Tratado europeu

A euro-impostura, ou a forma de eliminar democraticamente o povo

M. Gouveia - Terça-feira, 18 Dezembro, 2007

prestidigitacao.jpg“Eles vêm não sei de onde para nos fazer andar a pé” (morador em Belém, de 75 anos, perante as alterações ao trânsito provocadas pela assinatura do Tratado nos Jerónimos)

À classe dos eurocratas – para sua autopreservação e para que mais livremente possa tomar as decisões que convêm à minoria a quem serve e obedece – não interessa que haja um debate político e um espaço público europeus que aproximem os cidadãos, esclarecendo-os, interessando-os e implicando-os nas questões europeias. Os povos estão afastados dos assuntos da Europa porque, deliberadamente, deles são afastados.

É nesse sentido que os eurocratas vão criando instâncias que lhes permitem exercer o poder à revelia da opinião e da vontade popular. “Que culpa têm eles que o povo não se interesse por coisas tão importantes e que lhe dizem respeito?” Mas esse desinteresse tira-lhes legitimidade, e isso preocupa-os. Para manterem a ilusão de democracia têm de conseguir que os cidadãos aceitem como úteis e necessários os processos que vão tecendo. Assim apareceu a Constituição Europeia. Para levar os povos a legitimar instituições que governam longe deles e cada vez mais contra eles.

Mas, como mesmo assim ainda aconteceu as populações manifestarem-se contra medidas cujo conteúdo era obviamente contrário às suas espectativas e anseios – e por isso falhou a Constituição –, os gestores da Europa tiveram de dar um novo passo na euro-impostura. Reeditaram agora a Constituição em forma de Tratado, usando a forma para afastar “democraticamente” os cidadãos.

Porque o Tratado é para ser lido por especialistas, compreendido por especialistas, discutido por especialistas. Cabe perguntar: especialistas em quê? Ouçamos um “especialista”: “O Tratado é muito confuso, complexo de mais, (…) o que interessa agora é que seja aprovado. Ele é um passo em frente. Exigir o referendo é uma forma de bombardear o Tratado que ainda não foi explicado, até porque é difícil fazê-lo” (Mário Soares).

Em Bruxelas pressionam-se os países para concluírem quanto antes o processo interno de ratificação. Em Portugal haverá debate sobre a necessidade, ou não, de ouvir o povo. Sobre quê? Um texto inacessível esvazia de sentido a consulta popular. Mas, por outro lado, se chamar a população a pronunciar-se sobre um assunto que não domina, Sócrates, ajudado pelo PSD, poderá exibir sem risco o cumprimento da promessa eleitoral e avalizar a aprovação do Tratado com o processo mais democrático que existe: o referendo. Porque poucos se mobilizarão para dizerem “não” a algo que não compreendem. E não compreendem porque foi escrito para não ser compreendido. Para converter um documento fundamental para o futuro de centenas de milhões de cidadãos num poderoso instrumento para os neutralizar, deixando-os à mercê daqueles que não o tornaram inteligível para lhes retirarem o direito a ter opinião.

Nem toda a propaganda consegue esconder o total desprezo pelas pessoas que isto revela. O referendo serviria, pelo menos, para tornar clara a obscuridade em que se vai unificando a minoria que governa a Europa. E para tornar claro que os povos não podem entregar os seus destinos nas mãos de quem por eles tanto desprezo manifesta.

Como diz o poema de Sophia de Mello Breyner Adresen: “Com fúria e raiva acuso o demagogo e o seu capitalismo das palavras. Com fúria e raiva acuso o demagogo que se promove à sombra da palavra. E da palavra faz poder e jogo. E transforma as palavras em moeda como se fez com o trigo e com a terra”.






3 Comentários a “A euro-impostura, ou a forma de eliminar democraticamente o povo”

  1. Ricardo Ramalho disse:

    Ok, vamos supor que fazemos o referendo por momentos. O que vão explicar às pessoas? Uns vão gritar “fim da soberania”, “fora com a Europa”, “parlamento/comissão europeia – chulos” e outras que tais. Outros berram o típico capitalista “Com responsabilidade”, “Serenidade”, “Nós Acreditamos”. É só imaginar o que são referendos do tipo “Sim”/”Não”. Vão-se extremar posições, fazem-se debates que ocupam as TV’s e não esclarecem ninguém (lembram-se dos debates sobre o aborto?… sobre a regionalização?…), e depois? No fim ainda calha a malta a votar “Não”, porque ao não perceberem nada sobre o tratado mas querem “dar um cartão amarelo ao Sócrates”. Depois disso tudo, como ficamos nós na UE? É uma questão relevante, goste-se ou não da ideia da Europa. Já me agradou mais como ideia de princípio… Mas um referendo que acaba por se tornar inócuo (sim… porque depois haveria de haver mais um referendo e seria aprovado… como vai ser na Venezuela, ou como foi o aborto por cá).

    Abraço!

    Continuem! 🙂

  2. ezer disse:

    É preciso dizê-lo: a ‘malta’ não quer saber disso pra nada. Quer futebol em barda, futebol de salão, telenovelas, danças da treta,e tele caridade. Isso é prós especialistas. A merda que se fez no Iraque não interessa pra nada, isto é que é um povo unido europeu. Quando começarem a chover bombas no meio depois queixem-se, miséria às toneladas. Mas, este povo não se mexe perante os ditos ‘especialistas’ – é uma gente de merda. De qualquer forma nunca vi nenhum povo ser governado por uma democracia!! É de forma ditatorial.

  3. Manuel Baptista disse:

    A «democracia» deles não tem nada que ver com a nossa.
    Dentro das instituições do poder eurocrático, há -quando muito- lugar para uma falsa «representação» do povo.
    O significado de democracia, o poder do povo, foi subvertido e ocultado, mas isto foi realizado com a conivência de todos os que entraram no jogo parlamentar. Assim, eles «legitimaram» , no mínimo, os mecanismos instaurados.
    Como mais um passo no processo de integração no sistema eurocrático, os partidos de «esquerda» apenas reclamam o «referendo».
    Porém, o referendo, em si mesmo, não é democrático.
    Se as pessoas não tiverem oportunidade de influir -de uma forma ou de outra- durante a discussão de uma mudança de fundo, um processo constitucional, chame-se ele tratado ou outro nome, é evidente que tal processo não ficará «legitimado», por um simples referendo que venha apenas coroar a enorme quantidade de desinformação e demagogia, desenvolvida pelos arautos do tal tratado!

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