O produto da colaboração com o capital

Manuel Raposo - Quarta-feira, 10 Outubro, 2018

Fernando Haddad, candidato do PT à presidência do Brasil, afirmou que a burguesia brasileira abandonou a social-democracia e apoia o fascismo. Sem dúvida. Mas interessaria também saber porque é que largas massas da população trabalhadora brasileira viraram costas à política social-democrata levada a cabo pelo PT nos anos em que esteve no poder. O fenómeno, de resto, é praticamente mundial, o que pode permitir tirar do caso brasileiro lições mais gerais.

Todo o percurso do PT desde que chegou ao poder, quer nos anos de vacas gordas, quer nos de vacas magras, tem de ser visto à luz da colaboração de classe com o capital que os governos de Lula e Dilma puseram em prática.

Num primeiro momento, um forte impulso das massas populares obrigou a burguesia a contemporizar. Enquanto o crescimento económico prosseguiu, foi possível aplicar importantes medidas de melhoria da vida dos pobres e dos trabalhadores, e pôr em marcha reformas de alcance social, sem que os negócios do capital sofressem com isso. A burguesia resignou-se a uma tal repartição porque o que ganhava com o acordo era mais do que aquilo que cedia.

A crise económica declarada em 2007-2008 alterou este quadro, reduzindo drasticamente a margem de ganhos do capital e castigando as receitas do Estado. Começou aí o calvário do PT porque a colaboração de classes a que se comprometera o obrigava a reduzir os gastos sociais para assegurar a estabilidade do capital e garantir o sossego da burguesia. E o capital, por seu lado, passou a recusar repartir ganhos que a crise desgastava — optando pela via do combate de classe frontal, rompendo o pacto e mobilizando para o seu lado todas as forças, incluindo as mais reaccionárias.

A corrupção — aquela que minou o PT (muito mais propalada pela burguesia, por razões políticas óbvias) e aquela, muito mais importante, que atravessa o capitalismo brasileiro e que o PT deixou que prosseguisse — também tem de ser vista como um revelador da colaboração de classes PT/Capital. Foi, desde logo, a condição para deixar correr os negócios sem sobressaltos, do modo habitual. Foi também a forma de os quadros instalados no aparelho de Estado e nas empresas beneficiarem dos entendimentos estabelecidos com o poder económico. E acabou por ser a via de o capital ter na mão o PT — tanto para obter concessões, como para, mais tarde, o afastar do poder, como sucedeu com o descarado saneamento de Dilma e a perseguição a Lula.

As duas coisas somadas — quebra económica (com a redução dos apoios aos pobres, o fim das reformas sociais e a travagem dos benefícios das classes intermédias) mais a corrupção — liquidaram o impulso das massas populares, que viram o regresso da pobreza e testemunharam o compadrio com o capital de muitos daqueles em que haviam depositado confiança. E, questão também decisiva, alienaram para o capital e para a direita parte significativa das classes pequeno burguesas.

O fascista Bolsonaro é uma figura de proa guindada ao limiar do poder por um sistema judicial viciado, agente de um golpe de Estado “legal”, e por uma tropa que se perfila, para já, na sombra. É a fachada, nua e crua, de uma burguesia capitalista em crise que não olha a meios para assegurar o poder e para o exercer da forma mais discricionária possível.
O que chega ao fim, com a sua ascensão, é a política de colaboração de classes do PT, esgotada no seu curto alcance, fraca para os embates que a nova situação emergente da crise do capital mundial exigia. Não são os “excessos” do PT ou das ambições das massas populares, como gostam de dizer a direita e os democratas centristas, que explicam este retrocesso. Pelo contrário, é a timidez das transformações operadas em 13 anos que explica a capacidade da burguesia para virar o rumo do Brasil.

A crise capitalista, no Brasil como em qualquer outro país, aponta a necessidade de tomar medidas contra o capital. Não medidas de entendimento com o capital na esperança vã de satisfazer pobres e ricos, porque esse entendimento já não é possível nas novas condições do mundo de hoje.

Estas novas condições exigem esforços para reerguer um novo combate de massas, não à sombra de uma política social-democrata (condenada ao fracasso pelas circunstâncias) mas de ataque aos privilégios do capital.
Só isso poderia, estamos em crer, renovar entre as massas pobres e trabalhadoras do Brasil o entusiasmo de agir por conta própria em defesa dos seus interesses de classe. Não tendo sido assim, os apelos à unidade democrática terão soado como um rebate tardio e vazio de conteúdo político.

Um tal impulso de ataque ao capital não se deu no Brasil nem se está a dar na Europa ou no resto do mundo. É certo que as revoluções sociais não se inventam — que elas amadurecem no seu tempo próprio e acontecem sem que se possam prever. Mas também é certo que uma política de colaboração de classes contribui de modo decisivo para matar, ou adiar, o reerguer de uma onda revolucionária em que participem plenamente as massas pobres e trabalhadoras. Justamente porque lhes retira independência e iniciativa e as deixa desarmadas diante das ofensivas da burguesia.

