Assassínio de Khashoggi: sinal dos tempos

António Louçã - Segunda-feira, 15 Outubro, 2018

Jamal Khashoggi, um jornalista saudita exilado nos EUA, foi no final de Setembro ao Consulado do seu país em Istambul, para requerer uma certidão de divórcio de que necessitava para voltar a casar-se. Disseram-lhe que lá voltasse na terça-feira, 2 de outubro. Voltou e deixou a noiva à porta, com instruções para alertar as autoridades turcas se notasse algo suspeito. Foi filmado a entrar, mas ninguém mais o viu sair.

A noiva alertou as autoridades e permaneceu à porta durante doze horas – em vão. Interpelado, o cônsul disse que Khashoggi tinha saído pelo seu pé. Não esclareceu a que horas, por onde, ou em que meio de transporte.

Com uma franqueza invulgar para um país onde os sauditas têm investimentos trilionários, as autoridades turcas fizeram saber que suspeitam do assassínio do jornalista dentro do consulado e por ordens directamente emanadas de Riad.
Foi-se sabendo entretanto que não falavam gratuitamente: tinham apurado que, para esperar o jornalista, fora enviado da capital saudita um comando de quinze agentes de segurança, incluindo um médico legista. Chegaram em dois jactos privados, e partiram de volta no mesmo dia, separados uns dos outros. Mas isso não os impediu de serem todos filmados à chegada e identificados.

Além disso, a polícia turca apurou que, no dia em que Khashoggi desapareceu, o Consulado deu um feriado gracioso e inesperado a todos os seus funcionários. Lá dentro, não havia ninguém para entregar certidões de divórcio. Tal como os funcionários, todas as câmaras de videovigilância do Consulado tiveram nesse dia um apagão.
Uma coisa é certa: as autoridades consulares e o comando vindo de Riad foram os últimos a ver Khashoggi. A polícia turca suspeita que ele tenha sido assassinado, desmembrado sob a orientação do médico legista, e retirado das instalações na mala de uma viatura diplomática.

Aparentemente, nem se trata só de suspeitas. Segundo o Washington Post, com o qual Khashoggi regularmente colaborava, a polícia turca tem gravações áudio e vídeo que provam a detenção, a tortura, o assassínio e o desmembramento do corpo do jornalista com uma serra eléctrica. E essas gravações só não terão sido ainda divulgadas porque os serviços secretos turcos não querem admitir que espiam missões diplomáticas estrangeiras.

Segundo uma outra versão, o próprio Khashoggi terá activado uma função de gravador de um relógio Apple, tendo assim registado na cloud os sons do crime.
Por outro lado, comunicações sauditas interceptadas pela CIA indicavam que havia o plano de atrair o jornalista a Riad para depois o prender, ou então de o raptar num país estrangeiro. Seja como for, as evidências do assassínio são de tal modo esmagadoras que o próprio Donald Trump falou em “castigar” a Arábia Saudita.

Questionado sobre a eventualidade de um embargo à venda de armas, para materializar esse “castigo”, Trump disse logo que não, que a encomenda saudita actualmente em execução é de 110 mil milhões de dólares e que isso representa muitos postos de trabalho nos EUA. O reverso da questão é que uma encomenda tão importante representa muitas vidas de civis iemenitas, massacrados pela aviação saudita – mas esse é, evidentemente, o lado para onde melhor dorme o inquilino da Casa Branca.

Politicamente, o assassínio de Khashoggi é altamente significativo, a vários níveis. Ele interessa, em primeiro lugar, ao príncipe Mohamed Bin Salman (o famigerado MBS), que vinha sendo alvo de várias críticas do jornalista. Mas convém lembrar que críticas eram essas. Por um lado, Khashoggi criticava a estreita ligação entre o príncipe e o presidente norte-americano. Por outro, criticava o sistema de alianças em formação no Médio Oriente, em que a Arábia Saudita abre o precedente de estender a mão a Israel. Outras ditaduras, como a egípcia, sentir-se-ão certamente encorajadas a irem ainda mais longe na sua cumplicidade com o sionismo, a pretexto da necessária unidade contra o Irão.

Se se pergunta a quem interessava o crime, a resposta é multifacetada. Analistas atentos têm assinalado que a técnica sofisticada para assassinar alguém no estrangeiro parece mais aprendida na Mossad do que em Riad. Outros fazem notar que um dos aviões vindos da capital saudita com os assassinos fez escala no Cairo. E o próprio Trump se sentiu obrigado a comentar que muita gente iria estranhar vê-lo preocupado com a vida e a saúde de um jornalista. Para além da natural estranheza do facto, poderia principalmente estranhar-se que a CIA, conhecendo planos de rapto contra um exilado nos EUA, não o tenha alertado.

Mas não será a resposta a todas estas perplexidades, afinal, muito simples? Não residirá ela no interesse que todas estas forças tinham no silenciamento de uma voz incómoda?
Enfim, o aspecto mais inquietante deste assassínio é que provavelmente a voz de Khashoggi, com todas as denúncias corajosas que ele ocasionalmente emitira, nem era incómodo suficiente para justificar só por si um crime tão macabro. E se ele tivesse sido morto, nas barbas da polícia turca e aos olhos de todo o mundo, precisamente para mostrar que as regras estão a mudar e que os jornalistas – abominados pelos Trumps, Dutertes e Bolsonaros desta vida – devem entrar na linha?






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