Pedro Goulart

Sexta-feira, 7 Dezembro, 2018

Faleceu em 20 de Novembro, com 78 anos, o nosso camarada Pedro Goulart, vítima de ataque cardíaco.
Foi um dos fundadores e mentores do Mudar de Vida, primeiro nas reuniões preparatórias que deram origem ao projecto editorial, em 2006-2007, depois como membro da redacção e colaborador regular.
Tinha a fibra de um combatente — discreto, cordato, mas persistente. Manteve sempre viva a ideia da luta de classes como alavanca da transformação do mundo. De que só uma revolução socialista poderá pôr termo à barbárie capitalista. De que a libertação dos trabalhadores e dos povos terá de ser obra dos trabalhadores e dos povos. De que a organização e o internacionalismo são indispensáveis à acção revolucionária.

A sua militância política prolongou-se por várias décadas, praticamente desde a adolescência, ainda na Ilha do Pico, onde nasceu e onde começou a trabalhar muito novo. No final dos anos 60, já em Lisboa, empenhou-se na luta política contra o fascismo, na CDE e no PCP. Foi depois um dos fundadores e dirigente do PRP-BR (Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias) a partir de 1973. Viveu activamente os anos subsequentes ao 25 de Abril de 74 — quer nos meses de acção popular-revolucionária, quer nos anos sombrios que o golpe de 25 de Novembro instaurou.

Participou na formação da FUR (Frente de Unidade Revolucionária, 1975), da FUP (Força de Unidade Popular, 1980) e da OUT (Organização Unitária de Trabalhadores, 1981), todas elas integrando várias organizações da esquerda revolucionária.

Sob o novembrismo de Eanes e Soares, foi preso por duas vezes. Em 1978, numa onda de repressão que se abateu sobre o PRP. E, em 1984, acusado no processo do caso FUP/FP-25. Passou assim quase 6 anos na cadeia, alvo, como dezenas de outros activistas revolucionários, de uma campanha do poder visando liquidar os vestígios da onda popular de 74-75.

O Tribunal de Monsanto condenou-o a 15 anos de cadeia. Na sua defesa, disse aos juízes “que a perseguição política contra mim movida se deve à persistência do combate antifascista e anticapitalista que tenho vindo a travar ao longo de mais de duas décadas”. E acrescentou: “Ter-me-ia sido mais fácil, após o 25 de Abril de 1974 e depois das provas dadas contra o regime deposto, ter aderido aos partidos do poder e daí, certamente, retirar algumas benesses, sentando-me, como muitos outros, à mesa do orçamento do Estado”.

Uma ampla campanha de solidariedade, nacional e internacional, denunciando a perseguição política de que os presos eram alvo, pressionou o poder a fazer marcha-atrás. Em Fevereiro de 1989, o Tribunal Constitucional anulou parcialmente o julgamento e em Maio o Supremo Tribunal de Justiça decidiu a libertação de 29 dos presos, entre eles Pedro Goulart. O processo FUP/FP-25 seria parcialmente encerrado em 1996 com uma amnistia aprovada pela Assembleia da República. Os chamados “crimes de sangue” apenas em 2001 foram absolvidos pelo Tribunal da Boa-Hora.

Uma vez libertado, Pedro Goulart voltou à actividade política. Fez parte do colectivo que, desde 1985, editou a revista Política Operária. Uma sua autobiografia política, intitulada “Resistência”, foi publicada pela editora Dinossauro em 2001. Mais tarde, já como membro do Mudar de Vida, participou empenhadamente no pequeno grupo que elaborou e divulgou, em 2012, o manifesto “Enfrentar a crise, lutar pelo socialismo — uma perspectiva comunista”. Comunista convicto, nunca deixou de assinalar a natureza de classe, burguesa, da democracia em que o país vive, da justiça que é praticada, das instituições que o poder apresenta como “de todos nós”.

A sua falta, súbita, deixa o MV mais fraco. Dizêmo-lo sem qualquer sentido retórico. É menos uma voz, de entre as poucas que fazem da propaganda revolucionária, do comunismo, da luta de classe do proletariado uma dedicação para a vida. E uma voz a menos, para mais de um quadro com longa experiência militante, é uma perda inestimável.
Continuaremos, Camarada.






4 Comentários a “Pedro Goulart”

  1. leonel clérigo disse:

    Ainda não há muito tempo, num almoço de homenagem ao “Chico” Martins Rodrigues, ficámos “frente-a-frente” na mesma mesa. Falámos de “coisas” várias mas não imaginava que, tão cedo, todos nós ficaríamos mais fracos com a perda deste lutador “açoriano”. Até sempre!

  2. António Louçã disse:

    Desde os tempos da CDE, quando o conheci, muitas vezes nos encontrámos e falámos. Raramente foram reuniões planeadas, mas foram sempre acasos bem vindos, porque o Pedro Goulart era alguém que aliava atitudes firmes, opiniões amadurecidas e claras, com um trato afável e fraterno. E, se não havia motivo de especial urgência, podíamos confiar no acaso do próximo encontro, porque ele estava em todas e acabávamos sempre por encontrá-lo algures, na luta comum, nas boas causas, na rua que é de todos, mesmo nos momentos difíceis em que todos somos poucos, e fáceis de encontrar. Vai fazer-nos falta, o acaso sábio destes encontros que não eram planeados, mas tinham muita força, como tudo o que tem de ser.

  3. Maria Helena Carvalho dos Santos disse:

    Há hoje uma tendência para explicar a História… Todos são bons quando ganham… mas ganham o quê? o mal dos outros? – Nesta base, a HISTÓRIA está toda por fazer. Deixo a dica. Abraços. Espero a controvérsia!!!!

  4. leonel clérigo disse:

    “EXPLICAR A HISTÓRIA…”

    Confesso não ter conseguido entender inteiramente o comentário acima da prestigiada Historiadora Maria Helena Carvalho dos Santos. Não é que o comentário tenha, em si, algo de enigmático: a ignorância é que me não permite ir mais além.
    Mas seja como for, tudo isto “empurra-me” a reproduzir aqui uma pequena parcela da Parte V, ponto 3g – “Quem matou John Doe? – , do interessante livro de R.G. Collingwood “A IDEIA de HISTÓRIA”.
    “Quando encontraram o John DOE – num domingo de manhã cedo – caído sobre a secretária e com um punhal cravado nas costas, ninguém esperava que o problema de se saber quem fez isso fosse resolvido por meio de testemunho” (…) E o menos provável de tudo era que o próprio assassino aparecesse na esquadra local e confessasse ser ele o criminoso.” (…) quando apareceu – sob a forma de visita duma vizinha mais velha e solteirona que afirmava ter sido ela quem matou John Doe, com sua própria mão, porque ele atentara ignobilmente contra o seu pudor – até o chefe da polícia local (que não é um rapaz excepcionalmente brilhante, mas é amável) aconselhou-a a ir para casa e a tomar uma aspirina.”
    Por tudo isto, julgo que também ninguém “deveria” esperar como “explicação” plausível que, por exemplo, a lengalenga da derrota de Hitler “se resolveu” pela “acção aliada” nas praias da Normandia. Teleologias ou ciência?…Simplesmente, “poeira nos olhos”.
    E no nosso caso, a “mal-contada” História (1) continuará a persistir até quando? Na minha já referida ignorância, avanço: até os nossos Historiadores – salvo raras excepções – começarem a pôr em causa o “lixo” oficial.

    (1) – Alfredo Barroso colocou no “Jornal i” um texto deveras interessante sobre a questão da “Dívida” e como foi ela “resolvida” pelo rei de França Filipe o Belo.

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