Um sinal de putrefacção

Ainda o caso Khashoggi

António Louçã - Domingo, 21 Outubro, 2018

O comunicado saudita sobre o destino do jornalista Jamal Khashoggi admite que ele foi morto, porque era algo que toda a gente estava farta de saber. Mas não admite muita coisa que toda a gente já sabe. Com isso, cobre de ridículo os seus signatários sauditas e os seus co-autores ianques. Que outros políticos ocidentais irão deixar-se ridicularizar por proclamarem a sua própria credulidade perante este documento, é algo que ainda está para ser visto. E é algo que nos dará uma interessante unidade de medida para avaliar até que ponto apodreceu a democracia imperialista.

A viagem de Mike Pompeo à Arábia Saudita e à Turquia tinha o objectivo de elaborar este comunicado. O objectivo era “buy time and buy cover” (ganhar tempo e conseguir uma camuflagem, em tradução livre). A assinatura de Pompeo não está lá, mas é como se estivesse. E, onde está a dele, é como se estivesse a do presidente.

Na verdade, o comunicado é um escárnio a qualquer inteligência mediana e, de certo modo, um nariz de palmo feito à opinião pública mundial. Sustenta que o príncipe Mohamed Bin Salman (MBS) nada teve a ver com a morte de Khashoggi e, quando muito, houve um directiva sua que foi mal interpretada.

Essa directiva, diz-nos o comunicado, é a de convidar todos os sauditas exilados ou autoexilados a regressarem ao reino. No decurso da conversa em que esse convite foi feito, terá havido uma zaragata, em que Khashoggi foi morto. O seu cadáver, dizem as autoridades sauditas, ficou entregue aos funcionários locais, pelo que se desconhece em Riade que destino teve.

Por outras palavras: os 15 agentes de segurança, incluindo três coronéis e um médico-legista especializado na dissecção de cadáveres, vieram de Riade com precauções conspirativas, e postaram-se no consulado munidos de uma motosserra para “convidarem” Khashoggi a renunciar ao seu autoexílio. Quando lhe apresentaram o convite, gerou-se uma zaragata em que ele foi morto e desapareceu, nas mãos de funcionários locais (que, nesse dia, por acaso, tinham sido todos mandados para casa).

Depois, como as directivas não são para ser mal interpretadas, criam-se bodes expiatórios para a opinião pública. Assim, foram presos 18 funcionários e foi demitido o vice-presidente dos serviços secretos e pilar decisivo do genocídio saudita no Iémen. Na purga em curso, acontecem outras coisas curiosas: o cônsul em Istambul viajou para Riade sem bilhete de volta e um dos 15 membros do comando assassino morreu já num acidente de viação mal esclarecido.

À pergunta sobre se considera plausível a explicação de Riade, Trump respondeu que sim, embora a investigação ainda não esteja concluída. E à pergunta sobre o afastamento ou detenção dos bodes expiatórios respondeu que a considera um passo na direcção certa.

Mas a todas estas perguntas já Trump tinha respondido anteriormente, ao afirmar que a Arábia Saudita é uma aliada imprescindível na luta “contra o terrorismo” e que a encomenda de armas que tem nos EUA representa meio milhão de postos de trabalho. E antes desta crise, recordam agora os mais atentos, dissera também que os sauditas eram clientes das suas empresas, sempre prontos a despejarem milhões de petrodólares nas suas contas por cada casa que lhe compravam.

Apesar da atenção que tem despertado, o caso Khashoggi não é uma bandeira para novas primaveras árabes ou universais. Não haverá massas na rua para derrubar os príncipes sanguinários que mandam cometer assassínios pela calada e depois mandam limpar com lixívia a cena do crime. O assassínio de Khashoggi não é um atentado de Sarajevo, que vá pôr em movimento uma bola de neve, revolucionária ou outra.

Mas poderá ser um interessante caso de estudo sobre o grau de putrefacção do aparelho mundial dos vários imperialismos. Angela Merkel, cuja indústria de armamento continua a violar a lei alemã em chorudos negócios com os sauditas, já entendeu que não pode cobrir-se de ridículo como Trump e dizer que acredita naquela redacção de mentecaptos. E afirmou claramente que o comunicado não é credível.

Doutros políticos imperialistas, por exemplo dos australianos que acabam de anunciar a intenção de imitar Trump na mudança de Embaixada para Jerusalém, falta ainda ver como reagem. De Netanyahu, que gosta de armar-se em matreiro e perspicaz, e tem na forja uma aliança de ferro com MBS, falta ver como enfiará na cabeça o cone de papel com o estigma de cábula.

E, principalmente, falta ver como o Senado e o Congresso norte-americanos irão reagir. À tangente, essas duas instituições enfiaram o barrete oferecido por Trump no caso de Brett Kavanaugh. Dir-se-ia que a maioria de senadores e congressistas compram qualquer história, desde que seja Trump a contá-la. E o próprio Trump veio a certa altura explorar esse precedente, com afirmação de que não queria precipitar-se a condenar Riade por um assassínio não provado, como muitos se precipitaram a condenar Brett Kavanaugh por uma tentativa de violação não provada.

Ora, até senadores e congressistas republicanos que seguem o presidente com fidelidade canina dão agora mostras de inquietação e de quererem impor sanções à Arábia Saudita (aplicando-lhe a lei Magnitsky, com mandados de captura internacionais, bloqueio de contas, etc., ou mesmo embargando-lhe a venda de armas).

Não é que estes congressistas e senadores tenham, de repente, caído em si e tenham passado a prezar princípios democráticos. Simplesmente, como é da natureza de muitas violações, mesmo a palavra convincente da vítima contra as desculpas esfarrapadas do agressor tem a seu favor muito menos provas testemunhais e documentais do que um assassínio cometido à luz do dia em país estrangeiro.

Negar as evidências de Jamal Khashoggi é muito mais difícil do que negar as evidências de Christine Ford. Fingir que se acredita em Kavanaugh está, apesar de tudo, mais ao alcance de comediantes consumados, como são congressistas e senadores, do que fingir que se acredita em MBS.

É provável que venha a impor-se na conclusão do caso Khashoggi o habitual cinismo dos cálculos comerciais ou geoestratégicos. Admitir que possa haver alguma saída de emergência, pelo tubo de evacuação, não significa, como têm feito alguns comentadores encartados, sentenciar que “o sistema afinal funciona” e que a democracia faz cumprir as leis.

Significa, pelo contrário, que o sistema imperialista se encontra colocado perante a escolha dilemática entre um cinismo de pernas curtas, preocupado com os negócios de armas ou mesmo com o imobiliário das empresas Trump, e com um cinismo de visão um pouco mais ambiciosa, que pretenda manter por mais algum tempo a ficção dos EUA como “líder moral” do planeta.

Se, depois de tudo isto, senadores e congressistas acabarem por colar-se a alguma solução congeminada pela dupla Trump-Pompeo, não estaremos perante o prenúncio de algum movimento de massas prometedor para uma perspectiva socialista, mas, pelo menos, perante um sintoma de que a principal potência imperialista renunciou à última folha de parra com que tentava camuflar as suas vergonhas.






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