do seu País no Mundo e ande convencido que pode fazer, impunemente, todos os desmandos que passa pela cabeça dos famosos “dirigentes” que escolhem. É costume dizer-se: “Quem está bem deixa-se estar…” Contudo, a História ensina-nos que esse “estar bem…” acaba seus dias contados. E nós, portugueses, temos uma boa experiência histórica disso…E tal como diz a fábula e a prazo “…se não foste tu, foi teu pai ou teu avô”.
    Não pense o Povo Estadunidense que as suas acções “negativas” caem em “saco roto”: o velho “prestigio” dos USA no mundo, vem decaindo a velocidade “supersónica” e já não estamos nos “gloriosos” tempos do “desembarque” – à maneira de Hollywood -, nas praias da Normandia ou na Ásia.

    2 – Há já largo tempo que a Sociedade Lusa se encontra numa encruzilhada donde não se vê como sair. E não é de hoje a incapacidade da “nossa” Burguesia em fazer qualquer transformação positiva no País. Por último, o 25 de Novembro de 75 e a sua “Europa connosco”, colocou-nos à volta do pescoço um nó cego, que o Brexit tem vindo a ajudar a “clarificar” a verdadeira dimensão da “corda”.
    No início, foi uma “alegria”: num ápice, ficamos deslumbrados. Dum momento para o outro os “saloios” lusos ficaram Europeus “desenvolvidos”: Lisboa, passou a uma das Capitais Europeias, um “luxo”.
    Contudo, toda essa “poeira nos olhos”, impediu de se ver uma coisa essencial: deixou Portugal, num “foguete”, de ser uma Sociedade Subdesenvolvida passando, de imediato, a ser uma “espécie” de “Dinamarca do Sul” pelo facto de cá ter entrado uns “fundos comunitários” que já pagámos com “língua de palmo”?
    Como o “Diabo foge da cruz”, também a nossa Sociedade apaga hoje – com “ácido” – a questão do nosso Subdesenvolvimento: nem pio. E com este “ácido”, apaga-se, de roldão, outras inúmeras questões decisivas, que a nossa ilustre burguesia esconde “debaixo do tapete”. Uma delas é a “nossa” obscura “política internacional”. À pala de “pertencermos” à Europa, somos “forçados” a aceitar a “conversa fiada” da “política imperialista” do Norte Desenvolvido europeu. Isso é “claro como água” no que respeita à “questão” Venezuelana.
    As “meias tintas ideológicas” dos “globalizadores” europeus encartados que até há uns dias “criticavam” Trump pelo “populismo”, apoiam agora e “sem piscarem os olhos”, a possível intervenção militar imperialista ao estilo “Pinochet”. É esta a “Europa connosco” da “Democracia” e dos “Direitos dos Povos”? Qual a “base” que leva o “nosso” Ministério dos Negócios Estrangeiros a isto? Qual a sua “Política de Princípios” escondida? Será que existe, para o nosso Ministério, alguma coisa parecida com o IMPERIALISMO?
    É nisto que dá eleger “Programas Eleitorais” de Partidos especialistas do “oculto”.

  2. leonel clérigo disse:

    CAUTELA E CALDOS DE GALINHA, NÃO FAZEM MAL A NINGUÉM.

    Um grupo de 29 eurodeputados – onde estão os portugueses CARLOS COELHO (já não sei se devo dizer do PPD, do PSD ou do PPD/PSD) e JOSE INACIO FARIA (do Partido da Terra) – “anda a exigir à alta-representante da União Europeia para a Política Externa” – a Senhora Federica Mogherini – um apoio explícito ao “grito do Ipiranga” do presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó.
    Não sei se estes senhores têm clara consciência do que andam a fazer, com uma situação em que a UE parece um “passador”, com a Inglaterra a querer “dar à sola”, e o resto em “manta de retalhos”. E vou-lhes recordar duas simples questões que me andam a “afligir”.
    Quando terminou a segunda guerra mundial em 1945, os USA eram os únicos detentores da Bomba Atómica. Passados todos estes anos a coisa “vulgarizou-se”: há mais bombas destas – e de outras – que, desde que vieram os turistas, há “pastéis de nata” tipo Belém. Além disso, teria todo o interesse que os nossos ilustres deputados fizessem umas “continhas” rápidas.
    Contando quem apoia Maduro – China, Rússia, Irão, Turquia, México, Nicarágua, Cuba, Bolívia que totalizam 1.824.831.000 de “almas” – o apoio a Goaidó explicito é – que eu saiba – USA e a América Latina – sem os países que apoiam Maduro – mais uma “Europa” aos tropeções, 1.191.258.000. É obra!
    Além disso a ONU – se não estou enganado – anda também de “nariz torcido” nesse “apoio”.
    Deste modo, “contando as canhotas” (1), seria bom que os senhores deputados tirassem umas férias e levassem na bagagem um frasco de ATARAX.

    (1) – O senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros deveria dar uma “palavrinha” ao senhor Deputado Assis assim como o Senhor Rui Rio ao senhor Deputado Carlos Coelho, não haja aí dedo de um outro coelho.

  3. Emília Montemor disse:

    Julgo que o comentário imediatamente acima de LC merece uma rectificação: é muito provável que o Canadá venha a “apoiar” – ainda não conheço notícia sobre isso – o golpe dos EUA contra Maduro. Sendo assim e em termos “populacionais” – que, de facto, a abstracção dos “nomes” simples dos países ilude (Portugal tem 10 milhões e o Canadá 37, “dois pesos democráticos” diferentes) – o “apoio” a Gualdo “sobe” de 1.191.258.000 para 1.191.258.000+36.710.000 (população do Canadá) =1.227.968.000. Sendo assim, Maduro está ainda – democraticamente – muito além de Gualdo e da sua “legitimidade”. Será que na UE ninguém sabe “contar”, são todos gente de “letras”?
    Daqui podemos retirar que, de facto, a Democracia é uma “batata” muito mentirosa, enquanto houver gente e países que vivam à custa de outros, como os EUA e a UE. Senão, não se compreende tamanha aflição com a Venezuela que quer deixar de “ser pobrezinha”. Ou não tem ela direito a isto lá porque os EUA – em crise – querem o seu “petróleo” e a UE também quer tirar daí umas “migalhas”? Tenham maneiras.

  4. leonel clérigo disse:

    Julgo ter todo o sentido a rectificação de Emília Montemor. Mais: julgo até que essa “contabilidade” deveria estar sempre actualizada dado que há por aí muito malandreco especialista em atirar “poeira aos olhos” do ignorante.
    E faço agora eu uma rectificação: na UE, sabem bem “contar” mesmo sendo de “letras”. O Prof. Vieira de Almeida, por exemplo, deixou-nos um livro interessante sobre “Lógica elementar” e que leva a “queimar as pestanas” a quem o quer entender. Além disso, seja de “letras” ou não, qualquer burocrata da UE tem que saber bem – pelo menos – a “tabuada”, permitindo-se assim fazer as necessárias contas de “sumir” como convém a quem pratica o “rapinanço” do trabalho alheio em larga escala.

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