Maio de 68: mais do que a agitação estudantil

Manuel Raposo - Quinta-feira, 10 Maio, 2018

Cinquenta anos passados, não há propagandista, por mais rasteiro, desta burguesia em fim de festa, que não se compraza em declarar morto o movimento de Maio de 68. A evocação que toda a comunicação social dele tem feito — em tom de enterro festivo — só tem lugar, aliás, pelo facto de as classes dominantes considerarem que a coisa é hoje inóqua e que as “transformações” reclamadas nas ruas foram absorvidas pela sociedade burguesa.

De facto, enquanto os movimentos sociais revolucionários não averbarem uma vitória contundente, os seus impulsos serão sempre ou esmagados ou absorvidos. Mas não é isso que lhes retira significado. Não será, pois, o sorriso condescendente para com a “festa”, a “imaginação ao poder”, a busca da “felicidade” e demais banalidades com que são pintados os acontecimentos de então — desvalorizando o seu fundo — que anula o sentido revolucionário daquele escasso mês de Maio. Nem o seu fim súbito é sinal de vitalidade da sociedade burguesa de então ou de hoje.

À distância de 50 anos é possível ver o Maio de 68 não como um evento isolado, saído do nada, mas como mais uma erupção de uma cadeia de acontecimentos.
O vazio revolucionário que era a URSS da época, tinha como contraponto a revolução cubana, feita nas barbas do imperialismo ianque. A China erguia a bandeira do internacionalismo e da luta anticolonial. A guerra do Vietname, que tinha expulsado e amesquinhado os franceses em 1954, recrudescia agora contra o gigante norte-americano. Guevara tentara em África e na América Latina “Criar 2, 3 Vietnames”. Os regimes do leste europeu davam sinais de ruptura. A Argélia, seis anos antes, libertara-se, à custa de muito sangue, dos colonialistas franceses, provocando uma mudança de regime na própria França. As guerras de libertação das colónias portuguesas e a do Vietname geravam oposição e solidariedade à escala internacional.

Poucos anos depois, as crises económicas de 73-74 mostraram que o capitalismo mundial entrara numa curva descendente — sinal de que o desenvolvimento, aparentemente interminável, do pós-guerra tinha chegado ao fim. E nessa curva arrastava as esperanças de uma vida melhor de milhões de trabalhadores — e em parte das próprias classes médias, antes embebedadas com um “progresso” que parecia eterno.

Por tudo isto, o Maio de 68 não foi apenas francês. Vários outros países, sobretudo da Europa, entraram em ebulição em 68 e em 69. Como sucedeu também em Portugal, oprimido por um regime fascista e a braços com uma guerra colonial mortífera que esgotava os magros recursos do país.
Este sentido internacional dos acontecimentos revela uma raiz mais funda do que a simples agitação estudantil. Precisamente, esse é um dos aspectos que os poderes actuais procuram ignorar, por razões óbvias.

Na verdade, o que mais assustou na altura o poder francês — e fez pôr as barbas de molho aos demais regimes europeus — não foi apenas a virulência dos estudantes, mas a entrada em cena da população trabalhadora com uma participação maciça da classe operária. Dez milhões de grevistas paralisaram a França. O presidente da República, De Gaule, refugiou-se na Alemanha preparando o contra-ataque, com ameaças e preparativos de intervenção militar. Valeu-lhe o serviço prestimoso do PC Francês e da CGT, já então reformistas até à medula, que em vez de incentivarem o lado político do movimento laboral o reduziram aos ganhos salariais, despolitizando-o.

Um outro aspecto, sempre desprezado pelas comemorações “oficiais”, merece atenção. Tratou-se de uma revolta de massas que decorreu num país desenvolvido, parecendo na altura ser uma excepção à regra dos movimentos revolucionários do chamado Terceiro Mundo, colonizado e subdesenvolvido. Mas à luz do que hoje sabemos e vemos, Maio de 68 foi um sinal de que as condições para as revoltas sociais se aproximavam do Primeiro Mundo.

A sucessão de crises do capitalismo mundial entretanto desenrolada, culminando na de 2007-2008 — sem solução à vista, revertendo condições de vida julgadas por adquiridas, degradando sem precedentes a condição da massa trabalhadora (e até mesmo das classes intermédias), acentuando desigualdades escandalosas — trouxe para o mundo desenvolvido e pôs à vista as chagas sociais que o capitalismo dito “triunfante” atribuía ao Terceiro Mundo.
Mas não só. A decadência dos regimes políticos, das suas instituições, dos seus valores morais — que acompanha, lado a lado, a sua decadência económica — mostra que o capitalismo chegou a um estado de velhice que nada conseguirá inverter.
E é quanto a isto que o breve Maio de 68, sem o saber, foi precursor — por ser um sinal dos tempos.

Vem a propósito o desabafo de Marx, numa carta a Arnold Ruge, escrita em Maio de 1843: “Não se pode dizer que eu tenha em alta consideração o tempo presente. E se, apesar disso, não desespero dele é porque a sua situação desesperada é precisamente o que me enche de esperança.”
Cinco anos depois, rebentavam em França e por toda a Europa as revoluções de 1848, em que Marx e Ruge participariam empenhadamente, e que mudariam a face do Velho Mundo.






Um Comentário a “Maio de 68: mais do que a agitação estudantil”

  1. afonsomanuelgonçalves disse:

    Curiosamente, quem lê as análises históricas sobre Maio de 68 e a Revolução Russa, depara-se com a grande importância dada à 1ª e a crítica insignificante da à 2ª. Sem querer levantar polemicas cito um pequeno excerto do livro A Política do Rebelde de Michel Onfray, actual prof. catedrático da Sorbonne. « O i«feudalismo atacado com a ajuda da democracia e da igualdade por intermédio do cidadão. a industrialização capitalista posta em causa pelo socialismo, pela democracia, por intermédio do trabalhador, apenas estavam à espera do capitalismo criticado segundo o princípio libidinal e libertário. por intermédio do indivíduo, cuja data de nascimento é, incontestavelmente, Maio de 68… Tanto melhor, não é preciso ter o acordo dessa gente castrada». Claro que a Revolução Russa foi apenas um pequeno epifenómeno da História recente, burguesa e condenada ao fracasso. De Maio de 68 sucedeu o grande “reformador” Pompidou e seus muchachos seguintes. O vazio da História enche-nos o coração de emoções fortes.

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