O efeito Bolsonaro

Urbano de Campos - Segunda-feira, 5 Novembro, 2018

Pode-se chamar-lhe efeito Bolsonaro. A direita portuguesa, que até agora procurou afectar um comportamento “democrático” e “tolerante” — na medida em que a democracia lhe tem permitido manter-se no topo do poder e fazer singrar os negócios — solta agora a língua e vai cuspindo o fel que acumulou contra a esquerda, o socialismo, o comunismo e tudo o mais que lhe cheire a povo.

Mesmo quando marca distância face à boçalidade do ex-capitão brasileiro, não pode esconder a satisfação que sente por ver o PT derrotado e, mais que tudo, por sentir que pode adoptar o procedimento político brutal que Bolsonaro, e os militares alinhados atrás dele, prometem para “resolver” a crise social e a crise do capitalismo brasileiro. O homem pode ser um jagunço, mas a via política que ele abre agrada-nos — diz a direita entre-dentes.

Fátima Bonifácio, historiadora e professora universitária, é um caso exemplar. A senhora exulta no Público com aquilo que ela chama o afundamento da “Utopia socialista-comunista”. Diante das ameaças explícitas de Bolsonaro contra o regime democrático brasileiro, a sr.ª prof.ª não encontra melhor mote do que provar o falhanço da esquerda “socialista-comunista”. Não é a “sua” democracia, tão decantada, que se afunda sob a botas dos militares, incapaz de responder aos problemas sociais do país. Não: é a “utopia” de querer fazer uma política que favoreça os pobres, por mais limitada que seja. Diz ela sem corar: “Ninguém — muito menos eu —sabe ao certo o que é, quem é e ao que vem Bolsonaro”. Mas que importa isso para FB se o que interessa, no final das contas, é varrer a “utopia” esquerdista?

FB nem sequer se deu ao cuidado de olhar bem para os resultados eleitorais. Quem se afundou verdadeiramente foi o centro, o lugar tradicional das “virtudes democráticas” que a sr.ª prof.ª deve apreciar. Foram o PSDB e o MDB que quase desapareceram, mostrando que não representam para o eleitorado brasileiro nenhuma alternativa na aguda luta de classes que se trava no país. Mais, foi a abstenção pregada por estas forças que ajudou a eleger Bolsonaro. Terá já FB dado o salto para o PSL do capitão reformado e arrumado os partidos do centrão no reduto da “utopia”?

Não falta, claro, na argumentação de FB, a corrupção, que o PT (“dirigido por um ex-metalúrgico”, sublinha ela de dedo esticado), teria levado aos mais altos cumes. Falso, como é sabido: o PT deixou-se envolver pela corrupção endémica do capitalismo brasileiro e paga também por isso; mas é o sistema que a sr.ª prof.ª glorifica que não consegue viver sem untar as mãos a todos os que giram na esfera do poder — políticos, administradores, juízes, quiçá professores catedráticos. Se o “ex-metalúrgico” Lula da Silva estivesse queimado aos olhos do povo pela corrupção, não teria a seu favor sondagens que o colocavam como vencedor das eleições. Foi isto que levou a direita a montar o golpe conduzido pelo juiz Moro: decapitar o PT para abrir caminho a Bolsonaro.

FB indigna-se por a esquerda chamar fascista a Bolsonaro. Como assim, exclama ela, se 55% votaram no capitão reformado, como pode “o povo” ser fascista? Convém-lhe esquecer que, mesmo não sendo fascista, “o povo” pode apoiar um fascista — como com Hitler, Mussolini, Salazar. Ou Trump, Duterte, Le Pen, etc.. Como a historiadora bem sabe. Além de que “o povo” que elegeu Bolsonaro inclui todas as classes altas e boa parte da pequena burguesia, que não tem outra ambição que não seja defender os seus pequenos privilégios, por mais limitados. Basta-lhe que abaixo dela exista um proletariado reduzido a escravatura. É este, de resto, o “programa” da quadrilha de Bolsonaro a que FB bate palmas, mesmo sem saber ao que ele vem.

A fúria de FB em zurzir a esquerda expressa, de modo indisfarçado, o gáudio por ver um fascista (que ela adoça por conveniência) derrotar uma política de feição popular, ainda que titubeante, encarnada pelo PT, que se limitou a distribuir umas migalhas pelos pobres. E esta postura tem destinatário interno. Fátima Bonifácio vê no governo de António Costa — imagine-se! — a encarnação portuguesa da “utopia socialista-comunista” e, pelo que diz a respeito do Brasil, não hesitará em aclamar, espumando da boca, qualquer Bolsonaro luso que por aí apareça.






Um Comentário a “O efeito Bolsonaro”

  1. leonel clérigo disse:

    AVISO À NAVEGAÇÃO

    Urbano Campos parece ter lançado acima um “Aviso à navegação”. E vale a pena apanhar a deixa.

