Os actos traem as palavras

Manuel Raposo - Quinta-feira, 10 Janeiro, 2019

O presidente da República deixou gravada uma mensagem de Ano Novo, para português ouvir, com muitos e sisudos conselhos. Entre eles, um alerta para os perigos do “populismo” a que Portugal não estará imune. Partiu de seguida para o Brasil onde representou “o país” na posse de Bolsonaro, o “populista” mais recentemente eleito, com a agenda fascista mais explícita de todos eles. Meio mundo recusou-se a aparecer em Brasília, mas a lusa democracia não — e viu-se acompanhada de Orbán e Netanyahu, esses dois lídimos representantes da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

A ida de Marcelo, concertada com o governo, invoca em surdina ponderosas “razões de Estado”. Mas essas “razões” são as contas que o poder faz à suas próprias conveniências. No fundo, no fundo trata-se da necessidade de manter a boa ordem dos negócios, o que exige varrer antecipadamente os escolhos que possam atrapalhar a circulação de capital — a que Marcelo chamou a “importância da cooperação económica”. Se os patrões brasileiros já podem contar com as garantias de Bolsonaro de baixar salários e triturar direitos laborais, é claro que as empresas portuguesas que operam no Brasil vão disso beneficiar esfregando as mãos. Aí está o essencial da “cooperação”.

Mas o significado político da visita mede-se também pelos sinais que evidenciou.

Desde logo, o aval do primeiro-ministro e do ministro dos Negócios Estrangeiros dá mostra de como vai ser a política externa portuguesa a respeito deste Brasil. Invocar-se-á seguramente a não intromissão nos “assuntos internos” brasileiros para não abrir bico sobre as malfeitorias praticadas pela trupe de Bolsonaro. O resultado previsível será uma aceitação, em silêncio, das medidas antipopulares, acrescentada, quando muito, de umas quantas preces acerca da democracia e dos direitos humanos, para consumo interno português.

Depois, o abraço que Marcelo fez questão de dar a Bolsonaro — procurando, como qualquer jornalista atento percebeu, uma familiaridade que os cumprimentos protocolares da ocasião não suscitariam — só pode ser visto como um sinal da falta de distanciamento de Marcelo diante de um reconhecido fascista. Facto que não deixa de arrastar consigo uma atitude de subserviência de Portugal perante o poderoso “país irmão”.
O encontro entre os dois, no dia seguinte à posse, confirmou, de acordo com Marcelo, o ambiente de intimidade: foi “uma reunião entre irmãos” que decorreu em “tom fraternal”, graças a “uma empatia natural”. Disse ele, como se tivesse averbado uma vitória política!

A visita e as suas implicações — ao contrário do que pretendem Marcelo e o governo — traduzem, da parte do poder português, uma evidente falta de solidariedade para com o povo brasileiro e um apoio efectivo ao actual poder. Sobre estes factos não há que moralizar nem tentar recomendar o que deviam ou não deviam fazer Marcelo e o governo. Há sim que tomar boa nota da afinidade que os dois regimes sentem existir entre si — apesar das diferenças políticas e independentemente dos pretextos diplomáticos, culturais, históricos ou de negócios que possam ser invocados.

Adivinhando-se as provações por que vão passar as classes trabalhadoras e o povo pobre do Brasil, só a solidariedade do povo português pode contar para o objectivo de abreviar o prazo de vida do bolsonarismo.






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