Porque são os gestores pagos a peso de ouro

Urbano de Campos - Sábado, 29 Setembro, 2018

O projecto de lei do BE que pretende impor um tecto às remunerações dos gestores de empresas não pode ambicionar senão “moralizar” o rega-bofe que por aí vai. Ou, quando muito, caso fosse levado a sério pelo poder, “acabar com a pouca vergonha”, como alguém, ingenuamente, disse. Mas não mais do que isso. De facto, querer pôr regras nos salários de privilégio — que, no caso das empresas mais importantes, chegam a ser 32 vezes superiores aos salários médios respectivos — pode disfarçar o escândalo, mas deixa intocadas duas coisas básicas: os lucros patronais e o seu reverso, os salários baixos.

O patronato e a direita que o serve argumentam, como sempre nestes casos, que o Estado não deve interferir com a gestão das empresas privadas. Argumentam, na mesma linha, que o dinheiro das empresas privadas só a elas diz respeito e que o podem aplicar como quiserem, sem que o Estado aí se intrometa.

Escondem o facto de o Estado e o Capital não serem entidades alheias uma à outra, e que, pelo contrário, o papel fundamental do Estado é assegurar a estabilidade e a continuidade dos negócios capitalistas. Escondem igualmente que não há uma divisão estanque que separe a economia privada da economia “pública”. Como se prova constantemente quando o Estado é chamado, com o dinheiro de toda a massa trabalhadora, a salvar da ruína empresas privadas ou a subsidiar a sua actividade. O socorro prestado ao sistema financeiro, à custa de todos nós, na sequência da crise de 2008, é apenas o exemplo mais descarado disso mesmo.

O cinismo destes argumentos vê-se, por exemplo, nisto. Uma das medidas propostas para penalizar os leques salariais “excessivos” (de acordo com a lei em discussão) é limitar o acesso das empresas infractoras aos apoios públicos ou a sua exclusão de concursos públicos. Contra isso levantaram-se os brados indignados das organizações patronais — evidenciando que não querem que o Estado “interfira” na sua gestão privada, mas querem beneficiar das iniciativas estatais…

À falta de outros argumentos, o patronato fez valer a ameaça e a força.
Um insigne professor de economia e gestão, João Duque, avisou: “Cuidado, é muito simples melhorar os rácios entre salários altos e salários baixos. Basta despedir o pessoal da limpeza ou dos telefones e contratar fora esses serviços”. Eis um tipo específico de “gestor”: aquele que habilita o patronato com todo o arsenal de truques para tornear as leis desfavoráveis. É esta uma das sumidades que formam os economistas e gestores nacionais!

Definitivo, o líder da Confederação do Comércio não deu à proposta do BE mais importância do que uma “vantagem política ou eleitoral”. Vieira Lopes sentenciou que, tratando-se de “assunto interno” das empresas, a decisão sobre os salários cabe aos accionistas e, portanto, o impacte da lei será “mínimo ou nulo quanto à redução das desigualdades salariais”. Fica pois o aviso, desde já: “não pensem que, por limitarem os vencimentos dos gestores, vamos aumentar os salários dos trabalhadores”.

Em termos práticos, patronato conseguiu, desde logo, que o PS, colocado perante o projecto de lei do BE, inventasse uma modalidade intermédia: uma recomendação ao Governo para levar o assunto à discussão na Concertação Social — onde as organizações patronais, todo-poderosas, darão o destino que entenderem ao assunto, obviamente. Foi este o subterfúgio do PS para chumbar, ao lado do PSD e do CDS, a proposta do BE, como sucedeu na votação de dia 28, dizendo que “não descura” o assunto.

Para lá das questões de “moral” e de “pouca vergonha”, que não vêm ao caso, cabe perguntar o que leva as grandes empresas a agarrarem-se com unhas e dentes ao direito de, livremente, pagarem altos salários aos gestores que contratam.

Fazem-no porque tais gestores são os especialistas da maximização dos lucros, da extorsão científica da mais-valia dos assalariados, do apuramento da concorrência que pode colocar uma dada empresa em vantagem sobre os competidores. Esta é, sob o capitalismo, a condição de as empresas “progredirem”.

Tais especialistas são pagos a peso de ouro, não por imoralidade, relaxe ou esbanjamento da parte do capital — que sabe bem a necessidade de reduzir custos, sejam eles quais forem. São beneficiários de altos privilégios porque o trabalho deles é crucial para explorar mão-de-obra até ao limite, vender produtos, realizar mais-valia, especular, fugir a impostos, tornear a lei, aplicar capitais ou pô-los a salvo, etc.. (*)
O único critério que o Capital usa para limitar o vencimento de um gestor é saber qual a relação numérica entre esse vencimento e o acréscimo de lucro resultante da sua actividade. É em função disto, e não porque desempenhem um papel em prol da sociedade, que eles são pagos.

(*) O comunismo, na suas curtas manifestações históricas — nomeadamente sob a Comuna de Paris e o poder Soviético — resolveu o problema de forma simples, estabelecendo que a remuneração dos quadros, directores, gestores, etc. seria correspondente ao salário de um operário qualificado. Dava assim à função um sentido social e comunitário, subordinada ao interesse de classe da massa trabalhadora.