    Na origem, todas as grandes Revoluções Burguesas coroaram o seu Modo de Produção com um regime político de “Liberdade” e “Democracia”. De facto, havia, na fase inicial do capitalismo, alguma “lógica” nisto: o predomínio da “troca directa” entre produtores “iguais” e “regulados” pela “Lei do Valor-Trabalho”, parecia anunciar, finalmente, a entrada da Humanidade na sua “Idade de Ouro”: finavam-se assim milénios de “exploração de trabalho alheio”.

    1 – Erro profundo: a “utopia” durou pouco e os “Cândidos” só um pouco mais.
    O “dinamismo industrial capitalista”, depressa pôs em cheque a fase inicial de “produção mercantil simples” (Lenine: Sobre o imposto em espécie). E com aquele dinamismo industrial, foi-se o domínio político da pequena-burguesia cujo “projecto de sociedade” só poderia conduzir à “mediocridade universal” (Pecquer citado por Marx). E é assim que, em meados do século XIX, após uma curta fase “concorrencial” do Modo de Produção Capitalista, entram em cena os Monopólios.

    2 – A chegada dos Monopólios Capitalistas vai multiplicar várias formas de exploração em todo o Planeta, acelerando a instabilidade da sua dominação: a “democracia” e a “liberdade” tornam-se cada vez mais “histórias da carochinha” enganando o “popular” cada vez menos. Se a troca dos pequenos produtores entre si permitia, teoricamente, a “democracia e liberdade”, já os Monopólios têm uma regra diferente: o “rolo compressor” e o “taco de basebol”. E quem diz taco de basebol diz “reforço repressivo do Estado”, um fruto directo da necessidade de adequação ao aumento da “exploração de classe”. Por isso, o velho “Estado burguês democrático” dos Rousseau e dos Voltaire – para já não falar nos “iguais” de Babeuf – é hoje uma ficção e o que predomina no Mundo são as “formas de excepção” desse Estado: o “Bonapartismo”, as “Ditaduras Militares”, o Fascismo… e outras que resultam duma sua combinação “particular” destes ditada pelas especificidades das diferentes crises políticas locais de dominação.

    3 – O Fascismo é apenas uma forma de Regime Capitalista de “excepção” em uso. Está, na origem, associado à fase aguda das “guerras imperialistas” dos Monopólios – 14/18 e 39/45 – e, por isso, arrisca-se agora a ficar novamente na moda. E isto porque a forma Monopolista do Capitalismo, aprofundou a divisão das Sociedades em Desenvolvidas (Industrializadas) – uma minoria – e as Subdesenvolvidas (não industrializadas ou como diz quem gosta de subtilezas, Desenvolvidas “à metade”) que são a grande maioria. E por isso, é natural que as contradições sociais se agudizem exigindo serem acompanhadas por um continuado “reforço da autoridade” com particular incidência na força militar que se treina agora, nos conflitos armados “humanitários”, para embates de grande dimensão.

    4 – No final da guerra de 39/45, os USA – que só entraram nela “de raspão” – viram o seu poder prestigiado e reforçado. Mas a mais recente História passada não augura coisa boa na sua História futura. Além disso, a História mostra-nos também como a “decadência” dos Impérios arrastam consigo “turbulências sociais” de vária ordem: a situação de “crise” dos USA e o “estrebuchar” agressivo do Presidente Trump e da sua equipa, parecem sugerir isso. E nestes períodos de declínio, os Impérios acossados – mais os seus fãs – tornam-se perigosos: efectivamente é raro quem não procura resistir e por todos os meios ao seu alcance, à perda das “regalias” e à “dissolução” da ideologia que as reveste.

    5 – Desprestigiado por um comportamento continuado de “Exploração dos Povos” do mundo e por uma política sistemática de repressão da luta contra a “exploração” através de “golpes de Estado”, os USA tentam agora refazer a “Frente” perdida: é esse o significado dos Bolsonaros. Mas “pior a emenda que o soneto”: com Bolsonaros vai ser difícil “reconstruir amizades”. Hoje, é necessário dar aos povos aquilo que lhes tem sido negado continuadamente: Desenvolvimento económico-social. Já não bastam tacos de basebol e rolos compressores. É esse o grave problema dos Bolsonaros e de seus “simpatizantes”, a sua “prova dos nove”: como “abrilhantar” um capitalismo incapaz de alterar o seu “bloqueio” sistemático ao “Desenvolvimento das sociedades atrasadas”? O mísero “Desenvolvimento do Subdesenvolvimento” que afecta hoje a grande maioria dos Povos, é uma necessidade interna da Economia do Imperialismo Monopolista na sua fase Rentista assim como da sua “classe ociosa” financeira.

    (1) – https://www.youtube.com/watch?v=FebPPRNtBAU

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