O verão do nosso descontentamento

António Louçã - Terça-feira, 11 Setembro, 2018

Um outro Verão, de todos os perigos e de todas as promessas, foi quente e acabou mal. Agora, mesmo com alterações climáticas, todos são igualmente cinzentos e deprimentes e já antes de começarem tem um mau fim anunciado. Este, de 2018, não foi especialmente seco nem quente, mas como podiam faltar-lhe os incêndios? Onde em 2017 ardeu Pedrógão, agora ardeu Monchique. Empresários turísticos logo apareceram de mão estendida, a fixar prazos ao Estado para lhes restabelecer as condições do negócio.

Irão eles ser ouvidos? A população de Pedrógão continua à espera da reconstrução de casas de primeira habitação. Entretanto, pardieiros que não eram usados por ninguém e não ficaram pior depois do fogo, têm sido transformados em elegantes casas de férias com os dinheiros destinados à reconstrução.

Este governo, e todos desde aquele verão quente sem fogos florestais, é indiferente ao sofrimento das populações, mas muito sensível aos caprichos de qualquer lobby — imobiliário, turístico, industrial, ou outro.

Dir-se-ia, portanto, que só o negócio do turismo pode pôr um freio ao negócio das celuloses e à eucaliptização do interior. Com a mesma lógica, dir-se-ia que só o negócio do turismo pode barrar o caminho à exploração de petróleo na costa algarvia ou na costa vicentina.

Terá a geringonça coragem para escolher entre um negócio e abdicar de outro, ou de outros dois? Suponhamos que sim, e que num qualquer momento se renuncie a essa sofreguidão de ganhar dinheiro em todos os tabuleiros, que haja o desassombro de representar um interesse essencial contra interesses secundários da burguesia.

Supondo que se opta pelo turismo contra a Portucel e contra a Galp, estar-se-á, ainda assim, a optar pelo turismo contra os interesses da grande maioria da população. Se um dia se limitar a eucaliptização para ter um interior mais atraente para o turismo, nem por isso se terá limitado a desertificação do mesmo interior, com todas as implicações que ela tem sobre a prevenção de fogos florestais.

Igualmente, a opção pelo lobby do turismo vai agravar a gentrificação das cidades, que ainda há poucos dias se manifestou da forma mais gritante no acesso às universidades: é cada vez maior o número de estudantes que se vêem impedidos de estudar em Lisboa e Porto devido aos preços incomportáveis dos alugueres. Ao mesmo tempo que prolifera o alojamento local, disparam os preços de alugueres para habitação, em prejuízo de quem vive, trabalha e estuda nas cidades.

Estaremos nós condenados a assistir, como espectadores, a uma guerra entre os loobies de vários negócios? Sim, enquanto mobilizações como a Marcha Mundial do Clima continuarem limitadas a uma minoria activista. Só um empenhamento generalizado das mais amplas camadas populares poderá travar a pilhagem de recursos, a destruição do ambiente e a degradação da vida urbana.






Um Comentário a “O verão do nosso descontentamento”

  1. leonel clérigo disse:

    “FASHION”

    No meio do texto acima de António Louçã, há – entre outras – uma justa preocupação: “…que haja o desassombro de representar um interesse essencial contra interesses secundários da burguesia.”
    A sugestão é boa mas uma longa “prática” já nos meteu na cabeça que o “nosso” burguês só se “interessa” pelo “secundário”, pela “aparência”, por “fashion”, transportando para a política essa sua “paixão” ou melhor, essa férrea “necessidade” imposta pela condição de eterna e obediente “Burguesia Dependente/Subdesenvolvida”. Era a Prof. Ferreira Leite do PPD – sempre a maldição do PPD… – que nos ensinava a “boa” regra “democrática” do burguês: “Quem paga, manda!…”

    1 – Num tempo próximo e relativamente escasso, vamos assistir a um “amplo” quadro eleitoral que irá (ou deveria…) chamar o Povo Português a “iluminar-se” e pronunciar-se sobre os mais “importantes problemas” que afligem o nosso destino: a eleição dos deputados para o Parlamento Europeu, a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, a Eleição da Assembleia da República, a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores e a Eleição do Presidente da República.
    Seria “interessante” que este quadro eleitoral próximo pudesse servir para “levantar” e “equacionar” os sérios problemas de fundo – “essenciais” no dizer de Louçã – com que se defronta, há largo tempo, a nossa Sociedade. Mas tudo indica que não vai ser assim: pelo andar da carruagem, vamos mais uma vez assistir a “manobras de diversão” (os incêndios e suas várias “consequências”, os diferentes interesses corporativos, os julgamentos do “gamanço”, a “descentralização”, o mau funcionamento dos Hospitais, o lixo (provocado…) em Lisboa, os transportes…) lançando poeira nos olhos para que tudo fique na mesma e os portugueses continuem presos pelo pescoço. Tudo é “à merceeiro” e “avulso” nesta terra…Nada por “atacado” e planeado.