2 Comentários a “Porque são os gestores pagos a peso de ouro”

  1. leonel clérigo disse:

    CATARATAS

    Quando a velhice nos ataca, trás com ela um conjunto de “presentes” e, entre estes, é o “cristalino” que começa a pifar por mor das “cataratas”. E deste modo, uma pessoa torna-se incapaz de “enxergar um boi à frente do nariz”.
    Mas há que notar que existem outras variedades de “cegueira” que não afetam só e principalmente a velhice: uma delas é a que José Saramago relata no seu “Ensaio” e uma outra ainda – que não lhes fica atrás – é a chamada “poeira nos olhos”. Esta última “cegueira” é altamente perigosa e principalmente originada no contacto com a maioria dos orgãos de comunicação social assim como na maioria dos “discursos” dos nossos políticos.

    1 – Urbano Campos refere no texto acima que “o único critério que o Capital usa para limitar o vencimento de um gestor é saber qual a relação numérica entre esse vencimento e o acréscimo de lucro resultante da sua actividade”. Esse “critério” é uma coisa linda de se dizer mas estou convencido que nem o Newton nem o Leibniz juntos o conseguiriam calcular com precisão satisfatória.
    Resta-nos então a questão de “fundo”: como é que estes “sábios” conseguem o milagre dos espantosos “acréscimos de lucros”, precisamente quando as Sociedades andam a “miar”? Esta é a verdadeira questão: como é que homens de “mediana estatura” – para não dizer “medíocres” – conseguem arremessar estas “pedradas ao charco”?

    2 – Não é preciso fazer uma grande reflexão filosófica sobre os Partidos (não confundir estes com a maioria dos Deputados que ronronam nas bancadas) para se saber que a sua posição no sistema do “poder político” é decisiva: são eles os guardadores do “segredo dos Deuses” e isto “vale muito dinheiro” no “mercado”.
    Mas também não é difícil entender que uma máquina daquelas é “pesada” quando atinge uma razoável dimensão, necessitando por isso de muito “papel colorido” igual aquele que as máquinas “Multibanco” vomitam.
    É certo que o Estado “subsidia” os partidos (por exemplo: uma certa quantia em função da “votação” obtida) e os militantes podem também “ajudar” com suas “cotas” e outras “coisas” que “enchem malas”. Mas também parece igualmente certo que, por vezes, surgem noticias de “dívidas” que não são tão pequenas quanto isso. Os Partidos são barcos de grande calado que só podem navegar em águas profundas. E o facto de se tentar fazer “análises” ao “calado” não significa que não se goste de barcos nem de navegar.

    3 – Pergunta-se agora: onde arranjar então o “carcanhol” necessário à sobrevivência em “economia aberta”?
    Vim a saber, recentemente, que o Deputado José Eduardo Martins do PPD e enquanto sócio da PIC-NIC, organiza “eventos musicais”. E veio-me a “ideia”: porque não os lucros desta “operação” – e de outras – irem direitinhos para o Partido depois de retiradas as “despesas”? Um “homem de Partido” é assim: esforça-se. E quem diz “eventos musicais” diz comprar uns quantos garrafões de “bagaço” ao “produtor” – a preço justo… – para vender aos turistas com “lucro” e dar o que sobra ao Partido. É tudo uma questão de “imaginação”, de “boa contabilidade” e “gestão” à altura, sobretudo se for orientada pelos conhecimentos do ilustre Prof. João Duque.
    Pode haver quem diga – e respeito essa opinião… – que isto é uma “estratégia ”à merceeiro”, à “poucochinho”, sem a dimensão de “Supermercado”. E sendo assim, as dívidas arriscavam-se a transformar em “impagáveis”, tal como a de Portugal. Certo! Mas se “alargarmos a coisa” e imaginarmos um “empreendedorismo” de “alto gabarito” – como a da empresa que acompanha o texto acima de Urbano Campos – aí a coisa já pode mudar de figura. E assim, ganha a “EMPRESA, ganha o GESTOR, ganha o PARTIDO e, sobretudo, GANHA O PAÍS que passa – no caso – a “beneficiar” de “rendas excessivas”. Deste modo e com uma boa e “justa contabilidade”, toda a gente fica contente…

    4 – Contudo, é necessário dar atenção a um aspecto que se pode tornar “complicado” e provocar, como se costuma dizer, “tensões sociais”.
    Saiu há pouco tempo atrás um livro curioso com o título “O Centro do Mundo”. E logo ao abrir o Capitulo dois coloca a autora – A. Cristina Leonardo – o “seu” personagem Boris numa situação delicada: a possibilidade do pé lhe escorregar – fruto da “surpresa” de “recém-chegado” – ao pisar a “cabeça decapitada da sardinha no lancil”.
    É isto mesmo: há sempre que contar com eventuais “escorregadelas” – com sardinhas ou sem elas – e evitar as complicações que possam daí surgir, mediáticas ou outras…

  2. afonsomanuelgonçalves disse:

    Mais uma proposta “simpática” do reformismo oficial da social-democracia, mas que é gato escondido com rabo de fora. Sobre o ordenado mínimo nem uma palavra, no entanto noutro contexto já os ouvi falar nos 600 que agora ficam de fora e sobre o tecto máximo entram mudos e saem calados. No fundo esta proposta populista e demagógica serve apenas para adoçar a consciência de trabalhadores que ainda acreditam neste vendedores da banha da cobra. Claro que os proponentes conhecem perfeitamente quais foram as resoluções tomadas pela Comuna de Paris e pelo Partido bolchevique após o triunfo da Revolução Russa , mas isso como costumam justificar é coisa do passado e esta desactualizada com os progressos de séc. XXI. Com papas e bolos se enganam os tolos e «eles» lá vão cantando e rindo,,, levados, levados sim.

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