As “armas de destruição massiva” ainda rendem

Urbano de Campos - Sexta-feira, 30 Março, 2018

A campanha contra a Rússia, com a expulsão de dezenas de funcionários diplomáticos — a pretexto do envenenamento de um ex-espião russo ocorrido em Inglaterra — tem todos os traços e mais algum de uma montagem combinada dos EUA e do Reino Unido. E enquanto não houver, como certamente não haverá, provas provadas das acusações feitas pelo governo britânico, é como uma montagem que o caso deve ser tratado. Tal como as armas de destruição massiva o foram para a invasão do Iraque. A questão reside, pois, nos fins políticos da operação.

As próprias declarações do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, denunciam a trama e os seus fins. Disse ele que esta acção internacional de condenação da Rússia não é só uma resposta ao suposto ataque contra o espião Skripal, mas sim uma resposta mais ampla dos países da NATO ao que ele diz ser “o comportamento” da Rússia. E cita como exemplos desse “comportamento” a integração da Crimeia na Federação Russa (a que chama “anexação”), a “desestabilização” do leste da Ucrânia, os ataques informáticos e — aqui é que bate o ponto — “o grande investimento russo em equipamento militar moderno”.
Eis, portanto, as “provas” da implicação da Rússia no caso Skripal! E podemos acrescentar outras: a ajuda militar ao governo sírio no combate aos mercenários a soldo de americanos e europeus; a condenação das ameaças de Trump à Coreia do Norte; o apoio ao Irão.

Em todo este processo originado no RU — que se desenrolou em poucos dias, dando o ar de um plano de operações — não houve uma prova sequer digna desse nome. Os dirigentes britânicos apenas lançaram acusações sobre os “métodos de Putin”, sobre “o padrão” de ataques do KGB, sobre “as interferências” da Rússia, sobre os “descartar de culpas” do Kremlin — mas nenhum dado verificável.
Como dizia o New York Times (26 de Março), “veredicto: culpado até prova de inocência”.
E foi nesta base de tomem-isto-pela-verdade, que a campanha de angariação de apoios foi lançada, arregimentando os cúmplices mais disponíveis e os lacaios mais medrosos.

O espírito de tais apoios põe de lado qualquer escrúpulo de averiguação da verdade e coloca tudo no plano da “solidariedade” para com o pobre do Reino Unido. E ridiculamente, países que não teriam qualquer razão para hostilizar a Rússia, cumprem a sua obrigação de “solidariedade” expulsando… um diplomata a título simbólico. E os que não o fazem, como a Eslováquia ou Portugal, são pressionados a responder ao “pedido de solidariedade de um aliado importante”. Ganham razão os russos quando denunciam a chantagem exercida por parte de Washington e Londres.

O objectivo político desta manobra vai-se tornando claro: juntar “o Ocidente” em torno da política belicista de Trump e, mais concretamente, reforçar os laços entre membros da NATO. É um toque a reunir. As afinidades dos EUA e do RU (bem sublinhadas por Trump e Teresa May) estão a mostrar os seus frutos envenenados.
A política dita isolacionista de que a administração Trump vem sendo acusada, alienando o apoio dos aliados, tem aqui um contraponto, e mesmo um desmentido. Se não for pela diplomacia e pelos acordos assinados à mesa, será pela chantagem e pela ameaça que o imperialismo norte-americano imporá a sua vontade aos estados europeus e demais joelhos fracos por esse mundo fora. Ninguém melhor que o RU para ajudar nesse servicinho.

Por cá, PCP e BE estão nas encolhas. Louvam a “prudência” e o “bom caminho” do governo PS, e sobre a inventona vão dizendo que a coisa ainda está confusa. Em vez de denunciarem a manobra dos meios imperialistas visando forçar a NATO a cerrar fileiras e a UE a alinhar pelos interesses bélicos dos EUA, ficam-se pelas declarações de meias tintas.

Como o governo, até agora, não expulsou nenhum diplomata russo, isso parece valer por “prudência”. Mas, se prestarmos atenção às declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, teremos de pôr em destaque a vénia que faz “aos interesses europeus e aos interesses da Aliança Atlântica”. Ora, o normal seria exigir provas aos governantes britânicos sobre as acusações que fazem à Rússia e rejeitar os pedidos de “solidariedade” na base da confiança cega, como está a acontecer. Ao evitar o ponto sensível da questão — as provas — o governo mantém a porta aberta às exigências de “solidariedade”, tudo dependendo do grau das pressões que sofrer.(*)

PCP e BE temem, tudo o indica, que se abra um litígio entre eles e o governo por causa dos alinhamentos internacionais e concretamente do papel de Portugal na NATO — como a direita tem tentado (desde 2015, aliás) ao acusar António Costa de estar prisioneiro da aliança com o PCP e o BE. Mas calar a denúncia deste golpe do imperialismo à escala internacional é deixar os povos mais desarmados para enfrentar os passos que certamente se seguirão. Por exemplo, as ameaças à Coreia do Norte e ao Irão e os propósitos de reacender a guerra na Síria.

(*) Posteriormente, em entrevista à RTP (27 de Março) o ministro declarou, alto e bom som, que “Portugal não está fora do movimento de expulsão” e que “nenhuma medida político-diplomática está fora da mesa”.






Um Comentário a “As “armas de destruição massiva” ainda rendem”

  1. leonel clérigo disse:

    UM POLICIAL de FANCARIA: “O CASO DO ENVENENAMENTO DO ESPIÃO RUSSO”

    Desde cedo que ganhei uma convicção: uma boa “História Policial” só podia ser feita pelos ingleses. Mestres do “suspense”, a reviravolta da “pista falsa” chegava de surpresa e o fim “inesperado” empurrava-nos para ler de novo a “história”. Ficávamos sem fôlego. E lido à noite, já entre os lençóis, o sono teimava em chegar, como se tivesse ido dar uma volta pelo bairro. O policial inglês era obra de Mestres.

    Hoje, a Inglaterra “perdeu a graça” no policial. Sr.ª Theresa May, nem chega sequer aos calcanhares da fabulosa Agatha Christie. “O caso do envenenamento do espião russo”, tem tudo o que uma boa história policial não deve ter: um “enredo” manhoso, sem “lógica”, “sem pistas” para o leitor exercitar as “meninges”… em suma: tudo o que levaria um Hercule Poirot a perder a sua “polidez aristocrática” e desatar aos palavrões.

    Temos que admitir uma coisa que a História está farta de nos ensinar: a decadência pode até afectar os melhores…

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