    2 – A Senhora Dona Cristas – do CDS – que foi ministra da Agricultura e tinha, por isso, obrigação de pôr cá fora os problemas deste “sector” e apresentar soluções – que não sejam só para os eucaliptos -, que faz ela? Dedica-se a apanhar “cotonetes” nas “praias da linha” e a dizer, sem mais e ocamente, que tem “alternativa”. Qual? Onde está essa “alternativa” para anular o nosso Subdesenvolvimento e Industrializar o País? Não seria melhor a Senhora Dona Cristas deixar de apanhar “cotonetes” – entregando essa tarefa ao especialista Senhor Nuno Melo – e fechar-se no gabinete fazendo, com a sua enorme sabedoria e a experiência, um Plano Agricola para o País?
    Quanto ao Senhor Rui Rio parece ele um pouco diferente dessa “plêiade” Neoliberal que girou à volta do ilustre Prof. Passos Coelho. É certo que estes “intelectuais opositores” andam a querer “entalar” o Senhor Rio. Mas que interessa isso se o “cerco” é de consistência “oca” e não dão “uma para a caixa”.
    Sem dúvida, parece o Senhor Rui Rio ter outra “estaleca” que não a dos seu “analfabetos” pares. Dizem que a sua “formação” – de toque alemão – quebrou-lhe um pouco o estilo “desenrascado” à portuga e que é mato lá pelas bandas do Minho ao Mondego. Se isso fôr verdade – e até há disso alguns indícios discursivos – talvez tenhamos aqui um novo Otto von Bismarck (com F. List e tudo…) o que é, na prática, de longe preferível à verborreia inútil da “anarqueirada liberal” de vários matizes à PPD. E já que ninguém nos ouve aqui, talvez a Industrialização à qual a nossa ilustre burguesia capitalista é avessa por “natureza”, tomasse um novo impulso, explicando ele agora aos portugueses quais os passos (salvo seja!…) para se lá chegar. E do mal o menos!…

    3 – Quanto às denominadas “Esquerdas encostadas” – que a Dona Cristas parece preferir que fossem “unidas” como foi a”direita” – a questão põe-se de outro modo: é sua obrigação (!) opôr-se aos “votos em branco” e “orçamentos de circunstância”, passando a explicar ao Povo Português as “regras do jogo” necessárias para “Desenvolver o País”, Industrializando-o. E não há outra maneira: o resto é conversa fiada com aldrabices à mistura.
    Por isso, o futuro da Terra Portuguesa vai exigir também do seu Programa uma séria clareza, uma viagem – simples, como fazem os que sabem bem a “lição” – pelos aspectos essenciais da nossa estrutura económico-social, tornando-a “pública” sem ser envolta no palavreado obscuro dos ignorantes ou dos “malandrecos”.
    É claro que esta “tarefa” não é “pêra doce”. Os inimigos externos do nosso Desenvolvimento são fortes: os “Desenvolvidos” do norte europeu e seus aliados cá dentro que dispõem – ainda – de “enorme” peso.
    Mas se o Povo Português quiser mudar o seu destino, terá que arregaçar as mangas, tirar os “óculos escuros” de ceguinho – melhor: ou de falso ceguinho – para poder ver bem em quem vai optar.
    E não pode “esquecer” que esta nossa fraca burguesia capitalista tem uma longa história de “obediência” ao exterior e onde a “manha” é muita e de “boa qualidade”. Mas bastaria – nem que fosse para tirar a “prova dos nove” – uma maciça mudança de voto – reduzindo a zero o famigerado “Arco da Governação” – para a “pôr de calças na mão” e ter mais cuidado no futuro com as aldrabices que põe cá fora.

    4 – É costume, quando queremos ver nossos “desejos” realizados, invocar uma santa. E tenho eu fé na Nossa Senhora da Agrela…Mas se esta santa – fruto da vaga turística – se tiver recentemente convertido às delícias pagãs da Globalização – ou seja, ao Imperialismo – não nos resta senão virarmo-nos para uma santa “populista” do Terceiro-Mundo. E assim, “Valha-nos a Virgem Santa de Guadalupe…” aparecida – também ela com aureola e tudo – no sopé do mexicano monte Tepeyac,

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