Se o fascista Bolsonaro chegar à presidência, o povo brasileiro vai viver dias difíceis, e os efeitos em toda a América Latina e mesmo no Mundo serão visíveis a curto prazo.
Ao menos que se entenda que não é a colaboração com o capital que responde aos problemas do povo — e que, ao contrário, só medidas de ataque ao capital, que mostrem frutos através dos embates de classe, podem renovar o empenho e a mobilização das massas populares e decidi-las ao confronto político capaz de defender os seus interesses próprios.






Um Comentário a “O produto da colaboração com o capital”

  1. leonel clérigo disse:

    CHINA

    No último parágrafo do seu esclarecedor texto, regista Manuel Raposo: “Ao menos que se entenda que não é a colaboração com o capital que responde aos problemas do povo…”
    Considero certo o que ele aqui afirma e a nossa História recente tem disso provas de sobejo. Os povos do mundo inteiro, que já se aperceberam que têm o direito aos benefícios do desenvolvimento que a Revolução Industrial trouxe e que todos, à sua maneira, para ela contribuíram, não o enjeitam e até reclamam-no já sem qualquer dúvida: o “assalto ao Mediterrâneo” e à fronteira do México com os USA – o “rumo do sul “pobre” até ao norte “rico”- parece ser prova disso. Hoje, já entra pelos olhos dentro que o que se produz – e pode produzir… – já dá para todos…Só “Tios Patinhas” – “merceeiros” que se perdem nos meandros da “contabilidade rasteira” e se preocupam apenas com sua “carreira individual” (ou de “classe”), incapazes de curtirem a pele e o cérebro – acham que não…

    1 – O “Courrier internacional” de 18 de Outubro – uma edição especial temática – vem dedicado á China. E na apresentação, o jovem editorialista Rui Tavares Guedes (RTG) diz às tantas: “Quem diria, ainda há poucas décadas, que isto era possível e que a China poderia tornar-se mesmo a maior potência mundial…”
    Desconheço porque RTG se mostra tão “surpreso”: quem conhece minimamente a História do Movimento Socialista – na Teoria e na Prática Política e Social – não se deixa invadir, tão facilmente, por esse “desconforto”. A não ser que o nosso “editorialista” esteja “vacinado” para não sentir “surpresa” perante uma burguesia (a sua) – dita “nacional” dos “quatro costados” – que se tornou “dependente” dos “poderes do exterior” e (por isso) incapaz de “desenvolver o “seu” país”.

    2 – Tudo o mundo parece “admirado” com o “desenvolvimento da China”. Mas se tivessem a coragem intelectual de pôr no lixo as patetices duma Hannah Arendt e do seu “conceito-clone” (esta é de Marc Ferro) de “totalitarismo”, podiam olhar o período de Estaline com “olhos de ver” e não com os da “globalização imperialista”. Raciocinar sobre a China de hoje implica – como sempre – “olhar para trás” com “olhos de ver” e não de “ceguinho” ou de “falso ceguinho”. É certo que os “desejos” de classe não perdoam mas não é impossível: quantos “aristocratas” de cumeada (para os merceeiros concordo ser difícil…) deitaram fora o feudalismo e passaram-se para as fileiras burguesas? Tratou-se duma questão de “visão”, do que era “certo”, de percepção clara do futuro…e que o burguês há muito perdeu.

    3 – O Capitalismo – julgo – será o último Modo de Produção – na História do Homo Sapiens – que se baseia na “exploração do trabalho alheio”. Se, na História que ficou para trás e dando de barato, parecia “impossível” – ou “utopia” – o fim dessa “exploração”, hoje – com a “alta tecnologia” disponível – já se vislumbra o seu fim e que é visível já na “preocupação” do que fazer à “mão-de-obra”. Por isso, é já possível descortinamos um Capitalismo arremessado para o “caixote do lixo” da História: é uma questão de tempo e de mais outras coisas que MR descreve acima.

    4 – O Brasil de hoje, como o de ontem, é uma “fotocópia” de todos nós, dos “deserdados da sorte” do Império do G7. Por isso a “chave” da sua “compreensão” não só está no “perigo” da sua “aliança” com a China (Boaventura Sousa Santos dá boas dicas sobre isso) mas no “exemplo” que poderia provocar – e foi incapaz de dar até agora – no resto do Império do Capital. Se o capitalismo é, em si – já o demonstrou e continua a fazê-lo todos os dias – incapaz de desenvolver todo o mundo dos Homens e das Mulheres deste Planeta, já não acontece isso com o SOCIALISMO – primeira etapa “desenvolvimentista” do COMUNISMO – quando não é entendido como “flatus”, um “produto” de “Homens maus”, fazedores de “Gulags” e ”comedores de criancinhas ao pequeno almoço”. A China – tal como a Rússia de Estaline que derrotou Hitler e nos devia fazer pensar quem, afinal “origina” o nazi-fascismo – demonstra-o.

Deixe o seu Comentário