A chave do “crescimento”

Manuel Raposo - Sábado, 3 Março, 2018

Vigília de trabalhadores da Gramax (ex-Triumph)Os aleluias que o PS e apoiantes cantam ao crescimento da economia (2,7% em 2017 e 2,2% previstos para este ano) e à “convergência com a Europa” que esses números parecem apontar não conseguem esconder as enormes fraquezas, de condições de vida e de trabalho, em que permanece a população assalariada. Na verdade, o “êxito” assenta sobretudo no tremendo rebaixamento social que as classes trabalhadoras sofreram, não apenas nos anos da troika-PSD-CDS, mas nas últimas décadas — rebaixamento que persiste no essencial.

Veja-se isto.
Dados recentes da União Europeia mostram que em 2017 os rendimentos dos agregados familiares portugueses permaneceram abaixo dos níveis de 2008, início da crise dita financeira. Dos 28 estados da UE, todos, menos 6 (Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Croácia e Holanda), tiveram crescimento desses rendimentos.

O sector da hotelaria, que tem registado um aumento contínuo dos negócios nos últimos anos — e que conta muito para os números do crescimento global do país — progride à custa de 80 a 90 mil trabalhadores com salários congelados. Os dados são do sindicato da hotelaria do Norte.

As previsões a prazo apontam para uma queda do ritmo de crescimento — o que deu pretexto ao comissário europeu Dombrovskis para insistir em “mais esforços” e em “reformas concretas”, não estando seguramente a referir-se à melhoria das condições sociais e laborais dos trabalhadores…

Os empregos novos criados nos últimos dois anos, que têm servido para diminuir a estatística do desemprego, são, na esmagadora maioria, precários e remunerados nas margens do salário mínimo.

Nos últimos meses, uma vaga de falências e de despedimentos devastou ou ameaça milhares de empregos, concretamente da indústria: Triumph, Ricon, GE, Cofaco. Mas também na PT, nos CTT ou na Petrogal.

É o conjunto desta degradação contínua da condição social do trabalho que tem permitido, nos recentes 10 anos, atenuar os efeitos da crise do lado do capital; e facilitar o (ainda assim, inseguro) “crescimento” com que agora o poder político exulta.
Por exemplo, entre 2009 e 2015 a parte do trabalho no PIB desceu de 37,4% para 33,7%; e a remuneração anual dos trabalhadores por conta de outrem sofreu uma quebra, em valor médio, de mais de 1000 euros por trabalhador.

Sabemos que este quadro não se inverteu. E, enquanto persistir, a direita pode — com cinismo, mas também com alguma razão — dizer que foi graças à devastação que ela causou nos direitos do trabalho que a actual “reanimação” dos negócios se pode dar. Irónico, não é verdade?
Não é pois de aceitar a ilusão de que as coisas estão agora “no bom caminho”. Não, não está tudo no bom caminho.

PCP e BE propõem-se, nesta recta final da legislatura, pressionar o governo para reverter as modificações às leis do trabalho impostas nos anos da troika por PSD e CDS. Muito bem. Mas importa lembrar duas coisas.

Uma, é que as razias de Passos Coelho e Portas são apenas uma parte da questão. É bom não esquecer, por exemplo, nem o código do trabalho de Bagão Félix (2002), que abriu a porta à precariedade; nem a reforma da Segurança Social de Vieira da Silva (2006), que criou um mecanismo de redução permanente das pensões a pretexto da “sustentabilidade” do sistema.

A outra questão tem a ver com os ensinamentos das lutas sociais. Nenhuns progressos para o lado do trabalho ficam assegurados se não forem os trabalhadores a obtê-los com a força da sua luta. O que contará, quando se fechar o ciclo da actual fórmula governativa, será o peso social e político, a independência, a capacidade de iniciativa dos trabalhadores na balança da luta de classes.






Um Comentário a “A chave do “crescimento””

  1. afonsogonçalves disse:

    É certo que a pequena.burguesia e a classe média, quase desde sempre, viveram alienadas nas delícias do capitalismo florescente. O comunismo como sabemos foi identificado como a perversão do progresso e do bem estar e à classe operária e aos trabalhadores assalariados foram foi-lhes subtraído o seu instrumento ideológico que faria dar-lhe a consciência de que estavam a ser enganados, trabalhadores que na Europa e EUA nos séculos XVIII e XIX conquistaram através das suas lutas consequentes e mobilizadoras direitos que pareciam tornar-se inalienáveis e imprescritíveis. Mas, hoje em dia, verifica-se que são os próprios trabalhadores e sindicatos a conciliarem-se com o sistema capitalista para que ele não desabe definitivamente. Nesta alienação e decadência geral o capitalismo afoga-se porque não consegue sobreviver e os trabalhadores afundam-se com ele no abismo que se adivinha.

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